Por que a saída dos Emirados Árabes Unidos da OPEP pode remodelar o Oriente Médio

Foto: Maria Lupan | Unsplash

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30 Abril 2026

A decisão de abandonar o clube dos produtores de petróleo prejudica o prestígio da Arábia Saudita e pode fortalecer a posição dos EUA na região.

A informação é de Patrick Wintour, publicada por The Guardian, e reproduzida por El Diario, 29-04-2026. 

A decisão dos Emirados Árabes Unidos de deixar a OPEP é uma escolha tanto política quanto comercial, e reacenderá tensões latentes entre os Emirados Árabes Unidos e a Arábia Saudita — tensões que haviam sido ofuscadas pela raiva compartilhada em relação ao Irã por seus ataques aos Estados do Golfo desde o início da guerra dos EUA e de Israel contra Teerã.

A curto prazo, a saída do cartel do petróleo ao qual se juntou em 1967 dá aos Emirados Árabes Unidos a liberdade de responder rapidamente a uma perspectiva de longo prazo de restrições de oferta e de maximizar os lucros. Mas é uma decisão que o país já considerou antes, visto que as tensões com a Arábia Saudita sobre as quotas de produção são antigas.

No entanto, o momento e a natureza unilateral da decisão dos Emirados Árabes Unidos destacam como outras disputas dentro do Golfo sobre como responder à guerra com o Irã podem remodelar o Oriente Médio.

Um golpe para a Arábia Saudita

A deserção é certamente um golpe para o prestígio da Arábia Saudita: posiciona os Emirados como o Estado do Golfo mais próximo de Donald Trump, um crítico frequente da OPEP, e enfraquece a capacidade dos sauditas de gerir os preços do petróleo.

O anúncio, feito sem qualquer consulta prévia, ocorreu enquanto o Conselho de Cooperação do Golfo (CCG), composto por seis membros, incluindo a Arábia Saudita e os Emirados Árabes Unidos, se reunia em sessão de emergência em Jeddah, a primeira vez que isso acontecia desde os ataques do Irã.

Desde o início do conflito Irã-Contras, os Emirados Árabes Unidos — o país do Golfo mais próximo de Israel politicamente e mais hostil a Teerã — têm pressionado, em privado, a Arábia Saudita e o Catar para lançarem contra-ataques conjuntos contra o Irã. Os Emirados Árabes Unidos foram o país do Golfo mais visado pelo Irã, repelindo mais de 2.200 drones e mísseis, em parte devido à sua proximidade geográfica.

Apesar de relatos indicarem que a Arábia Saudita estaria pressionando os EUA a derrotarem o Irã, não houve consenso público dentro do Conselho de Cooperação do Golfo (CCG) para tomar uma medida que pudesse ser considerada de alto risco, já que poderia ser interpretada não apenas como autodefesa, mas também como um alinhamento com Israel.

Após não conseguir formar a aliança política que desejava, os Emirados Árabes Unidos decidiram abandonar a solidariedade econômica do bloco petrolífero e agir de forma independente. A estatal Adnoc afirma que será capaz de aumentar a produção de 3,4 milhões de barris por dia, volume anterior ao início da guerra com o Irã, para 5 milhões de barris por dia até 2027.

Os favoritos de Trump?

Após o fechamento do Estreito de Ormuz, a produção do país despencou 44%, para 1,9 milhão de barris em março, e sua capacidade de aumentar a produção é motivo de controvérsia.

No total, a guerra com o Irã resultou em uma perda de 7,88 milhões de barris por dia na produção da OPEP em março, causando uma queda de 27%, para 20,79 milhões de barris por dia naquele mês, o maior colapso de oferta do grupo de produtores nas últimas décadas.

Ebtesam Al-Ketbi, presidente do Emirates Policy Center, com sede em Dubai, descreve a decisão como interesseira. “De fato, os Emirados Árabes Unidos estão redefinindo seu papel, passando de um produtor dentro de um bloco para um produtor de equilíbrio que contribui para a estabilidade do mercado por meio de sua capacidade de atuação”, afirma. “Embora essa medida possa enfraquecer gradualmente a coesão da OPEP, ela simultaneamente fortalece a posição dos Emirados Árabes Unidos como um ator capaz de influenciar diretamente a dinâmica da oferta global.”

Determinados a diversificar suas economias, os Emirados Árabes Unidos têm dependido muito mais da boa vontade dos EUA do que da Arábia Saudita. A decisão de deixar a OPEP pode, na verdade, consolidar a posição do país como o favorito diplomático de Trump, um status que poderia ter implicações para os investimentos nos Emirados.

Os Emirados Árabes Unidos já vêm exercendo sua influência. No início deste mês, retiraram US$ 3,5 bilhões em depósitos do Paquistão, o que representa um quinto das reservas cambiais paquistanesas, em demonstração de descontentamento com a neutralidade de Islamabad em relação ao Irã, o que levou a Arábia Saudita a intervir para apoiar o país mediador.

Ao mesmo tempo, no Chifre da África, os Emirados Árabes Unidos têm conduzido uma política externa amplamente orientada por interesses comerciais, o que os coloca em conflito direto com Riad. Essas tensões podem ressurgir, dependendo da resposta dos sauditas.

“A solidariedade do Golfo ficou aquém do necessário”

Anwar Gargash, conselheiro diplomático do presidente dos Emirados Árabes Unidos, expressou repetidamente preocupação com a frustração do país em relação à resposta política coletiva do Golfo ao "ataque premeditado" do Irã.

Na segunda-feira, Gargash afirmou que o Conselho de Cooperação do Golfo (CCG) — o bloco político composto pelos Emirados Árabes Unidos, Arábia Saudita, Omã, Catar, Bahrein e Kuwait — estava em seu ponto mais baixo. "Infelizmente, a posição do CCG é a mais frágil da história, dada a natureza do ataque e a ameaça que ele representa para todos."

Aludindo a um antagonismo em relação à Turquia e, possivelmente, ao Paquistão, ele disse: “Não podemos permitir que ninguém fora da região do Golfo ditar nossas prioridades de segurança. Esses mísseis não serão apontados para eles amanhã; serão apontados para nós.” “Portanto, deve haver uma visão, uma política e uma representação do Golfo em nível nacional e, espero, também em nível coletivo. A defesa nacional é muito importante, mas também devemos reconhecer que a solidariedade do Golfo ficou aquém do esperado.”

Em meio ao debate em curso nos Estados do Golfo sobre o futuro das garantias de segurança dos EUA, Gargash deixou clara sua posição, insistindo que o Irã continua sendo a principal ameaça estratégica — e não Israel — e que a presença dos EUA na região ainda é necessária. “Hoje, o papel dos EUA na região tornou-se mais importante, não menos, porque não se limita a instalações militares ou algo do tipo. O papel dos EUA é um sistema de defesa. O papel dos EUA é apoio político. O papel dos EUA é compromisso econômico e financeiro.”

Ao sair da OPEP, os Emirados Árabes Unidos esperam ter garantido esse compromisso dos EUA.

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