Dia da Terra e o aquecimento dos oceanos. Artigo de José Eustáquio Diniz Alves

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23 Abril 2026

Recordes sucessivos de temperatura, o derretimento acelerado de geleiras, a elevação do nível do mar e a intensificação de eventos extremos reforçam o diagnóstico de uma crise climática.

O artigo é de José Eustáquio Diniz Alves, doutor em demografia, publicado por EcoDebate, 22-04-2026.

Eis o artigo.

O Dia da Terra, celebrado em 22 de abril e criado em 1970, surgiu em um contexto de crescente preocupação com a crise ecológica global. A iniciativa partiu do senador norte-americano Gaylord Nelson, com o objetivo de promover uma consciência coletiva sobre problemas como a poluição, a conservação da biodiversidade e outras questões ambientais fundamentais para a proteção do planeta. 

As primeiras mobilizações, naquele mesmo ano, reuniram cerca de duas mil universidades, dez mil escolas de ensino básico e centenas de comunidades. Esse amplo engajamento gerou forte pressão social, contribuindo para que o governo dos Estados Unidos criasse a Agência de Proteção Ambiental (EPA) e aprovasse uma série de leis voltadas à preservação ambiental.

No entanto, em vez de atender plenamente aos alertas sobre a degradação ambiental, governos e setores desenvolvimentistas frequentemente optaram por priorizar o crescimento populacional e econômico, em nome da grandeza nacional e da projeção internacional. Esse caminho tem sido associado à busca por uma prosperidade material muitas vezes insustentável e pouco racional do ponto de vista ecológico.

Ao longo dos 56 anos desde a criação do Dia da Terra, em 1970, a preocupação com o aquecimento global passou de um tema periférico no debate ambiental para o eixo central das discussões sobre o futuro da humanidade.

Nas décadas de 1970 e 1980, o foco inicial do movimento ambientalista — impulsionado pelo primeiro Dia da Terra — estava mais concentrado em problemas visíveis e imediatos, como a poluição do ar e da água, a contaminação por produtos químicos e a perda de biodiversidade. Ainda que a base científica do aquecimento global já estivesse sendo construída, especialmente a partir dos estudos sobre o efeito estufa, o tema permanecia restrito a círculos acadêmicos.

A virada começa no fim dos anos 1980, quando o aquecimento global ganha projeção internacional com a criação do Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas, em 1988. A partir daí, sucessivos relatórios científicos passaram a consolidar evidências de que o aumento das temperaturas médias do planeta estava ligado às emissões de gases de efeito estufa decorrentes das atividades humanas.

Nos anos 1990, o tema entra definitivamente na agenda política global, com a realização da Conferência das Nações Unidas sobre Meio Ambiente e Desenvolvimento, no Rio de Janeiro, e a adoção da Convenção-Quadro das Nações Unidas sobre Mudança do Clima. O aquecimento global passa a ser reconhecido como um desafio coletivo, ainda que as respostas políticas tenham sido inicialmente tímidas.

Na década de 2000, a preocupação se intensifica com a ampliação das evidências científicas e a crescente cobertura midiática. O Protocolo de Kyoto, que entrou em vigor em 2005, representou a primeira tentativa concreta de estabelecer metas obrigatórias de redução de emissões para países desenvolvidos. Paralelamente, eventos climáticos extremos — como ondas de calor, secas e tempestades mais intensas — começaram a ser associados ao aquecimento global no debate público.

A partir de 2010, o tema ganha ainda mais urgência. O Acordo de Paris marca um ponto de inflexão ao estabelecer o compromisso global de limitar o aquecimento a bem abaixo de 2º C, com esforços para restringi-lo a 1,5º C. Ao mesmo tempo, cresce a mobilização da sociedade civil, especialmente entre os jovens, com movimentos como o Fridays for Future, liderado por Greta Thunberg.

Nos anos mais recentes, o aquecimento global deixou de ser uma preocupação futura para se tornar uma realidade presente. Recordes sucessivos de temperatura, o derretimento acelerado de geleiras, a elevação do nível do mar e a intensificação de eventos extremos reforçam o diagnóstico de uma crise climática em curso. Instituições como o Copernicus Climate Change Service têm documentado esse avanço com dados cada vez mais precisos.

Os dados mais recentes vêm mostrando um salto sem precedentes na temperatura da superfície dos oceanos a partir de 2023, que se manteve em 2024 e continuou muito elevada em 2025 — e tudo indica que 2026 pode voltar a bater recordes, conforme mostra o gráfico abaixo do Climate Reanalyzer.

Estudos mostram que houve um “salto” abrupto nas temperaturas da superfície do mar em 2023 e 2024, algo estatisticamente muito raro sem o aquecimento global em curso. Além disso, praticamente todo o oceano foi afetado por ondas de calor marinhas extremas em 2023.

Em 2023 e 2024 foram observados recordes sucessivos de temperatura da superfície do mar, incluindo valores acima de 21º C em médias globais diárias. Esse patamar representa um nível muito elevado em comparação com a climatologia recente (anos 1990–2010).

Mesmo com a transição para condições de La Niña (que tendem a resfriar as águas marinhas), as temperaturas permaneceram extremamente altas. 2025 foi um dos três anos mais quentes dos oceanos já registrados. As temperaturas da superfície do mar ficaram “próximas de recordes” ao longo do ano.

No início de 2026, a média global da superfície do mar já voltou a ultrapassar 21º C . E está próxima dos picos recordes de 2024 e pode bater todos os patamares anteriores com a volta do fenômeno El Niño no segundo semestre de 2026.

Esse encadeamento de anos (2023–2026) não é apenas uma série de recordes isolados — ele revela uma mudança estrutural: a) Os oceanos absorvem cerca de 90% do excesso de calor do sistema climático; b) Estão acumulando energia continuamente, o que eleva o “piso térmico” do planeta; e c) Mesmo quando há variabilidade natural (El Niño/La Niña), o patamar geral segue subindo. Em outras palavras: os recordes estão deixando de ser exceção e se tornando o novo normal.

O que os dados do Climate Reanalyzer captam — essa sequência de temperaturas acima de 21º C — é um sinal muito claro de aceleração do aquecimento oceânico. E isso é crucial, porque oceanos mais quentes:

  • intensificam eventos extremos (chuvas, furacões, secas)
  • aceleram o derretimento das calotas de gelo e elevam o nível dos oceanos
  • pressionam ecossistemas (como recifes de coral) e reduzem a biodiversidade marinha
  • e reduzem a capacidade do planeta de estabilizar o clima

Assim, ao longo dessas mais de cinco décadas, o aquecimento global passou de hipótese científica a evidência incontestável e, finalmente, a uma emergência global. O mundo precisa abandonar as guerras e a dependência dos combustíveis fósseis. A transição energética é um imperativo.

O Dia da Terra, que começou como um movimento voltado à conscientização ambiental, tornou-se hoje também um marco simbólico da luta contra a crise climática e da busca por um novo modelo de desenvolvimento compatível com os limites do planeta.

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