15 Mai 2026
Ele seria o responsável por produzir desenhos e adesivos que propagandeavam ideias neonazistas, divulgadas no bairro Cidade Baixa; O grupo pedia colaboração financeira nas redes sociais.
A reportagem é de Niara Aureliano, publicada por Extra Classe, 14-05-2026.
Três jovens de classe média alta suspeitos de integrar um grupo neonazista foram alvo de uma operação da Polícia Civil nesta quinta-feira, 14 de maio. Quatro mandados de busca e apreensão foram cumpridos em Porto Alegre e Canoas, na Região Metropolitana. O suspeito de liderar o grupo autointitulado “Tumulto”, um homem de 20 anos, foi preso. A Operação Revelare, deflagrada nesta manhã, identificou outros dois suspeitos, um homem de 20 anos e uma mulher, de 19.
A investigação da Delegacia de Polícia de Combate à Intolerância de Porto Alegre (DPCI) aponta que os suspeitos atuavam em redes sociais e aplicativos, como o Telegram, difundindo material neonazista. Eles também colavam cartazes e adesivos pelo bairro Cidade Baixa, na capital gaúcha, em busca de angariar adeptos à ideologia neonazista, além de serem responsáveis por realizar encontros presenciais.
“O líder do grupo, que foi preso, era o responsável por fazer designs e desenhos a respeito do grupo, para divulgar, propagandear. Desenhos que não apresentavam a simbologia nazista clássica, por exemplo, a suástica, mas traziam símbolos neonazistas, nos quais havia também QR Code, direcionando para grupos de mensagens. Esses adesivos eram espalhados pela cidade de Porto Alegre. Além disso, buscavam angariar recursos com a venda desses adesivos e também com doações via transferência bancária solicitadas em redes sociais”, confirma o delegado responsável pela Operação Revelare, Vinícius Nathan.
A Polícia Civil não identificou ação dos grupos em escolas e universidades do estado ou a realização de atentados. Os suspeitos não possuíam antecedentes criminais e os nomes não foram divulgados. Os discursos de ódio eram voltados a judeus, pessoas LGBTs e contra a população negra, informa o delegado.
Apreensão
Durante o cumprimento dos mandados, foram apreendidos um taco de beisebol com arame farpado, aparelho de choque de segurança pessoal, desenhos neonazistas, máscaras de personagens, livros sobre a temática nazista, roupas táticas e militares, roupas associadas a grupos extremistas e celulares.
Rio Grande do Sul
A partir do monitoramento de células neonazistas no Rio Grande do Sul pela antropóloga Adriana Dias, falecida em 2023, o policial civil e atual deputado estadual Leonel Radde (PT), que colaborou com a pesquisadora, explica as diferenças entre os grupos extremistas que atuam no estado.
“Os grupo mais clássicos, esses de gangue, podemos vincular com os skinheads; e o outro grupo, chamado aceleracionista, é mais vinculado a redes sociais. Vai atuar mais em grupos como o Discord, além do WhatsApp, Telegram e outras redes. Eles angariam esses seguidores, principalmente porque houve uma leniência durante o governo de Jair Bolsonaro (PL) no combate a essas células neonazistas. Esse discurso está vinculado a ataques armados em escolas, à questão de automutilação, inclusive, material de pedofilia”, contextualiza Radde, que é coordenador do Núcleo de Luta contra o Nazismo do partido, que atua com o recebimento de denúncias de extremismo e encaminhamento destas para investigação.
O parlamentar identifica que há uma gameficação do discurso neonazista nas redes sociais, que cada vez mais envolve jovens com o discurso de ódio contra pessoas negras, o empoderamento feminino, grupos ideologicamente vinculados à esquerda, pessoas LGBTQIAP+ e o movimento feminista. “Observamos uma gameficação nessas redes sociais onde (indivíduos) recebem missões a serem cumpridas e quanto mais violentas – matar um gato, torturar um cachorro – quanto mais violento, mais avançam dentro desses grupos aceleracionistas, de redes sociais”, diz Radde.
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