14 Mai 2026
"Um ano após sua morte, Pepe Mujica continua a ocupar um lugar especial no imaginário uruguaio."
O artigo é de Andrea Cegna, jornalista, no il manifesto de 13-05-2026.
Eis o artigo.
"Maio é o mês do velho Pepe, o primeiro ano que não o temos aqui conosco." Assim lembrou o presidente uruguaio Yamandú Orsi José "Pepe" Mujica em 1º de maio. Uma frase simples, dita com melancolia, que bem descreve o clima no Uruguai um ano após a morte de Pepe.
Mujica faleceu em 13 de maio de 2025, aos 89 anos, após uma longa batalha contra o câncer de esôfago.
Nos últimos meses, ele havia se afastado gradualmente da vida pública; nos últimos anos, construiu sua sucessão dando espaço a uma nova geração política e falando publicamente, sem tabus, sobre sua doença. Ele se aposentou com uma frase que todos no Uruguai ainda se lembram: "Este guerreiro chegou ao fim de uma longa jornada. Estou cansado e doente, deixem-me ir em paz." Hoje, no primeiro aniversário de sua morte, o país parece querer fazer exatamente o oposto: manter Pepe vivo por mais tempo, continuar conversando com ele, encontrá-lo nos lugares de seu ativismo, nas ruas, nos bairros operários, nos rituais coletivos que acompanharam toda a sua vida política.
Por isso, o Movimento de Participação Popular, partido Frente Amplio do qual Mujica era membro, organizou ontem fogueiras por todo o país. Fogueiras, na tradição popular uruguaia e rioplatense, são encontros coletivos ao redor do fogo: momentos de convívio, discussão política, música, mate compartilhado e construção de comunidade. Não são meras comemorações formais, mas encontros populares compostos por murais, escritos, propaganda e memória coletiva. Uma forma profundamente uruguaia e profundamente "mujiquista" de encontro: reunir-se para discutir política, vida e o país.
O momento central de lembrança será hoje no Teatro El Galpón, em Montevidéu, um dos lugares simbólicos da cultura de esquerda uruguaia, perseguida durante a ditadura e historicamente ligada aos movimentos populares. Segundo informações prévias, haverá músicos, discursos políticos, materiais audiovisuais e artistas ligados à história da Frente Amplio, incluindo a banda de rua Agarrate Catalina. Mas Lucía Topolansky explicou o evento de forma muito mais simples: "Haverá alguns cantores, algumas palavras e, acima de tudo, um abraço."
Orsi, nos últimos dias, voltou a enfatizar o valor do encontro: "Quando a política ou as tensões de uma sociedade tendem a dividir, o esforço fundamental de quem governa, mas também de quem participa da política, é buscar um terreno comum." Num continente marcado por polarizações cada vez mais acirradas, a memória de Mujica torna-se, portanto, também um apelo a uma outra ideia de política: radical, mas capaz de diálogo; confrontativa, mas profundamente ligada a laços sociais e territoriais.
Um ano após sua morte, Pepe Mujica continua a ocupar um lugar especial no imaginário uruguaio. Não apenas como ex-presidente, ex-guerrilheiro tupamaro ou símbolo global da esquerda latino-americana, mas como uma presença familiar, quase doméstica. Uma daquelas pessoas que, mesmo não estando mais entre nós, continuam a sentar-se à lareira com os outros.
E talvez precisamente por isso, nas últimas horas, uma das definições mais impactantes veio da vice-presidente do Uruguai, Carolina Cosse, que, ao falar de Mujica, disse: "Uma das grandes contribuições de Pepe para a política uruguaia foi trazer humanidade. Com suas forças e fraquezas, mas com muita franqueza, muito carinho pela política e um profundo amor por seu povo."
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