“Em seu país a vida parece não valer nada: mata-se por um celular”. Artigo de Leonardo Boff

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30 Abril 2026

"Nesse momento, dada a nossa ousadia irresponsável, criamos uma Superinteligência Artificial que pode nos destruir. Nutrimos a esperança de que a vida sempre triunfará como pôde sobreviver em todas as quinze grandes extinções do passado", escreve Leonardo Boff, escritor da revista do ICL LIBERTA, autor, com o cosmólogo MHathaway, de O Tao da Libertação, livro premiado em 2010 nos EUA com a medalha de ouro em nova ciência e cosmologia. Escreveu também Ética da vida (Record, 2006).

Eis o artigo.

Essa frase não é minha. É de um dos maiores humanistas de nosso Continente, o ex-presidente uruguaio Pepe Mujica. Depois de um largo diálogo sobre o destino de nossos países, do mundo, do capitalismo, transformado numa cultura que a todos envolve, em certo momento confessou: ”No Brasil a vida parece não valer nada: mata-se por um celular. No Uruguai quando há um crime semelhante, país 'chiquitito', todos chegam a saber”. Em seu país fica por isso mesmo, sem averiguação, pois se trata de um negro.

No fim nos abraçamos e tal foi a sintonia em nossas falas que me disse: ”somos almas irmãs”. Eu surpreso calei para não chorar e com voz embargada apenas lhe disse: ”Há duas pessoas que eu admiro no mundo: o Papa Francisco e Usted, Pepe Mujica”. Ele me abraçou fortemente e vi que uma lágrima furtiva escorria de seus cansados olhos.

Ele dizia a verdade. Uma conhecida de uma comunidade periférica do Grande Rio me contou: “conversei com um policial militar que ia e vinha na nossa pracinha e me disse: 'puxa, estou aqui há duas horas e ainda não matei nenhum jovem negro'. Muitos jovens negros entre 15-18 anos são mortos com um tiro na cabeça com esta alegação: ou pertencem ao tráfico ou irão entrar nele. E então se faz o abate (expressão de um ex-governador preso)".

No mundo atual parece mesmo que a vida não vale nada. Vejam-se o morticínio e o genocídio cometidos sob mando de Netanyahu na Faixa de Gaza. Os assassinatos de crianças no Sudão sem falar dos milhares de mortos na Ucrânia e no Irã sob os bombardeios, de um lado dos russos e do outro, dos norte-americanos e dos israelenses usando até a Inteligência Artificial.

O chefe do Escritório da ONU para Assuntos Humanitários afirma: ”Gastos de 14 de dias de guerra salvariam 87 milhões de vidas” (O Globo 22/4/26 p.19). Por que não decidimos pela vida e preferimos a morte? Esse é o mistério de nossa condition humaine que se mostra cruel e sem piedade.

Leio algo apavorante que está já está funcionando e irá se completar até 2027: uma Superinteligência Artificial que maneja trilhões de algoritmos, acumulados do mundo inteiro. Já não depende das decisões humanas. Ela pode, eventualmente, tomar a decisão de eliminar toda a vida humana. O professor HOC, um de nossos mais sérios geopolíticos, descreveu em detalhes seu funcionamento em seu YouTube: ”A briga que pode decidir o futuro da humanidade: a Anthropic e o governo americano” (basta entrar no Google e escrever este título).

Neste contexto ameaçador convém refletirmos, ainda em tempo, sobre a excelência da vida. As respostas consagradas são que ela provém de Deus ou de algo misterioso, por nós inacessível.

Mas nossa visão mudou radicalmente quando em 1953 Crick e Watson decifraram a estrutura de uma molécula do ácido desoxirribonucleico (DNA) que contém o manual de instruções da criação humana. A molécula DNA consiste em múltiplas cópias de uma única unidade básica, o nucleotídeo, que se realiza em quatro formas: adenina (A), timina (T), guanina (G) e citosina(C).

Esse alfabeto de 4 letras se desdobrava num outro alfabeto de 20 letras que são as proteínas. Formam o código genético que se apresenta numa estrutura de dupla hélice ou de duas cadeias moleculares. Ele é o mesmo em todos os seres vivos. Por isso somos todos parentes. Para os cientistas Watson e Crick, ”a vida nada mais é que uma vasta gama de reações químicas coordenadas; o 'segredo' desta coordenação é um complexo e arrebatador conjunto de instruções inscritas quimicamente em nosso DNA” (cf. DNA: o segredo da vida, Companhia das Letras, 2005, p. 424).

Mas ela é muito mais: para outros cosmólogos, a Energia de Fundo amorosa e poderosa fez convergir todos os elementos para formar este conjunto das instruções: alguém que comparece como a fonte de toda a vida. Quem é Ele?

Com isso a vida foi inserida no processo global da evolução. Após a grande explosão do big-bang há 13,7 bilhões de anos, a energia e a matéria liberadas foram se expandindo, se densificando, se complexificando e criando novas ordens à medida em que avançavam. Alcançado um nível alto de complexidade da matéria, irrompeu a vida como um imperativo cósmico (cf. Joël de Rosnay, A aventura da vida, Vozes, 1992).

A vida representa, pois, uma possibilidade presente nas energias originárias e na matéria primordial. A matéria não é “material” mas um campo altamente interativo de energias condensadas. É o que afirmam notáveis da física quântica, biólogos e cosmólogos.

A vida já existe há 3,8 bilhões de anos. Ela é a Eva originária e originante de todos os seres vivos. Nós, humanos, somos o subcapítulo do capítulo fontal que é a própria vida. Somos aquela porção da Terra que um dia, sob extrema complexidade, começou a sentir, a pensar, a amar e a venerar. Eis que surgiu o ser humano.

Por fim, ouso repetir o que escrevi num artigo anterior. Segundo vários biólogos e cosmólogos, o “Universo seria incompleto sem a vida”. Sempre que se atingir certo nível de complexidade, a vida surge como um imperativo cósmico, em qualquer parte do Universo. É a tese de Christian de Duve, Nobel em biologia e do físico quântico indiano Amit Goswami.

Portanto, temos que enriquecer nossa visão do universo, não como algo morto, mas cheio de vida em trilhões de planetas dentro de vários bilhões de galáxias. A nossa Via-Láctea, média, é a portadora dessa joia preciosa que é a vida. Em nós ela se fez reflexa e consciente com a capacidade de dar rumo à história.

Mas nesse momento, dada a nossa ousadia irresponsável, criamos uma Superinteligência Artificial que pode nos destruir. Nutrimos a esperança de que a vida sempre triunfará como pôde sobreviver em todas as quinze grandes extinções do passado.

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