14 Abril 2026
"O objetivo do Pontífice é tecer um 'sistema' de alianças para parar as armas. E ele está fazendo isso por meio de encontros com chefes de Estado e de governo, agendadas quase todas as semanas. É o 'método Vaticano' que Leão XIV havia descrito durante sua viagem apostólica à Turquia e ao Líbano: ser 'uma voz mediadora entre as partes para se aproximar de uma solução' que esteja no espírito de 'justiça para todos'", escreve Giacomo Gambassi, correspondente do Vaticano, em artigo publicado por Avvenire, 11-04-2026. A tradução é de Luisa Rabolini.
Eis o artigo.
A desmentida da Sala de Imprensa do Vaticano vale mais do que qualquer outra palavra, enquanto nos EUA fala-se de um abismo intransponível separando o Papa e o governo Trump, e que teria confirmação no encontro-embate de janeiro passado entre o Cardeal Christophe Pierre, na época Núncio Apostólico nos Estados Unidos, e Elbridge Andrew Colby, Subsecretário de Defesa.
O diretor Matteo Bruni explica que "a narrativa" da conversa "não corresponde de forma alguma à verdade". Nenhuma ruptura. Leão XIV é o Papa que, desde sua primeira mensagem no dia de sua eleição — há quase um ano —, apresentou-se ao mundo como alguém que busca "construir pontes pelo diálogo". E uma semana depois, colocou a Santa Sé à disposição "para que os inimigos possam se encontrar e se olhar nos olhos", dizendo "aos líderes dos povos: vamos nos encontrar, vamos dialogar, vamos negociar". Abordagem que permanece inalterada mesmo quando se trata da Casa Branca de Donald Trump, especialmente quando é parte envolvida em um conflito.
As diferenças de pontos de vista emergiram claramente durante este primeiro ano de seu pontificado: da questão dos migrantes ao tema da guerra. Como também demonstra a última declaração do Papa aos jornalistas ao deixar Castel Gandolfo, quando classificou como "inaceitável" a ameaça do presidente dos EUA de desencadear um apocalipse contra o Irã. Da mesma forma, são claras suas advertências contra "aqueles cristãos que têm grave responsabilidade nos conflitos armados" e contra a "blasfêmia" de quem inclui a dimensão religiosa nas guerras.
Não é segredo que existem obstáculos para um diálogo direto entre Leão XIV e Trump: não há registro de telefonemas oficiais entre os dois. E o magnata nunca viajou a Roma para se encontrar com o primeiro Papa estadunidense. Além disso, não se concretizará a possibilidade de uma visita de Leão XIV à sua terra natal, sugerida por alguns para 2026, por ocasião do 250º aniversário da Declaração de Independência: a Sala de Imprensa do Vaticano a negou categoricamente, portanto, por instruções "de cima", especialmente se a viagem viria a coincidir com as eleições de meio de mandato em novembro e se tornar “objeto” de campanha eleitoral.
No entanto, a rede diplomática do Papa continua a passar por Washington: e não poderia ser diferente. Existe um canal aberto — também tornado público à opinião pública — com o vice-presidente J.D. Vance: o Pontífice mencionou conversas telefônicas com ele, e o próprio número dois da Casa Branca foi recebido em audiência menos de duas semanas após a eleição de Prevost, discutindo precisamente "uma solução negociada" para os conflitos. Nos Estados Unidos, o Papa nomeou "seu" núncio, o arcebispo Gabriele Caccia, que, dois dias atrás — enquanto ainda não está definido o desfecho da guerra no Oriente Médio, desencadeada pelos EUA e Israel — chegou ao Vaticano para se apresentar ao Pontífice.
Uma atenção paciente e tenaz, feita de escuta até mesmo para além das diferenças, marcada pelo desejo de reduzir as distâncias. Uma "diplomacia que promove o diálogo e busca o consenso entre todos", como Leão XIV resumiu no início de 2026 perante embaixadores acreditados junto à Santa Sé: uma resposta àquela "diplomacia da força, dos indivíduos ou de grupos de aliados" que está se impondo enquanto "a guerra voltou à moda e o fervor bélico está se espalhando", havia especificado.
O estilo espelha aquele adotado com Israel. As censuras a ações e decisões consideradas inadmissíveis nunca faltaram por parte do Vaticano. E, mesmo em meio às complexidades por uma reaproximação com Benjamin Netanyahu, o diálogo com o Estado judeu não se interrompeu. Prova disso é a "relação" entre o Papa e o presidente israelense Isaac Herzog: uma audiência no Vaticano em setembro e conversas telefônicas, a última na véspera da Páscoa, com um apelo à "necessidade de reabrir todos os canais diplomáticos possíveis para pôr fim ao grave conflito em curso". "Diante das divisões do mundo, é um dever trabalhar pela paz", explica o presidente francês Emmanuel Macron após o encontro da última semana com o Papa. Uma hora de conversa para estabelecer uma frente comum para o diálogo, antes que o ocupante do Palácio do Eliseu se sentasse à mesa da Secretaria de Estado para "uma troca de opiniões sobre as situações de conflito no mundo, com a esperança de que a convivência pacífica possa ser restabelecida por meio da negociação", anunciou a Sala de Imprensa da Santa Sé.
O objetivo do Pontífice é tecer um "sistema" de alianças para parar as armas. E ele está fazendo isso por meio de encontros com chefes de Estado e de governo, agendadas quase todas as semanas. É o "método Vaticano" que Leão XIV havia descrito durante sua viagem apostólica à Turquia e ao Líbano: ser "uma voz mediadora entre as partes para se aproximar de uma solução" que esteja no espírito de "justiça para todos". O que implica não pôr vetos. Como confirma, por exemplo, a ligação telefônica em junho passado com o presidente russo Vladimir Putin, apesar de suas posições cristalinas sobre a guerra na Ucrânia. Diplomacia e, ao mesmo tempo, denúncia. Atestam isso as
intervenções do Papa nos dias que antecederam a Páscoa. Desde a condenação de "quem quer vencer matando o seu igual" até à advertência: "Não uma paz conseguida pela força, mas pelo diálogo". E no dia da Ressurreição, o apelo: "Façamos ouvir o clamor pela paz que brota do coração". Palavras que incluem também a pressão sobre as autoridades, incluindo os membros do Congresso estadunidense, "para que digam que querem a paz", acrescentou o Papa em Castel Gandolfo. E "para apoiar a diplomacia", enfatizou, é necessária a oração: como a vigília de hoje na Basílica de São Pedro.
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