Hannah Arendt entre fronteiras e desterros: migrantes, apátridas e refugiados na crise contemporânea do mundo comum. Artigo de Márcia Rosane Junges

Foto: Refugiados gregos aguardando para embarcar em barcos que os transportarão para a Grécia. Esmirna (atual Izmir). Wikimedia Commons | Unknown author

11 Mai 2026

Em um tempo histórico marcado por guerras incessantes e difusas, fronteiras cada vez mais militarizadas e populações inteiras reduzidas à condição de deslocamento permanente, a reflexão sobre apátridas, refugiados e migrantes tornou-se uma das questões decisivas da filosofia política contemporânea. Ao transformar a própria experiência do exílio em horizonte de pensamento, Hannah Arendt compreendeu que a figura do refugiado não constitui uma anomalia periférica da Modernidade, mas uma de suas expressões mais profundas e inquietantes. A partir da perda da pátria, da cidadania e do pertencimento político, Arendt revelou a "fragilidade dos direitos humanos" quando estes deixam de encontrar sustentação em uma comunidade política concreta, evidenciando que o verdadeiro drama do apátrida consiste na perda do "direito a ter direitos", isto é, da possibilidade de existir publicamente como sujeito de palavra, ação e reconhecimento.

Em meio às crises migratórias do século XXI, à expansão das políticas xenófobas e à transformação de multidões humanas em vidas administradas sob o signo da precariedade e da invisibilidade, o pensamento arendtiano recebe singular atualidade. É nesse horizonte ético e político que o "Colóquio Internacional Hannah Arendt. Uma filosofia em diálogo com o século XXI", promovido pelo Instituto Humanitas Unisinos – IHU, propõe uma reflexão sobre os fundamentos da vida coletiva, interrogando a capacidade das democracias contemporâneas de preservar o espaço público, acolher a pluralidade humana e reconstruir um mundo comum diante da indiferença, do medo e da exclusão.

“Ao transformar a própria experiência de exílio em reflexão filosófica, Arendt fez do pensamento uma forma de resistência contra a desumanização produzida pelos regimes totalitários e pelas burocracias da exclusão”. A reflexão é de Márcia Rosane Junges, professora da graduação e pós-graduação em Filosofia da Universidade do Vale do Rio dos Sinos – Unisinos, jornalista da equipe de comunicação do Instituto Humanitas Unisinos – IHU.

Eis o artigo.

Em um mundo atravessado por guerras intermináveis, fronteiras militarizadas e deslocamentos humanos em escala massiva, pensar os apátridas, refugiados e migrantes tornou-se mais do que uma exigência política: trata-se de uma urgência ética e filosófica. Ao longo do século XX, Hannah Arendt compreendeu, a partir da própria experiência do exílio e da perda da cidadania, que a figura do refugiado não representa uma exceção periférica da Modernidade, mas uma de suas verdades mais inquietantes.

A experiência do exílio marcou profundamente não apenas a trajetória biográfica de Arendt, mas também o núcleo de sua reflexão filosófica. Nascida em 1906, na Alemanha, a pensadora viveu o colapso da República de Weimar e a ascensão do nazismo, sendo obrigada a abandonar o país em razão de sua condição judaica e de sua atuação intelectual crítica ao regime hitlerista. Após ser presa brevemente pela Gestapo em 1933, fugiu para Paris, onde trabalhou com organizações de apoio a refugiados judeus, auxiliando jovens deslocados a encontrarem rotas de sobrevivência em meio ao avanço do antissemitismo europeu. Mais tarde, com a ocupação nazista da França, foi internada no campo de Gurs como estrangeira "indesejável", experiência que intensificou sua percepção da vulnerabilidade humana diante das estruturas estatais modernas. A fuga para os Estados Unidos, em 1941, consolidaria sua condição de refugiada e transformaria o desenraizamento em uma preocupação decisiva de seu pensamento.

Essa vivência concreta da perda da pátria e da cidadania permitiu que Arendt compreendesse a condição do refugiado para além das estatísticas ou dos discursos jurídicos. Em sua obra, o apátrida aparece como a figura que desnuda a insuficiência dos chamados "direitos do homem" quando estes deixam de estar garantidos por uma comunidade política efetiva. O século XX revelou, para Arendt, uma contradição radical: justamente no momento em que os direitos humanos eram proclamados como universais, milhões de pessoas eram privadas de qualquer pertencimento político e reduzidas à mera condição biológica da sobrevivência. É dessa experiência histórica que emerge sua célebre formulação do "direito a ter direitos", expressão que não designa apenas direitos legais, mas o direito fundamental de pertencer a um mundo comum, de ser visto, ouvido e reconhecido como alguém cuja existência possui significado político.

Ao transformar a própria experiência de exílio em reflexão filosófica, Arendt fez do pensamento uma forma de resistência contra a desumanização produzida pelos regimes totalitários e pelas burocracias da exclusão. Sua filosofia nasce do choque entre catástrofe histórica e responsabilidade ética: pensar tornou-se, para ela, uma maneira de impedir que o horror se naturalizasse. Por isso, sua obra permanece profundamente atual diante das crises migratórias contemporâneas, das populações deslocadas por guerras, fome e perseguições políticas. A condição do refugiado, em Arendt, deixa de ser uma exceção histórica e passa a revelar uma verdade estrutural da Modernidade: a fragilidade da dignidade humana quando o pertencimento político é destruído. Seu pensamento continua a interpelar o século XXI ao recordar que toda sociedade é julgada pela maneira como acolhe aqueles que perderam o lugar no mundo.

Fragilidade dos direitos humanos

O refugiado é aquele que, privado de pertencimento político, revela a fragilidade dos direitos humanos quando estes já não encontram amparo em uma comunidade política concreta. É nesse horizonte que a conferência desta quarta-feira, 13 de maio, das 10h às 11h30min, transmitida pelo canal do YouTube do IHU, intitulada "Um olhar sobre os apátridas, refugiados e migrantes", ministrada pela Profa. Dra. Maria Cristina Müller, docente na Universidade Estadual de Londrina – UEL e especialista no pensamento arendtiano, insere-se no contexto do "Colóquio Internacional Hannah Arendt. Uma filosofia em diálogo com o século XXI", propondo uma reflexão sobre os modos pelos quais a contemporaneidade continua produzindo vidas expostas à precariedade, à invisibilidade e ao abandono político.

Na perspectiva arendtiana, o drama dos apátridas não se reduz à ausência de documentos ou nacionalidade; ele expressa a ruptura entre humanidade e reconhecimento político. Quando alguém perde o lugar no mundo comum, perde também aquilo que Arendt chamou de "o direito a ter direitos": a possibilidade de aparecer publicamente, agir e ser reconhecido como sujeito de palavra e ação. Em um século XXI marcado pela intensificação dos fluxos migratórios, pelas crises humanitárias e pela ascensão de novas formas de nacionalismo e exclusão, o pensamento de Arendt reaparece com força singular.

O Colóquio Internacional busca justamente atualizar e problematizar conceitos como totalitarismo, banalidade do mal, espaço público e direito a ter direitos, entre outros a serem desenvolvidos nas demais três conferências da programação, interrogando os impasses éticos e políticos do presente. Nesse sentido, refletir sobre refugiados e migrantes significa também questionar o futuro das democracias, a capacidade das sociedades contemporâneas de acolher a pluralidade humana e a possibilidade de reconstrução de um mundo comum em tempos de medo, indiferença e exclusão.

Fundamentos éticos da vida coletiva

A condição contemporânea dos refugiados evidencia uma transformação profunda das relações entre soberania, território e humanidade. Em diversas regiões do mundo, multidões deslocadas passam a existir em zonas de suspensão jurídica, confinadas em campos humanitários, centros de detenção ou fronteiras militarizadas, onde a vida é administrada sob o signo da emergência permanente. Nessas circunstâncias, o refugiado deixa de ser percebido como sujeito político e passa a ser tratado como problema administrativo, estatística migratória ou ameaça à segurança nacional. A crítica arendtiana torna-se particularmente decisiva nesse contexto ao revelar que o perigo maior não reside apenas na perda de direitos específicos, mas na perda da própria condição de pertencimento a um espaço em que a palavra, a ação e a existência possam adquirir reconhecimento público.

Essa realidade expõe também uma crise das democracias liberais contemporâneas. Embora fundadas em discursos universais de igualdade e dignidade humana, muitas sociedades modernas operam mecanismos seletivos de inclusão, acolhendo determinados grupos enquanto transformam outros em figuras descartáveis ou indesejáveis. O crescimento de políticas xenófobas, o fortalecimento de discursos ultranacionalistas e a criminalização da migração revelam uma contradição central da modernidade política: a coexistência entre a linguagem dos direitos universais e práticas concretas de exclusão. Em Hannah Arendt, essa tensão aparece de modo radical, pois a filósofa compreende que os direitos humanos somente se tornam efetivos quando existe uma comunidade política disposta a reconhecer os indivíduos como participantes legítimos do mundo comum.

Ao mesmo tempo, refletir sobre migrantes e apátridas implica questionar as formas contemporâneas de invisibilidade social. Há uma violência silenciosa produzida não apenas pela guerra ou pela expulsão territorial, mas pela indiferença cotidiana que transforma certas vidas em existências sem rosto e sem narrativa. Arendt compreendeu que a política nasce da pluralidade humana e da capacidade dos indivíduos de aparecerem uns diante dos outros como seres singulares. Quando populações inteiras são reduzidas à condição de mera sobrevivência biológica, perde-se justamente aquilo que sustenta a experiência política: a possibilidade de participação, memória, reconhecimento e construção compartilhada do mundo. O refugiado torna-se, assim, símbolo extremo de uma humanidade privada de voz e condenada à invisibilidade pública.

Nesse cenário, a reflexão filosófica proposta pelo "Colóquio Internacional Hannah Arendt. Uma filosofia em diálogo com o século XXI" adquire especial relevância ao recuperar a necessidade de reconstrução do espaço público como lugar de convivência entre diferenças. Pensar os refugiados não significa apenas discutir políticas migratórias ou estratégias humanitárias, mas interrogar os fundamentos éticos da vida coletiva no século XXI. A obra de Arendt convida a reconhecer que nenhuma democracia pode sustentar-se sobre a exclusão sistemática daqueles considerados excedentes ou estrangeiros. Diante de um tempo marcado pelo medo, pela fragmentação social e pela erosão do diálogo público, sua filosofia insiste na urgência de recuperar a responsabilidade compartilhada pelo mundo comum, compreendendo que a dignidade humana depende, antes de tudo, da possibilidade de cada pessoa existir politicamente entre os outros.

Anote e participe!

Colóquio Internacional Hannah Arendt. Uma filosofia em diálogo com o século XXI
Um olhar sobre os apátridas, refugiados e migrantes

📍 Profa. Dra. Maria Cristina Müller – UEL
⏰ 13/05 | 10h às 11h30min
🎥 Transmissão ao vivo

YouTube: https://www.youtube.com/watch?v=AwaiP79ZGmk
Facebook: https://www.facebook.com/InstitutoHumanitasUnisinos/events

📌 A atividade é gratuita. Será fornecido certificado a quem se inscrever e, no dia do evento, assinar a presença por meio do formulário disponibilizado durante a transmissão.
📌 O evento ficará gravado no YouTube e Facebook e pode ser acessado a qualquer momento.

Inscrições e mais informações: https://www.ihu.unisinos.br/evento/hannah-arendt

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