Em memória de São Filipe e Tiago, o Irmão do Senhor, na festa do descobrimento da cruz, no caminho rumo à morada eterna, na inspiração de Jo 14,1-12. Artigo de Jacir de Freitas Faria

Foto: Samuel McGarrigle | Unsplash

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01 Mai 2026

"A cruz e esses dois apóstolos nos reconectam com as temáticas da morte que nos conduz à Morada Eterna, bem como o viver o caminho em busca da verdade e da vida. São quatro imagens. Jesus diz que na casa do Pai tem muitas moradas e Ele é o caminho, a verdade e a vida. Portanto, os discípulos são chamados a ter fé no Pai e Nele. Felipe e Tomé interrogam a Jesus sobre o caminho para a morada, sobre a qual, Jesus falava. O contexto dessa passagem bíblica é o da despedida de Jesus antes da ceia derradeira, rumo à morte de cruz", escreve Frei Jacir de Freitas Faria.

Frei Jacir de Freitas Faria é doutor em Teologia Bíblica pela FAJE (BH), mestre em Ciências Bíblicas (Exegese) pelo Pontifício Instituto Bíblico de Roma, professor de Exegese Bíblica, presidente da Associação Brasileira de Pesquisa Bíblica (ABIB), sacerdote franciscano. Escreveu treze livros e é coautor de quinze. Publicou Bíblia Apócrifa: Segundo Testamento (Vozes, 2025). São 784 páginas com a tradução de 67 apócrifos do Novo Testamento sobre a infância de Jesus, Maria, José, Pilatos e outros.

Eis o artigo.

O texto que inspira nossa reflexão hoje é João 14,1-12. Jesus fala da morada eterna e que Ele é o caminho, a verdade e a vida que nos leva ao encontro do Pai. Esse evangelho tem relação com as festas celebradas no quinto domingo da Páscoa do corrente ano. Estamos no dia 3 de maio. A Igreja celebra nesse dia o descobrimento da cruz de Jesus em Jerusalém pela mãe do imperador Constantino, Santa Helena. Não seria 14 de setembro o Dia da Santa Cruz? Sim. Até o Concílio Vaticano II, as duas datas, 3 de maio e 14 de setembro, eram celebradas. O três de maio permaneceu na devoção popular.

O dia 14 de setembro era celebrado, desde o século IV, em Jerusalém, quando foi consagrada a Basílica do Santo Sepulcro (335 E.C.), construída a mando do imperador Constantino. Nesse dia, os cristãos de Jerusalém comemoraram também a recuperação da cruz encontrada por Santa Helena, a qual tinha sido roubada pelos persas e lá permanecido por 14 anos.

Três de maio é também o dia que celebra as memórias de dois apóstolos da primeira hora do cristianismo, Filipe e Tiago Menor ou Irmão do Senhor. Quem eram eles?

Filipe foi o terceiro apóstolo a ser chamado por Jesus. Os evangelhos canônicos mostram que ele aprendeu a descobrir a fé em Jesus como Filho de Deus. Pregou o evangelho para além da Palestina. Ele falava fluentemente o grego. Filipe é um nome grego e significa “amante de cavalos”. Ele nasceu na cidade de Betsaida, na Galileia. Era conterrâneo de Pedro e André. A Bíblia não menciona o parentesco de Filipe, mas o coloca junto com Natanael, quando do seu chamado por Jesus. Filipe era casado e tinha duas filhas. Tinha também uma irmã, de nome Mariane. Filipe morreu aos 87 anos. Sete dias antes de sua morte, reuniu os sacerdotes, diáconos e bispos das cidades vizinhas e admoestou-os a permanecerem firmes na fé. As suas duas filhas, posteriormente, foram sepultadas com ele, uma à direita dele e outra à esquerda. Há também uma tradição que diz que Filipe foi condenado à morte por um líder romano pelo fato de ele, Bartolomeu (Natanael) e Mariane terem combatido o culto à serpente na Frígia, Ásia Menor.[1]

Tiago é a tradução grega de Jacó, em hebraico. Ele é conhecido também como “o justo”. Atos apócrifos de Tiago, Judas Tadeu e Simão de acordo com Memórias apostólicas de Abdias, recolhido na Bíblia Apócrifa, afirma que: [2] “Simão, chamado cananeu, Judas, chamado Tadeu, e Tiago, que alguns chamam irmão do Senhor, foram irmãos carnais, originários de Caná da Galileia, filhos do casal Alfeu e Maria, filha Cléofas. O último deles, Tiago, nasceu da mesma mãe, mas de pai diferente, isto é, de José, homem justo, aquele do qual se tornou esposa a santíssima Mãe de Deus, Maria. Por isso Tiago foi chamado irmão do Senhor, quanto à carne, porém, com José, de fato, pai de Tiago, estava casada, embora nunca tivesse unido a ele, a Virgem Maria, que depois engravidou por obra do Espírito Santo, e deste modo deu à luz, ficando virgem, o salvador do mundo, o Senhor nosso Jesus Cristo. Por causa deste vínculo, esses três filhos de Maria de Cléofas foram assumidos por Cristo entre seus discípulos, e mais tarde foram elevados à dignidade de apóstolos.

O mais novo deles, Tiago, sempre muito estimado por Cristo Salvador, ardia em grande amor ao Mestre, que, quando foi crucificado, não quis tomar alimento a não ser depois de tê-lo visto ressuscitar dos mortos, porque se recordava de que isso fora predito a ele e aos seus irmãos por Cristo quando ainda em vida. Por isso, antes de todos eles, Cristo quis aparecer a ele para confirmar o discípulo na fé, como também o fez para Maria Madalena e para Pedro; a fim de que não sofresse por causa do longo jejum, apresentou-lhe um favo de mel, e exortou-o a comer. Depois da ascensão de Cristo ao céu, Tiago permaneceu com Pedro e João em Jerusalém, pregando a palavra do Senhor aos judeus; coisa que podia fazer também mais facilmente porque exercia o seu ministério público no Templo de Salomão. A morte de Tiago ocorreu após o seu testemunho de fé em Jesus diante dos sacerdotes e fariseus, no pináculo do Templo. Dali foi empurrado, apedrejado, mas não morreu. Um lavrador, no entanto, tomou um bastão e lhe partiu a cabeça ao meio.”

A cruz e esses dois apóstolos nos reconectam com as temáticas da morte que nos conduz à Morada Eterna, bem como o viver o caminho em busca da verdade e da vida. São quatro imagens. Jesus diz que na casa do Pai tem muitas moradas e Ele é o caminho, a verdade e a vida. Portanto, os discípulos são chamados a ter fé no Pai e Nele. Felipe e Tomé interrogam a Jesus sobre o caminho para a morada, sobre a qual, Jesus falava. O contexto dessa passagem bíblica é o da despedida de Jesus antes da ceia derradeira, rumo à morte de cruz.

Em que pensamos, quando ouvimos Jesus falar de morada? Lugar físico, material, um espaço que nos espera no céu, como se fosse “minha casa, minha vida”? Não se trata disso. Digo que é muito difícil para nós, compreendermos o sentido dessa fala de Jesus. Permitam-me, explicá-la melhor. A morada que Jesus está falando é um novo tempo em nossas vidas, que se dá por meio das relações. Imagine, estou agora num espaço físico falando para você que me vê e me ouve em outro espaço e estamos criando relações.

Vou tomar outro exemplo: as nossas mães são exemplos vivos de construção de relações. Elas nos ensinaram a falar, nos mostraram a vida como ela é, nos geraram, nos educaram. Fizeram e fazem tantas coisas por nós. Somos frutos dessas relações e seremos eternamente devedores delas o que somos, assim também com aquelas poderão ter exercido o papel de mãe, seja a avó ou a mãe de criação. São relações apreendidas que permanecem para sempre.

No tempo da pandemia, assisti pela TV, com lágrimas nos olhos, o lamento de um jovem que perdeu a sua mãe por causa do coronavírus. Para ele não foi possível fazer velório, não foi possível fazer o luto imediato, no corte das relações terrenas. A sua mãe seguiu só, envolta em um saco plástico dentro de um caixão lacrado para a sepultura.

Eu sou o caminho, a verdade e a vida. Aí estão as outras três imagens usadas por Jesus. Ocorre que muitas vezes somos como Tomé que pergunta: “Senhor, não sabemos aonde vai e nem conhecemos o caminho” (v.5). Ou ainda como Felipe: “Senhor, por favor, mostra-nos o caminho” (v.8).

Na época de Jesus, havia um grupo de cristãos chamado gnósticos que acreditavam que viemos da Luz (Plenitude) e para lá voltaremos, após conhecermos o caminho de volta, por meio do conhecimento da centelha de luz que está em nós, o que nos libertaria do mundo material, fazendo o caminho de volta para a Plenitude.  A comunidade de João responde que Jesus é o único caminho que nos leva ao Pai, pois ele e o Pai são um, indivisíveis, assim como mãe e filho.

Para terminar, devemos nos perguntar: Como está a nossa morada terrestre? Como estão as nossas relações? Os narcisos do mito, aqueles perguntam retoricamente: “Espelho, espelho meu, quem é mais bonito do que eu?”, esses que só pensam em si nunca se relacionam com os outros, mas com o espelho de sua solidão, continuarão sofrendo ainda mais a solidão de nunca ter tecido na teia da vida uma relação de amor. A sua eternidade será também a solidão. Triste sina! Não conheceram a Morada Eterna! Tenhamos fé e encontraremos o Pai no caminho de volta para a Vida, quando devolveremos para ele a vida que nos deu na morada terrestre para vivermos na dimensão da luz, da ressurreição, da vida que não morre mais.

Notas

[1] FARIA, Jacir de Freitas, Bíblia Apócrifa: Segundo Testamento, Petrópolis: Vozes, 2025, p. 618.

[2] FARIA, Jacir de Freitas, Bíblia Apócrifa: Segundo Testamento, Petrópolis: Vozes, 2025, p. 655.

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