14 Abril 2026
A história de um dos maiores símbolos da missão junto aos povos indígenas no Brasil ganhou um desfecho concreto após quase 40 anos: o sepultamento dos restos mortais de Vicente Cañas (Kiwxi) no território Enawenê Nawê, onde viveu, lutou e foi assassinado.
O artigo é de Pe. Renan Dantas, da Diocese de Juína, enviado ao Instituto Humanitas Unisinos – IHU.
Eis o artigo.
Entre os dias 6 e 9 de abril de 2026, uma missão composta por representantes do Conselho Indigenista Missionário (CIMI), da Operação Amazônia Nativa (OPAN), da Companhia de Jesus, da Diocese de Juína e do Instituto Federal de Mato Grosso/Campus Juína, juntamente com os seus familiares espanhóis e indígenas da etnia Enawenê Nawê, estiveram na Terra Indígena no noroeste de Mato Grosso.
A presença teve como objetivo celebrar a Páscoa de Vicente Cañas (Kiwxi) e realizar o sepultamento de sua calota craniana no território onde viveu, testemunhou sua fé e entregou a própria vida.
O povo Enawenê Nawê
Habitantes da região do rio Juruena, os Enawenê Nawê são reconhecidos por sua forte organização comunitária e por uma cultura profundamente estruturada a partir dos ritos. Sua subsistência está centrada na pesca coletiva, atividade que ultrapassa o campo alimentar e assume dimensão espiritual.
Seus rituais, especialmente ligados ao ciclo das águas, organizam a vida social e expressam uma compreensão cosmológica na qual o mundo visível e o invisível se interligam. Foi nesse universo que Kiwxi se inseriu de maneira radical, tornando-se parte do povo.
Memória, fé e justiça: a Páscoa de Vicente Cañas na Terra Indígena Enawenê Nawê | Foto: Pe. Renan Dantas
A missão teve início com a saída da equipe da cúria da Diocese de Juína em direção à Terra Indígena Enawenê Nawê, localizada no noroeste de Mato Grosso. O acesso principal se dá pela BR-174, a partir de Juína, percorrendo mais de 150 quilômetros de estradas de terra. Situada na bacia dos rios Juruena e Iquê, a área abrange partes do município de Juína e regiões adjacentes, configurando-se como um território de grande relevância ambiental, cultural e espiritual.
Após aproximadamente três horas de viagem por estradas de terra, o grupo chegou ao território do povo Enawenê Nawê, sendo acolhido em um ambiente marcado pela riqueza cultural e pela profunda ligação com a natureza.
O primeiro dia foi vivido na acolhida do povo indígena Enawenê Nawê. Em um clima de profundo respeito e escuta mútua, os missionários e participantes tiveram a oportunidade de se aproximar da realidade local, ouvir atentamente as lideranças, compreender seus anseios e partilhar momentos significativos da vida comunitária, mergulhando na riqueza cultural e espiritual do povo.
Houve também a participação em ritos tradicionais, que expressam a espiritualidade do povo e sua relação com o território, com a natureza e com o mundo espiritual. Esses momentos foram fundamentais para situar a missão não apenas como um evento pontual, mas como parte de um caminho de convivência, escuta e respeito construído ao longo dos anos.
Durante esse primeiro momento, foi também apresentado aos indígenas o significado da missão: um gesto importante para a Igreja, para os organismos missionários e, sobretudo, para o próprio povo Enawenê Nawê. Explicou-se o sentido do sepultamento da calota craniana de Vicente Cañas (Kiwxi) como um passo dentro de um caminho maior — um sinal de memória, de busca por justiça e de reafirmação dos vínculos — que não encerra a história, mas a mantém viva e em continuidade.
Uma vida que se fez missão
Nascido na Espanha, Vicente Cañas ingressou na Companhia de Jesus ainda jovem e chegou ao Brasil na década de 1970. Em 1974, participou do primeiro contato com o povo Enawenê Nawê, ao lado de Tomás Lisboa.
A partir desse encontro, sua vida tomou um rumo definitivo. Vicente optou por um caminho de profunda inculturação: aprendeu a língua, assumiu o modo de vida do povo e passou a partilhar integralmente seu cotidiano. Foi o povo Myky que lhe deu o nome de Kiwxi — "aquele que se doa por inteiro". Seu primeiro contato com esse povo ocorreu ao lado de Tomás Lisboa, experiência que marcou profundamente sua missão. Para os Enawenê Nawê, Vicente é reconhecido como alguém que integra o mundo espiritual e cósmico do povo, mantendo viva sua presença na memória e na espiritualidade da comunidade.
O segundo dia da missão foi marcado por um dos momentos mais significativos: a ida até o local do martírio de Vicente Cañas.
A equipe seguiu por uma viagem de aproximadamente seis horas de barco pelos rios da região. O percurso, longo e silencioso, foi vivido como um tempo de interiorização e preparação para o que seria encontrado ao final do trajeto. Ao chegar ao local onde Vicente viveu seus últimos dias — uma área que servia como ponto de parada antes do retorno à aldeia, como forma de proteção sanitária — todos foram tomados por um profundo sentimento de reverência. Ali, onde sua vida foi interrompida, realizou-se um momento intenso de espiritualidade, memória e escuta.
Partilharam-se relatos, recordações e experiências de quem conheceu de perto aquela realidade. O lugar deixou de ser apenas um ponto geográfico para se tornar um espaço de memória viva, carregado de significado histórico e espiritual.
Foi nesse local que se realizou o gesto central da missão. Foram sepultados os pertences de Vicente — sua maleta, o rosário, sua faca e seus documentos — juntamente com a calota craniana, que por décadas permaneceu separada. Os Enawenê Nawê realizaram seus rituais de despedida conforme sua tradição, integrando esse momento ao seu modo próprio de compreender a vida, a morte e a continuidade espiritual, em um gesto que reafirma a memória e mantém viva a ligação entre o passado e o presente.
O momento foi permeado por intensa comoção. O silêncio, o choro e os gestos de reverência expressaram a profundidade daquele instante. Familiares, missionários e indígenas partilharam uma mesma experiência: a de estar diante de um momento significativo de uma história que atravessa gerações, mantendo viva sua memória e seu sentido ao longo do tempo.
O bispo da Diocese de Juína, Dom Neri José Tondello, destacou a importância do momento: "Este é um momento histórico para a nossa Diocese. Estamos encerrando uma história que permaneceu aberta por muitos anos, mas também reafirmando o compromisso da Igreja com os povos indígenas."
A assessora jurídica do CIMI, Dra. Caroline Hilgert, ressaltou o significado do sepultamento: "Durante muitos anos, a calota craniana foi uma prova essencial do assassinato. Hoje, ela retorna à terra, permitindo que essa história se complete."
O padre jesuíta, doutor em antropologia e professor da Universidade Federal de Mato Grosso, Pe. Aloir Pacini, destacou: "Este momento não é apenas memória. Ele continua a nos interpelar como Igreja e como sociedade."
Durante a missão, o professor doutorando Josemir Paiva Rocha, do IFMT – Campus Juína, destacou a relevância do momento vivido e da parceria construída entre as instituições:
"Estar aqui é uma experiência profundamente marcante, não apenas do ponto de vista acadêmico, mas humano e espiritual. Viver este momento junto ao povo Enawenê Nawê nos permite compreender, de forma concreta, a riqueza de sua cultura e a importância da preservação de seus territórios. Essa parceria entre o IFMT e as instituições missionárias fortalece o diálogo entre o conhecimento científico e os saberes tradicionais, contribuindo para uma atuação mais sensível, responsável e comprometida com a vida e com a Amazônia."
A voz da família: memória, afeto e presença
A presença dos familiares vindos da Espanha trouxe à missão uma dimensão profundamente humana, revelando aspectos íntimos da vida de Vicente. O testemunho de José Antonio Cañas Sánchez recorda a simplicidade do tio missionário: "As cartas eram poucas, mas muito esperadas. Eram escritas à mão, em papel fino. Não me recordo da caligrafia, mas lembro da alegria do meu pai ao recebê-las. Vicente era uma pessoa feliz, e isso se percebia em seu rosto e em sua alma."
Ele descreve o encontro pessoal na infância: "Eu ia buscá-lo e caminhávamos juntos. Ele me contava histórias que me encantavam. Para uma criança, aquilo era fascinante. E eu o tinha só para mim naquele momento."
Outras lembranças revelam um homem próximo e atento: "Ele tinha tempo para todos. Conversava com minha avó, com meu pai, com todos da família. Era alguém profundamente presente."
Entre os relatos mais marcantes, surge a consciência que Vicente tinha de sua missão: "Lembro claramente de quando ele disse que não voltaria à Espanha, que o matariam por defender os indígenas e suas terras."
A família também recorda os registros que Vicente levava consigo: "Ele mostrava imagens, vídeos, gravações. Era a forma que encontrava de nos fazer conhecer aquele povo, sua vida, seus ritos. Era como se nos levasse até lá."
Com o passar dos anos, a compreensão sobre quem foi Vicente se aprofundou: "Depois de sua morte, fomos entendendo melhor sua história. Ele não apenas viveu entre os indígenas — ele se tornou um deles. Foi adotado, assumiu sua cultura, sua vida."
O testemunho ganha ainda uma dimensão espiritual: "Hoje sentimos sua presença. Kiwxi está conosco. Nos protege, nos guia. Ele nunca deixou de estar presente."
Outro elemento que marcou a família foi a percepção pública de sua grandeza: "Foi ao ver uma reportagem sobre Dom Pedro Casaldàliga, onde aparecia a imagem de Vicente, que compreendemos a dimensão da pessoa que ele foi."
Para a Diocese de Juína, encerra-se uma história — e reafirma-se um compromisso. Vicente Cañas (Kiwxi) está na terra. E sua missão permanece viva.
"O sangue dos mártires é a semente dos cristãos" (Tertuliano, Apologético, 50,13). Com esta frase de Tertuliano recordamos um dos grandes dons da Igreja: o martírio.
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