30 Março 2026
A estratégia de Richard Nixon consistia em proteger sua própria reputação, e agora Trump precisa buscar sua própria saída honrosa.
A informação é de Kenneth Roth publicada por The Guardian e reproduzida por El Diario, 30-03-2026.
Trump amplia o ultimato para destruir as plantas energéticas do Irã até 6 de abril: “As negociações estão indo muito bem”.
As contorções de Donald Trump para justificar sua guerra com o Irã me lembram Richard Nixon e sua busca por uma “paz com honra” no Vietnã. Aquele fim esquivo que Nixon ansiava custou anos de mortes e sofrimento. Quanto estrago Trump está disposto a causar antes de cortar o mal pela raiz e pôr fim a este conflito sem sentido?
Nixon pediu pela primeira vez um “final honroso” para a guerra em seu discurso de aceitação da indicação como candidato na Convenção Nacional Republicana de 1968. Foi um dos temas principais de sua campanha e de seu mandato presidencial. À medida que ficava claro que o governo do Vietnã do Sul não sobreviveria se os EUA abandonassem a disputa, Nixon tentou defender a credibilidade de Washington, entendida de maneira cínica como um “intervalo decente” entre a saída americana e o colapso de Saigon.
Para garantir esse período — os dois anos que transcorreram entre os Acordos de Paz de Paris de 1973 e a queda de Saigon, em abril de 1975 — Nixon e seu conselheiro de segurança nacional, Henry Kissinger, submeteram o povo do Vietnã a quatro anos de bombardeios que se estenderam aos países vizinhos, Camboja e Laos. Mais de 20 mil soldados americanos morreram nesse tempo. As baixas vietnamitas, cambojanas e laosianas foram muito superiores.
🇧🇭 Grandes protestos contra o regime da monarquia sunita estão acontecendo no Bahrein neste domingo. O povo do Bahrein é de maioria xiita, exigindo agora que o governo seja reformado e que o país deixe de se alinhar aos EUA/Israel na guerra contra o Irã. pic.twitter.com/s5nfY1hgkk
— Análise Geopolítica (@AnaliseGeopol) March 29, 2026
O texto anterior nos leva a Trump. Por que ele continua bombardeando o Irã?
Não é para destruir os mísseis iranianos de longo alcance. A Casa Branca afirma: “A capacidade de mísseis balísticos do Irã está funcionalmente destruída”, e sua taxa de lançamento de mísseis caiu drasticamente. No entanto, a Reuters informa que os EUA só podem determinar com certeza que destruíram um terço do vasto arsenal de mísseis do Irã.
Tampouco é para dizimar o programa nuclear iraniano. Este já foi “aniquilado” em junho do ano passado, segundo Trump, após 12 dias de bombardeios americanos e israelenses. Acredita-se que o Irã ainda tenha 440 quilos de urânio altamente enriquecido sob os locais nucleares de Isfahan e Natanz, mas pouca gente acredita que Trump enviaria suas tropas ao terreno para a perigosa missão de recuperar o material nuclear.
O fim também não é a mudança de regime, um objetivo que Trump parece ter descartado. Em todo caso, não há precedentes de governos que caíram à base de bombardeios; até Benjamin Netanyahu reconhece isso. E a base de Trump, os MAGA, entraria em pânico no caso de uma guerra terrestre.
Quanto aos cidadãos iranianos, eles estão receosos, como é compreensível, a assumir os apelos de Trump para derrubar o regime, uma vez visto que este acaba de massacrar pelo menos 7 mil pessoas quando tentaram em janeiro, e que os EUA têm um histórico ruim em apoiar revoltas contra déspotas — como lembram os iraquianos que ouviram George Bush pai e tentaram se livrar de Saddam Hussein.
A última fixação de Trump é o bloqueio iraniano a muitos dos petroleiros que tentam cruzar o Estreito de Ormuz, por onde passa 20% do petróleo e gás do mundo. A medida fez os preços dispararem. A ameaça mais recente de Trump é que destruirá a infraestrutura elétrica do Irã se o país não aceitar reabrir a passagem.
Atacar essa infraestrutura seria um crime de guerra. O Tribunal Penal Internacional processou quatro comandantes russos por fazerem precisamente isso na Ucrânia. As centrais elétricas são infraestruturas civis que não devem ser atacadas, e o dano que os civis sofreriam não guarda proporção com a vantagem militar que pudesse supor.
Além disso, o ataque iraniano é uma reação ao bombardeio de EUA e Israel. Para tentar fazer o Irã parar, o óbvio seria que Trump e Netanyahu parassem de bombardeá-lo, agora que a lógica de continuar fazendo isso se dissipa. Nada garante que a contenção dê frutos, mas sem dúvida é melhor tentar isso do que continuar agravando a guerra, dada a destruição que o conflito está causando na economia mundial. Sem falar no péssimo histórico que esse tipo de escalada deixou no Vietnã, Afeganistão e Iraque.
Resulta paradoxal, mas é provável que o Irã tenha agora uma posição negociadora mais sólida do que antes da guerra de agressão de Trump e Netanyahu. Antes, o Irã queria evitar os bombardeios. Agora que já sofreu o pior — a decapitação da hierarquia, a destruição de boa parte do exército e os ataques às forças de repressão interna —, o regime tem muito menos a perder.
Claro que o povo iraniano ainda pode perder muito. Hoje sofrem, mas a República Islâmica é uma ditadura cruel que nunca colocou o bem-estar público acima do controle do poder. Não dá sinais de ceder.
Pelo contrário, os clérigos iranianos estão encorajados pelo sucesso da estratégia militar assimétrica. Embora não possam derrotar as superpotências global e regional que são EUA e Israel em campo aberto, podem semear o caos nos países árabes do Golfo Pérsico, onde os EUA têm suas bases, e minar a economia mundial. O regime iraniano pode considerar que tem uma mão vencedora, vendo que o preço da gasolina será um fator determinante nas próximas eleições de meio de mandato nos EUA.
Os iranianos são mestres na procrastinação e é provável que insistam em algumas das questões que lhes interessaram durante as negociações anteriores que Trump rompeu. Querem que se retirem as sanções e que se declare seu direito ao enriquecimento nuclear. O novo Líder Supremo desdenhou a continuidade das negociações.
Um cessar-fogo de facto poderia ser mais efetivo. Trump deveria simplesmente parar de bombardear e obrigar Netanyahu a fazer o mesmo. Não sabemos como o regime reagiria, mas seria possível que respondesse da mesma forma, em vez de assumir a responsabilidade de seguir com a guerra. Se, como parece, vê em sua sobrevivência um triunfo, poderia aproveitar a oportunidade.
Mas Trump também anseia por “ganhar” a guerra. Ele disse que busca a “rendição incondicional” e que o regime iraniano admita expressamente sua derrota. Esses objetivos são políticos, não militares. São a tentativa de Trump de proteger a si mesmo, antes de qualquer outro ator no Oriente Médio.
Aí é onde Trump nos lembra Nixon. A “honra” que Nixon buscava não era a dos americanos — que em sua maioria queriam sair do Vietnã, assim como hoje não querem ter nada a ver com esta guerra. A honra que preocupava Nixon era a sua própria. Ele não queria pagar o preço político de ter “perdido” no Vietnã.
Com Trump passa algo parecido. Após ter embarcado em uma guerra sem um motivo minimamente válido, agora precisa de uma saída que lhe permita salvar as aparências. Mas quantos iranianos devem morrer, quanta devastação deve deixar esta guerra sem sentido, quanto empobrecimento o mundo deve padecer para que Trump possa cantar vitória?
O presidente americano é tristemente conhecido por suas declarações vitoriosas sem base factual. Seria um bom momento para outra delas.
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