14 Abril 2026
O Haiti deixou de ser apenas um Estado falido; tornou-se um território onde a sobrevivência é um ato diário de resistência contra a violência implacável. Os números que emergem da ilha refletem esse colapso: mais de 6 milhões de pessoas — mais da metade da população nacional — precisam de assistência humanitária urgente para não sucumbirem à fome, às doenças ou aos tiros. Marisela Silva Chau, chefe da delegação do Comitê Internacional da Cruz Vermelha (CICV) no país, pinta um quadro sombrio. "Estamos testemunhando uma população à beira do colapso, enfrentando uma situação humanitária crítica, sem acesso a serviços essenciais", alerta.
A reportagem é de Carlos S. Maldonado, jornalista, publicada por El País, 11-04-2026.
A deterioração tem sido vertiginosa. Enquanto em janeiro de 2024 havia cerca de 300 mil deslocados internos, em abril de 2026 o fluxo humano de pessoas fugindo de suas casas atingiu 1,4 milhão, vagando por um país onde abrigos são tão escassos quanto a esperança. "Estamos vendo uma população sem acesso a serviços essenciais, como saúde básica e água potável. Há também uma crise alimentar comparável às que ocorrem em regiões afetadas por violência armada prolongada. E existem diversas preocupações com a segurança, incluindo restrição de movimento, exposição ao risco de ferimentos ou morte em fogo cruzado e situações de violência sexual", explica Silva Chau.
A crise atual não é um evento aleatório, mas sim o resultado de uma espiral de violência armada que se intensificou em 2020. De acordo com a análise do CICV, o Haiti vivenciou dois grandes períodos de conflito recente. O primeiro, entre junho de 2020 e janeiro de 2024, foi marcado por confrontos de alta intensidade entre grupos rivais em enclaves estratégicos da capital, como Cité Soleil, Bel Air e Martissant. No entanto, o ponto de virada decisivo ocorreu em 29 de fevereiro de 2024. Nessa data, antigos rivais se uniram sob a coalizão Viv Ansanm para lançar ataques coordenados contra instituições estatais: a polícia, as forças armadas e missões internacionais de segurança. Essa aliança criminosa conseguiu tomar o controle de 85% de Porto Príncipe, a capital.
O horror, porém, já não se limita à capital. A onda de violência espalhou-se para o norte, até o departamento de Artibonit, e para o interior, até Mirebalais. Há poucas semanas, um massacre em zonas rurais deixou 70 mortos, confirmando que a rede de grupos armados que desafiam o governo transformou todo o interior do país num campo de batalha.
O sistema de saúde sofreu um colapso quase total: apenas 30% das unidades de saúde em todo o país permanecem operacionais. Os 70% restantes encerraram suas atividades entre 2020 e 2026 devido à completa falta de garantias de segurança para funcionários e pacientes. O trabalho das organizações humanitárias se transformou em uma espécie de medicina de guerra. O CICV teve que implementar uma estratégia de quatro frentes para tentar estancar a sangria, explica Silva Chau. Primeiro, treinando agentes comunitários de saúde em primeiros socorros pré-hospitalares, uma intervenção que muitas vezes é a única diferença entre a vida e a morte para vítimas de ferimentos por arma de fogo que não conseguem chegar a um hospital.
Num segundo nível, o apoio aos serviços de ambulância, tanto do Centro Nacional de Ambulâncias (CAN) quanto da Cruz Vermelha Haitiana, é vital para o transporte de pacientes através das zonas de conflito. Atualmente, apenas dez unidades de saúde na capital recebem apoio direto com kits de suprimentos médicos especializados para o tratamento de ferimentos por arma de fogo. Entre elas está o Hospital Universitário da Paz, o único grande hospital público que ainda resiste ao impacto da crise.
Mesmo para os profissionais de saúde, o simples deslocamento de suas casas até o centro de saúde já é um ato de heroísmo, afirma Silva Chau. Eles cruzam fronteiras invisíveis controladas por gangues ou autoridades, muitas vezes enfrentando violência que chega até as portas dos hospitais. Essa pressão psicológica é tão devastadora que o CICV precisou implementar programas emergenciais de apoio psicossocial para os próprios profissionais de saúde. "Mantemos um diálogo com todos os atores armados para tentar mudar seu comportamento. Isso leva tempo, é claro, mas é o principal objetivo do CICV: enfatizar que a população deve ser preservada, protegida e mantida longe do impacto da violência armada", explica Silva Chau.
Este diálogo não implica validação política, mas sim uma necessidade operacional. A chefe da delegação do CICV explica que a polícia, as forças armadas e os grupos armados são mantidos informados de forma transparente sobre os movimentos diários das brigadas humanitárias. Se o contexto não o permitir, ou se os atores locais considerarem inadequado, a atividade é reprogramada.
Sede e fome na capital do medo
Se a saúde já é precária, o acesso à água potável é um luxo que milhões não podem pagar. Desde 2020, muitas áreas de Porto Príncipe perderam o acesso a serviços básicos porque os confrontos impedem as pessoas de chegar às fontes de água. Sair para buscar água significa correr o risco de ser atingido por fogo cruzado.
Para mitigar essa crise, organizações humanitárias, em coordenação com a Direção Nacional de Água Potável e Saneamento (DINEPA), recorreram ao rastreamento de água: o uso de caminhões-tanque para entregar água potável a áreas sitiadas e a construção de quiosques de água em pontos estratégicos. No entanto, cada viagem de caminhão-tanque exige negociação prévia para garantir que a água chegue ao seu destino sem que os trabalhadores sejam atacados. O Haiti enfrenta atualmente uma crise alimentar que Silva Chau compara a regiões afetadas por conflitos armados prolongados em outras partes do mundo.
O "fantasma" da fadiga internacional
A comunidade internacional encara o Haiti com uma mistura de impotência e cansaço. Fala-se frequentemente em "fadiga dos doadores", uma noção que Silva Chau insiste que deve ser erradicada do léxico diplomático. "Não há desculpa para dizer que nada pode ser feito. Existe a obrigação de fornecer os recursos necessários", afirma com firmeza.
O país está se preparando para o destacamento da Força de Repressão a Gangues a partir de maio de 2026. Há grande expectativa, mas também um temor bem fundamentado: o de que o uso isolado da força em áreas densamente povoadas gere consequências humanitárias ainda mais graves e provoque um novo êxodo de deslocados internos que não têm para onde ir.
Apesar do colapso de suas instituições, da violência sexual desenfreada, do recrutamento forçado de crianças e de viverem sob um estado de sítio permanente, a população haitiana "não perdeu a esperança", afirma Silva Chau. "Devemos honrar essa esperança porque, na prática, eles ainda acreditam que a situação pode melhorar em algum momento", comenta. É essa resiliência que desafia o mundo. "Devemos continuar ao lado do povo", exorta a chefe da delegação do CICV.
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