Quem merece a riqueza e o sofrimento? A teologia e a vocação no mundo de hoje. Artigo de Jung Mo Sung

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25 Mai 2026

"Com as grandes mudanças que ocorreram nos últimos 20 anos, não sabemos muito bem quais caminhos ou projetos sociais concretos a trilhar, ou quais análises nos ajudam a entender melhor esse mundo, mas vivemos a fé de que os sofrimentos dos pobres e oprimidos são injustiças sociais produzidos por um sistema pecaminoso e devemos muda-lo."

Eis o artigo. 

No último artigo, ao falar da centralidade do padre/pastor nas igrejas e a nova direita, eu apresentei algumas questões dos problemas das teorias da secularização e da vocação e o papel dos padres/pastores na sociedade hoje. Neste artigo, eu quero continuar essa reflexão.

Com as guerras religiosas quase “sem fim”, nos séculos XVI e XVII na Europa Ocidental, a solução encontrada foi a separação entre o Estado e a Igreja/religião. Pois, quando se guerreia em nome de Deus, os inimigos são vistos como demônios, e não se pode fazer paz ou acordo político com eles para terminar uma guerra. A única solução é matar todos os inimigos ou morrer, mas quando essas guerras não terminam “nunca”, é preciso inventar uma nova equação ou narrativa histórica sobre as guerras e Deus. E a invenção que o mundo moderno criou foi a separação da relação entre o Estado e a Igreja/religião. Isto é, Deus/Igreja/religião saem da esfera do Estado e da vida pública, e se reduz a um problema da vida privada e pessoal.

Um erro teórico na justificativa da solução prática com a secularização foi identificar a separação da esfera institucional do Estado e da Igreja com a separação da vida pública e da vida privada ou comunitária, que deveria levar a religião a não ter mais poder ou importância no campo público. A questão da laicidade do Estado tem a ver com a relação institucional do Estado e com as Igrejas ou outras formas institucionais de religiões; e é uma conquista da modernidade que permite a convivência de grupos religiosos distintos e até mesmo conflitantes. Porém, essa separação institucional não nega ou não pode negar a existência da dimensão religiosa na vida pública na sociedade. É isso que Max Weber discute ao afirmar que todas sociedades, sejam antigas e modernas, oferecem e precisam oferecer sacrifícios aos seus “deuses” (no capitalismo, o “Mercado Livre”) para justiçar o seu sistema econômico-social-político-militar que mantém o poder e os privilégios dos dominantes.

Justificar e legitimar as desigualdades que ocorrem entre grupos e classes sociais em termos de direitos e deveres, alegrias e sofrimentos/dores, e até mesmo em termos de esperança e de senso dignidade humana, é uma questão teológico-religiosa na esfera pública da sociedade. É o que W. Benjamin e diversos teólogos da libertação falaram do “capitalismo como religião”.

Nesse processo de conflitos e lutas em torno do, por ex., “quem merece ou não a riqueza que o capitalismo produz”, “os pobres merecem (ou não) seus sofrimentos porque são (ou não) pecadores/ineficientes”, padres e pastores têm um papel social-religioso significativo. Isto é, eles/elas dão sentido existencial e moral dessa divisão desigual aos membros das suas comunidades e, ao mesmo tempo, suas explicações têm peso na opinião pública. Provavelmente, muitos padres e pastores fazem suas pregações e suas liturgias sem ter consciência de que suas práticas religiosas têm grande impacto, não só na vida das comunidades, mas também na esfera pública. Ao afirmar que os ricos merecem a sua riqueza, porque são abençoados por Deus; ou que diz que Deus não se importa com os sofrimentos dos pobres porque a sua vocação de padre ou pastor tem a ver com sua missão de levar almas à vida eterna ... eles rompem a fronteira da esfera privada e a pública. As teorias ou explicações baseadas na teoria da secularização não permitem ou dificultam entender essa relação “confusa” entre a fé-política (que existe tanto na direita, quanto na esquerda) e a separação entre o Estado e a Igreja.

Na teologia do capitalismo neoliberal-autoritário, a ineficiência e a incapacidade de consumir dos pobres é a comprovação de que eles são pecadores; ou como disse Z. Bauman, ser pobre é visto como a encarnação do pecado. Contra esse “pecado social”, muitos padres e pastores vivem a sua “vocação” pregando “a virtude do egoísmo” (título do livro de Ayn Rand, uma das principais influenciadoras do neoliberal cultural) e a da insensibilidade social. Ao mesmo tempo, vendem a promessa de uma vida “blindada” de problemas e sofrimentos, que surgem quando você “ama o próximo”.

Por outro lado, há padres, pastores/as, lideranças comunitárias e agentes pastorais que vivem a sua vocação, o chamado que vem de Deus e dos que sofrem, de testemunhar que os seus sofrimentos não são punições de Deus, mas sim obras do pecado do mundo. Com as grandes mudanças que ocorreram nos últimos 20 anos, não sabemos muito bem quais caminhos ou projetos sociais concretos a trilhar, ou quais análises nos ajudam a entender melhor esse mundo, mas vivemos a fé de que os sofrimentos dos pobres e oprimidos são injustiças sociais produzidos por um sistema pecaminoso e devemos muda-lo.

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