30 Abril 2026
"A característica mais brutal e chocante desta época é esta: enquanto o cálculo técnico tende à perfeição, o cálculo político se perde na névoa".
O artigo é de Gabriele Segre, publicado por La Stampa, 29-04-2026.
Gabriele Segre é especialista em questões de identidade e coexistência. Trabalhou durante anos para as Nações Unidas, lidando com questões de liderança e reforma da ONU. Tem doutorado em políticas públicas e liderança pela Universidade de Cingapura, mestrado pela Universidade de Columbia e bacharelado pela Universidade Católica de Milão.
Eis o artigo.
Entregar frangos congelados e lançar mísseis são, em última análise, a mesma coisa. Este pode muito bem ser o raciocínio de Shyam Sankar — diretor de tecnologia da Palantir e sumo sacerdote do profeta da tecnologia Peter Thiel — quando explica que uma cadeia de valor, um processo de produção e uma operação direcionada respondem à mesma lógica de aceleração e otimização.
Ele está certo: vivemos em uma era em que o poder computacional reduziu o erro a ponto de fazê-lo parecer uma superstição de tempos passados. Grandes empresas de tecnologia coletam dados, cruzam informações, assimilam, processam e os retornam na forma de decisões impecáveis e cirúrgicas: o que comprar, quem contratar, quem demitir, quem deter na fronteira — assim como qual alvo atingir e quando. Uma espécie de oráculo industrial, alimentado por servidores e contratos bilionários, que, terceirizado para o Pentágono, desenvolve um leve complexo de onipotência.
A Operação Fúria Épica no Irã foi a demonstração mais implacável e, ao mesmo tempo, espetacular disso. Mil alvos foram atingidos nas primeiras 24 horas de guerra. Um plano estratégico que, em 2003, durante a invasão do Iraque de Saddam Hussein, exigiu seis meses de planejamento e cinquenta analistas em tempo integral, agora pode ser concluído por um único operador em apenas duas semanas. O “algoritmo da galinha congelada” só precisa mudar de função — de otimizar a logística para destruí-la: ele sabe onde está um comboio, mede a trajetória de um míssil, localiza um comandante, conta os movimentos de tropas na fronteira, distingue um caminhão civil de um militar a 3.000 metros.
No entanto, ele não sabe como o medo evolui após uma derrota. Não consegue avaliar o impacto de uma humilhação em uma sociedade. Não sabe quem se radicalizará mais após a morte de um líder, um irmão ou um filho. Não consegue entender o silêncio daqueles que não reagem.
A característica mais brutal e chocante desta época é esta: enquanto o cálculo técnico tende à perfeição, o cálculo político se perde na névoa. Não que um fenômeno dependa necessariamente do outro, mas a sua convergência é impressionante. Por um lado, a capacidade de interpretar os dados aumenta e a margem de erro diminui; por outro, o conhecimento político se contrai, o cenário se torna opaco e a capacidade humana de compreender o seu significado é restringida. Sabemos mais, mas entendemos menos.
É nessa dissociação cognitiva que se desenrola a novela das negociações entre os Estados Unidos e o Irã. Washington tuíta, Teerã responde, os mediadores traduzem, as redes de televisão explicam, os especialistas rabiscam desajeitadamente — ninguém realmente entende nada. Começando pelo básico: quem está falando com quem e o que realmente estão dizendo? O regime iraniano está unido ou dividido? Os pragmáticos têm alguma importância, ou são apenas figurantes sobrevivendo em um teatro comandado pelos Pasdaran? Quem está autorizado a assinar? Quem tem o poder de fazer cumprir a assinatura?
O algoritmo funcionou tão bem que “nós até eliminamos aqueles com quem achávamos que poderíamos negociar”, admitiu Trump com uma franqueza desarmante. Com um clique, décadas de inteligência humana, capaz de entender não apenas quem estava no comando, mas o que eles estavam pensando, esperando e temendo, foram pulverizadas.
Afinal, qual é o sentido de conhecer seu adversário se você pode vaporizá-lo em questão de segundos? Quase faz sentido ter fechado o escritório do Departamento de Estado para o Irã, deixando dezenas de especialistas em casa que passaram suas vidas como psicólogos dos aiatolás. Coisas analógicas, antigas.
A redução da inteligência humana, no entanto, não diz respeito apenas ao Irã. A China de Xi Jinping é tão impenetrável hoje quanto era antes — para nós, para os americanos, mas até mesmo para muitos chineses. Aqui, não foram bombardeios indiscriminados que destruíram a compreensão do contexto: Xi fez isso com seus expurgos e os expurgos dos expurgos, um gênero político que concentra poder e transforma toda análise externa em astrologia aplicada. O algoritmo da galinha, aqui também, pode rastrear cada porta-aviões chinês, contar cada ogiva, interceptar cada comunicação classificada. Mas não sabe quem ainda goza da confiança do líder, como a máquina de tomada de decisões funciona hoje, nem se aqueles no comando são os que querem uma China estável e responsável ou os que preparam uma guerra com os Estados Unidos através de Taiwan.
O paroxismo do divórcio entre a perfeição tecnológica e a cegueira política, contudo, atinge seu ápice quando deixamos de compreender não apenas os outros, mas a nós mesmos. A mesma pergunta que nos fazemos sobre Teerã, Pequim ou Moscou — quem realmente decide e o que quer? — aplica-se hoje a Washington. Não no sentido óbvio de que Trump é o louco imprevisível cujos códigos nucleares devem ser confiscados. A questão é mais estrutural: entre o desmantelamento da máquina federal, o desinvestimento em expertise estratégica e o crescente poder de atores privados como a Palantir na definição da agenda pública, quem realmente decide em Washington torna-se cada vez mais incerto. É assim que uma grande potência como os Estados Unidos acaba sabendo exatamente onde, como e quando atacar, mas não sabendo mais exatamente por que o faz.
Entramos finalmente na era do cálculo perfeito precisamente quando perdemos o que nos torna humanos: memória, discernimento, conhecimento dos outros, autoconhecimento. Entre conjuntos de dados, modelos preditivos e outras liturgias estatísticas, o mundo, com uma grosseria imperdoável, persiste em não se comportar como um arquivo organizado. No entanto, continuamos destemidamente a aprimorar o modelo em vez de nos fazermos mais algumas perguntas sobre a realidade.
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