A subordinação da mulher ao marido e o bispo ganancioso com esposas: a interpretação da Bíblia e a política. Artigo de Jung Mo Sung

Foto: Pexels/Canva

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07 Mai 2026

"Essa discussão de hermenêutica bíblico-teológica é e se tornou um elemento fundamental para a relação 'fé e política' e para a eleição deste ano", escreve Jung Mo Sung, teólogo católico e cientista da religião.

Eis o artigo.

Em uma recente entrevista, publicada no Instituto Humanitas Unisinos – IHU (06-05-2026), Judith Butler diz: “Se a direita apela ao ódio e ao que eu chamo de ‘nostalgia furiosa’, a esquerda deve buscar modelos de coração aberto que falem de amor e de tradições religiosas que se diferenciem do nacionalismo cristão”. Esse tema do nacionalismo cristão é muito importante nos Estados Unidos e também no mundo evangélico brasileiro, mas não tanto no campo católico. Em todo caso, estamos falando da importância da relação entre a religião e a política, em particular a questão da interpretação tradicional ou fundamentalista dos textos bíblicos e doutrinários aplicados no mundo da política.

Argumentos e “julgamentos” da esquerda produzidos a partir da razão moderna ilustrada (incluindo teologias que usam mais discursos filosófico ou racionais do que bíblicas) contra a leitura “conservadora” e da direita não funcionam quando dialogamos com movimentos religiosos que tendem a aliar-se com a direita. E, é importante lembrarmos que, com a nova configuração da relação entre a “fé e política”, o tema da sujeição da mulher ao marido (Ef 5,22) como plano de Deus (trazido pelo Frei Gilson na rede social) é, ao mesmo tempo, uma questão moral e política, com impacto nas eleições.

Por isso, retomando o meu artigo anterior, Patriarcado é um plano de Deus ou pecado social?, quero discutir aqui o tema de o que é a “verdade eterna” na Bíblia. O argumento dos conservadores é que não se deve mudar a relação de domínio do marido sobre a mulher porque essa é da vontade eterna de Deus. Isto é, a Bíblia nos revelaria os planos ou projetos concretos de Deus, não só na família, mas também nas relações econômico-sociopolíticas. Lógica essa que favorece à direita e aos conservadores porque mantém as desigualdades sociais injustas e opressivas em nome de Deus ou da ordem “natural”.

Ao invés de discutirmos o argumento interno do ensinamento de Paulo que temos na relação marido-mulher na carta aos Efésios, eu quero trazer aqui um outro ensinamento de Paulo sobre uma relação de hierarquia na Igreja. Na carta a Tito, Paulo diz que na seleção do bispo se deve escolher alguém que “seja irrepreensível, marido de uma só mulher ... nem cobiçoso de torpe ganância” (Tito, 1, 6-7). Se o apóstolo Paulo prescreve isso, significa que havia comunidades cristãs em que bispo tinha várias mulheres e/ou era ganancioso.

Para os católicos, mais do que a questão da ganância, é o problema de o bispo ter uma ou mais mulheres, pois a Igreja Católica Romana introduziu, a muito tempo, o celibato obrigatório para padres e bispos. Temos aqui um processo em que se elegia bispos homens que tinham várias mulheres, passando para a regra de escolher alguém que só tinha uma mulher e chegou ao celibato obrigatório. Essa organização e hierarquização da Igreja foi estabelecida por Deus desde a eternidade? Para os católicos, não! Então, nem tudo é eterno nas prescrições da Bíblia.

Voltemos ao caso do marido e mulher. Podemos interpretar o ensinamento de Paulo do mesmo modo: vendo a relação de domínio absoluto do marido sobre a mulher (quando o homem, por exemplo, podia expulsar a mulher da casa por meio de uma simples carta de divórcio), ensinou que o marido deve respeitar a mulher e usou o exemplo da relação de Cristo com a Igreja. Temos duas interpretações possíveis: esse ensinamento era uma “revelação” do plano eterno de Deus imutável, ou um ensinamento pedagógico que era possível dentro dos limites da cultura concreta e da capacidade de aprender da comunidade.

Quem acredita que tudo o que Paulo falou é imutável, então também deve usar esse critério também para os bispos, no caso dos católicos o casamento, e para os evangélicos a ganância. Outra forma de ler esses dois ensinamentos de Paulo é: ele tinha uma “visão” do que Deus que diz: “Não há judeu nem grego, não há escravo nem livre, não há homem nem mulher; pois todos vós sois um só em Cristo Jesus” (Gal 3,28), mas sabia que pessoas e comunidades têm um processo pedagógico que é mais lento do que idealizamos.

Por isso, o Novo Testamento fala do papel do Espírito Santo de ajudar as comunidades a compreender melhor a riqueza da boa-nova de Jesus e aperfeiçoar e modificar as organizações da vida familiar, eclesial e da sociedade na medida em que a história caminha. A missão do cristianismo é a de sempre buscar e melhorar as relações intersubjetivas e relações institucionais que expresse o Reino de Deus no meio de nós. Isso é o que é o mais tradicional que vem desde o início do cristianismo. Defender a imutabilidade de uma determinada forma de estruturar as relações intersubjetivas, sociais e institucionais é negar o papel do Espírito Santo na história.

Essa discussão de hermenêutica bíblico-teológica é e se tornou um elemento fundamental para a relação “fé e política” e para a eleição deste ano.

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