Enquanto Trump critica Leão, líderes católicos clamam por uma nova visão da fé na esfera pública

Foto: Vatican Media

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15 Abril 2026

Reduzir o ataque provocador do presidente Donald Trump ao Papa Leão XIV a um espetáculo político secundário obscureceria a história mais ampla: líderes da Igreja estão hoje convocando os católicos nos Estados Unidos a reimaginar suas responsabilidades na esfera pública.

A reportagem é de Michael J. O'Loughlin, publicada por National Catholic Reporter, 14-04-2026.

Nas últimas décadas, os católicos americanos engajados na vida cívica tendiam a viver sua fé por meio da identificação com uma tribo particular na Igreja. Católicos para quem questões como o aborto e o casamento eram primordiais podiam se orientar por certos bispos, paróquias e organizações que informavam suas consciências e os ajudavam a fazer escolhas políticas nas eleições. Outros católicos, talvez mais atraídos por desafios como a pobreza e o acesso à saúde, também tinham suas próprias estruturas para engajar a fé e navegar a vida pública.

Os líderes da Igreja hoje parecem conduzir os católicos a uma postura diferente, baseada não em questões políticas explícitas, mas em princípios católicos sobre o que significa ser humano e sobre o nosso papel na sociedade civil. De uma forma que talvez o Papa Francisco não tenha conseguido alcançar, a chegada do pontificado de Leão representou uma oportunidade de reinício para a Igreja nos Estados Unidos — um convite para ir além das batalhas eclesiais e políticas do passado. Leão não quer que os líderes da Igreja e os católicos sejam partidários; ao contrário, ele está convidando os católicos a aplicar os ensinamentos sobre paz e dignidade humana de formas novas e significativas.

Falando a jornalistas na segunda-feira, durante seu voo para a Argélia — primeira etapa de uma tournée de 11 dias pela África —, Leão declarou claramente: "Não vejo meu papel como sendo o de um político."

Se Leão não se vê como ator político — visão compartilhada pelos três cardeais americanos que participaram do 60 Minutes no domingo, discutindo as políticas imigratórias da administração Trump —, por que ele intervém, com frequência crescente nas últimas semanas, em questões políticas sensíveis?

"Há muitas pessoas sofrendo no mundo hoje, muitas pessoas inocentes sendo mortas", disse Leão no avião. "E alguém tem que se levantar e dizer que existe um caminho melhor."

Se isso soa familiar, é porque os Evangelhos trazem muitos exemplos de Jesus falando em defesa dos pobres e marginalizados — visões que não eram inerentemente políticas, mas que mesmo assim provocaram reação das autoridades.

Um sentimento similar ao de Leão — de que os católicos neste momento devem "se levantar e dizer que existe um caminho melhor" — é o do Cardeal Robert McElroy, arcebispo de Washington, que apresentou um desafio semelhante em uma homilia proferida em 11 de abril na Catedral de São Mateus Apóstolo em Washington.

A missa foi celebrada em conjunto com uma vigília de oração pela paz que Leão promoveu em Roma no mesmo dia, e McElroy observou que os católicos em todo o mundo "oram para que o cessar-fogo se mantenha e leve a uma base substancial para o surgimento da paz no Oriente Médio".

Além da oração, McElroy instou os católicos a agir neste novo momento político. "Não basta dizer que oramos", pregou ele. "Também precisamos agir."

Na semana passada, um editorial do NCR destacou alguns exemplos recentes de líderes da Igreja convocando os católicos a uma nova compreensão de como viver a fé na esfera pública, incluindo: a condenação bipartidária das ameaças online de Trump de aniquilar toda uma civilização; o arcebispo Timothy Broglio, que chefia a Arquidiocese para os Serviços Militares, juntando-se a Leão e outros bispos ao sugerir que a guerra no Irã é moralmente injusta — ecoando sentimentos que já havia manifestado semanas antes sobre o direito dos militares de não obedecer a ordens injustas; e bispos em todo o país denunciando abusos prevalentes nos esforços imigratórios da administração Trump e convocando os católicos a agir. Um exemplo é a nova carta pastoral do bispo Steven Biegler, de Cheyenne, Wyoming, que escreveu: "Quando nossas entranhas doem de compaixão pelos outros, defendemos, intervimos e tomamos partido."

O que os católicos devem concluir deste momento? Em primeiro lugar, ele é maior do que uma questão política particular, mesmo desafios perenes como a reforma imigratória ou as guerras no exterior. Em vez disso, os líderes da Igreja estão estendendo um convite aos católicos americanos para superar a dicotomia do passado e levar a sério as ameaças existenciais à democracia americana e à dignidade humana, tanto aqui quanto no exterior.

De volta a Washington, McElroy imaginou o que poderia acontecer se o frágil cessar-fogo entre o Irã e os Estados Unidos e Israel se rompesse. Embora sua declaração seja específica a esse desafio particular, ela poderia facilmente ser aplicada à conversa mais ampla que ocorre entre líderes da Igreja e católicos comuns.

"Naquele momento crítico, como discípulos de Jesus Cristo chamados a ser pacificadores no mundo, devemos responder vocal e em uníssono: 'Não'", pregou ele. "Não em nosso nome. Não neste momento. Não com o nosso país."

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