Quem removerá a nossa pedra? Artigo de Lidia Maggi

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11 Abril 2026

"Vocês acham que esse anúncio jubiloso fez as discípulas pularem de alegria, transformando-as em apóstolas chamadas a anunciar aos discípulos que Cristo ressuscitou? Não, porque as mulheres fogem amedrontadas e não falam nada! A ressurreição não desperta alegria, mas medo, porque torna tudo elusivo, incompreensível", escreve Lidia Maggi, pastora batista italiana, em artigo publicado pela revista Riforma, 01-04-2026. A tradução é de Luisa Rabolini.

Eis o artigo.

Quando terminou o sábado, Maria Madalena, Salomé e Maria, mãe de Tiago, compraram especiarias aromáticas para ungir o corpo de Jesus. No primeiro dia da semana, bem cedo, ao nascer do sol, elas se dirigiram ao sepulcro, perguntando umas às outras: "Quem removerá para nós a pedra da entrada do sepulcro? " Mas, quando foram verificar, viram que a pedra, que era muito grande, havia sido removida. Entrando no sepulcro, viram um jovem vestido de roupas brancas assentado à direita, e ficaram amedrontadas. "Não tenham medo", disse ele. "Vocês estão procurando Jesus, o Nazareno, que foi crucificado. Ele ressuscitou! Não está aqui. Vejam o lugar onde o haviam posto. Vão e digam aos discípulos dele e a Pedro: ‘Ele está indo adiante de vocês para a Galileia. Lá vocês o verão, como ele lhes disse’". Tremendo e assustadas, as mulheres saíram e fugiram do sepulcro. E não disseram nada a ninguém, porque estavam amedrontadas. (Marcos 16,1-8)
A Páscoa é uma passagem, mas a pedra bloqueia o caminho. A pedra interrompe a passagem; é uma porta hermética que fecha a prisão da nossa existência. Pode ser uma dor, uma desilusão, um rancor, um medo. A pedra é um peso dentro de você, uma dificuldade em crer que lhe impede de enxergar além. E então, “quem removerá a nossa pedra?”

A pedra sela uma esperança que permanece enterrada, esmagada pelo peso da rocha. E mesmo quando a pedra for removida, ó mulheres, o que vocês acham que encontrarão dentro da tumba? Haverá apenas um corpo martirizado para honrar, uma flor cortada para colher, enfaixar, perfumar, para enterrar novamente. E então, "quem removerá a nossa pedra?"
No caminho para o sepulcro, as mulheres sabem do obstáculo que encontrarão e sabem dar um nome aquela pedra que quase as impede de respirar. Elas não são ingênuas, mas como poderiam ser, depois de testemunharem a brutal violência com que o canto livre do Reino foi silenciado... Oh, não, as mulheres não são ingênuas, conhecem as pedras do coração; e ainda assim, apesar de tudo, elas decidem ir, se põem em caminho.

Elas também poderiam ter dito "o tempo acabou", mesmo para o simples cuidado a ser prestado ao falecido; o tempo acabou porque os sepulcros, uma vez selados, não podem mais ser abertos.
O corpo, uma vez trancado, é para sempre removido dos cuidados. E vejam que na pedra reside a ordem do mundo, pesada, mas tranquilizadora, muito mais do que as pedras que saem rolando. "Quem removerá a nossa pedra?"

As mulheres que vão ao sepulcro são discípulas obstinadas, querem realizar gestos de cuidado fora de tempo. O tempo acabou! Elas se organizam tarde demais! Elas também, como os discípulos no Evangelho de Marcos, são inadequadas para a situação. A solidariedade entre discípulos e discípulas, para o autor do Evangelho mais antigo, passa precisamente pelo caminho da inadequação mútua em relação a Cristo. E reconhecer as próprias fragilidades sem julgar uns aos outros nos faz descobrir que compartilhar a mesma dor, a mesma esperança, às vezes torna as pedras menos estáveis. Se os discípulos não puderam proteger seu mestre, as discípulas chegaram tarde.

Nenhuma honra fúnebre, portanto, para o corpo do rabino de Nazaré, um mestre tão especial que até mesmo dava às mulheres o direito de segui-lo. Um rabino que ensinava as mulheres: suas turmas eram mistas!

Ele também havia ensinado seus discípulos a reconhecer o senhorio de Deus nas pequenas coisas, e as mulheres o haviam seguido com entusiasmo desde o início, desde a Galileia. Ele, como Moisés, as libertara das correntes dos poderes sociais e as havia conduzido numa viagem rumo à terra prometida. A Páscoa das mulheres começara precisamente com Jesus, aquele rabino que lhes dera o direito de escolher a parte boa da vida, direito que ninguém lhes podia tirar. Então tudo desmoronou: aquele que acendera suas esperanças, que removera a pedra que bloqueava seu caminho, agora jazia num sepulcro selado. Então, "quem removerá a nossa pedra?".

Apesar de suas perguntas, de suas perplexidades, as discípulas vão e, quando chegam ao sepulcro, levantam o olhar e veem o impossível, o inacreditável, porque a pedra foi removida. A primeira anunciação que reacende a esperança pascal na companhia das mulheres é que não sou eu que preciso remover aquela pedra; não é uma questão de vontade, nem mesmo de colaboração.
Não, a pedra rolou sem nós, apesar de nós, apesar dos meus esforços e da minha resistência, apesar de ser tarde demais, fora do prazo para agir. A pedra foi removida sem intervenção humana. A Páscoa já está toda contida nesse anúncio: Deus pode remover os pesos irremovíveis, até mesmo o peso mais esmagador da existência, a morte.

Vocês acham que esse anúncio jubiloso fez as discípulas pularem de alegria, transformando-as em apóstolas chamadas a anunciar aos discípulos que Cristo ressuscitou? Não, porque as mulheres fogem amedrontadas e não falam nada! A ressurreição não desperta alegria, mas medo, porque torna tudo elusivo, incompreensível. Vejam, uma rocha inamovível é mais aceitável do que um mundo de cabeça para baixo, onde as pedras podem sair rolando. É mais aceitável um corpo morto, concreto, para ser lamentado e sepultado, do que a ausência de um corpo, vivo, que nos recoloca em caminho.

A Páscoa é, portanto, um anúncio jubiloso, sim, mas também difícil, porque levanta perguntas em vez de dar respostas, abre esperanças, mas sem oferecer certezas, põe a vida em movimento de novo, mas sem poder catalogá-la. Amém.

Oração:

Cristo ressuscitou. Mesmo antes de seu corpo, Jesus ressuscitou na memória de quem guardou suas palavras e seus gestos. Na fragrância de quem venceu o medo, recomeçou sua proclamação. Um poema não morre enquanto for proclamado; uma canção não termina enquanto houver uma voz para cantá-la. Jesus é a minha canção, a minha poesia, aquela história infinita que renasce a cada vez que é contada. Mesmo que fosse só isso — a ressurreição — seria pouco? Mas eis que a anunciação da Páscoa me sussurra: o crucificado passou pela morte e a venceu! Não temas, espera! Que o teu coração seja fortalecido! Sim, tenhas esperança no Deus da vida! Amém.

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