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04 Mai 2026

Elon Musk e Sam Altman não são dois visionários lutando pelo futuro da indústria; são dois oportunistas lutando com unhas e dentes pelo mesmo prêmio.

A reportagem é de Marta Peirano, publicada por El País, 04-05-2026.

Há onze anos, Elon Musk e Sam Altman cofundaram uma startup chamada OpenAI. Eles queriam desenvolver uma inteligência artificial "segura e aberta" para salvar a humanidade daquela que Demis Hassabis estava desenvolvendo para o Google DeepMind.

Administrativamente, seria uma organização sem fins lucrativos porque, se buscassem maximizar os lucros, teriam incentivos para priorizar a velocidade em detrimento da segurança, lançar sistemas perigosos sem considerar as consequências e concentrar poder em excesso. É difícil de imaginar. Eles pretendiam investir até US$ 1 bilhão do próprio bolso, a maior parte de Musk. A premissa de ONG os ajudou a seduzir engenheiros genuinamente convencidos do altruísmo científico do projeto, que deixaram empresas como Google e Meta por salários menores, mas com uma sensação melhor. Também os ajudou a garantir acordos generosos com empresas como a Nvidia e justificar o roubo de bilhões de peças de conteúdo protegido por direitos autorais. Tudo pela ciência e pela paz mundial. Dois anos depois, Musk quis transformar o projeto em uma empresa com fins lucrativos e levá-lo para a Tesla. Não deu certo.

Houve uma luta pelo poder, e Altman venceu, mantendo a empresa, mas perdendo sua fonte de financiamento. Ele logo descobriu que treinar modelos de IA é muito caro. Em 2019, inseriu uma entidade de propósito específico dentro da ONG para atrair investidores. Agora, trata-se de uma estrutura complexa chamada OpenAI Nonprofit, que contém a entidade com fins lucrativos que de fato opera o negócio — a OpenAI Global LLC — e, dentro dela, outra camada operacional chamada OpenAI OpCo. Mas a empresa é avaliada em US$ 850 bilhões e quer abrir seu capital.

Musk está acusando Altman, o presidente Greg Brockman e a Microsoft de quebra de dever fiduciário e violação da estrutura de uma organização beneficente, e exige US$ 134 bilhões, a destituição de Altman e Brockman e a reintegração da organização. Todos sabem que ele não tem chance, mas não havia tanta repercussão desde que Zuckerberg explicou ao senador de Utah como ganhava dinheiro oferecendo serviços gratuitos ("Senador, nós exibimos anúncios"). Sabemos que ele vai expor os segredos de dois dos homens mais poderosos do mundo e seus impérios monstruosos e em expansão.

Não há nada de positivo nisso: é o Coringa contra o Duende Verde, Lex Luthor contra o Doutor Destino. Musk diz que concebeu o projeto, financiou-o, deu-lhe nome e definiu sua "ideologia". Investiu menos de US$ 40 milhões, mas trouxe o ativo mais importante: Ilya Sutskever, o arquiteto do GPT. Altman assumiu o projeto, não foi "consistentemente franco em suas comunicações" e não trabalhou para o bem comum. Mas a pessoa que fez da OpenAI um sucesso foi Sutskever, que despreza ambos e deixou a OpenAI em 2024 para fundar a Safe Superintelligence, empresa de IA focada em segurança. Os arquitetos dessa revolução — Sutskever e Hassabis — sabem que, se possível, a inteligência geral não é uma propriedade emergente da arquitetura atual, não importa quantos servidores, unidades gráficas e eletricidade sejam adicionados à mistura. Essa constatação não tem nada a ver com o futuro ou com IA. Seu único propósito é destruir Sam Altman antes que ele possa tornar isso público, para satisfazer o ressentimento de seu arqui-inimigo e eliminar a concorrência.

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