09 Março 2026
"O niilismo parece impregnar tudo também na Europa. E, com ele, seu subproduto: a guerra cultural. Custa diferenciar o que é política, o que é guerra cultural e o que é niilismo — a inconsciência de que as catástrofes já são inevitáveis, o estado de espírito predominante em 1914. Mas seria importante fazê-lo, pois a única coisa clara em toda essa confusão é o nascimento da nêmese de Trump: Sánchez."
O artigo é de Guillem Martínez, publicada por CTXT, 06-03-2026.
Guillem Martínez é autor de CT ou a cultura da Transição. Crítica a 35 anos de cultura espanhola (Debolsillo), de 57 dias em Piolín, da coleção Contextos (CTXT/Lengua de Trapo), de Caixa de bruxas, da mesma coleção, e de Os Domingos, uma seleção de seus artigos dominicais (Anagrama). Seu livro mais recente é Como os gregos (Escritos contextatários).
Eis o artigo.
Este conflito, perigosamente próximo em sua forma e aspecto de uma guerra mundial, só se explica a partir do niilismo das elites em Israel e nos Estados Unidos.
Se você não consegue descrever algo — o que é, como se chegou a isso, seu processo de tomada de decisão —, é porque o que você quer descrever é uma catástrofe: aquelas coisas que, como os cogumelos, nascem sozinhas, devem-se a si mesmas e são fatos diante dos quais você não pode fazer nada, exceto dar de ombros.
Se repararem — os papéis de Epstein, os papéis do 23F, essas cataratas impossíveis de descrever, de saber como se chegou a elas, sua tomada de decisões —, ultimamente os governos descobriram uma maneira de nos fazer dar de ombros: que as coisas sejam avassaladoras e impronunciáveis, de modo que pareçam uma catástrofe. Por isso mesmo é importante descrever as coisas. Ou estamos perdidos e abandonados às catástrofes, ou ponto 15.
O que aconteceu, o que está acontecendo no Irã? Ou seja, o que está acontecendo nos EUA?
A sequência dos fatos parece ter sido esta: EUA e Irã estavam negociando suas questões. O Irã — segundo o Financial Times — estava cedendo drasticamente — por exemplo: comprometeu-se a não armazenar urânio e, além disso, a empobrecê-lo. No dia 27 de fevereiro, as conversas foram adiadas para segunda-feira, 2 de março. Mas não foram retomadas, pois em 28 de fevereiro, no estilo Japão em Pearl Harbor, bombardeando no contexto de uma negociação — nos filmes do futuro, os EUA serão os vilões com óculos de fundo de garrafa —, Israel e EUA atacaram o Irã. No que é: a) um ataque ilegal, embora também seja b) a forma de bombardeio mais comum desde 2003. Tudo, enfim, acontece lentamente, e o que houve em 28 de fevereiro começou a acontecer em 2003, naquela revolução nos costumes da guerra.
Conhecemos a descrição e as funções desse ataque também pelo FT. Trata-se de um ataque em dois tempos. No primeiro, os EUA realizam um ciberataque que cega as defesas iranianas enquanto, no segundo tempo, Israel aproveita esse serviço gratuito para deslocar seus aviões e bombardear o ponto exato onde estavam reunidos Khamenei e o estado-maior iraniano. Seus aviões lançaram, exatamente, 30 munições naquele ponto. Pumba. Tanto Israel — através de câmeras urbanas de Teerã hackeadas — quanto os EUA — através de um informante no próprio núcleo do Estado iraniano — conheciam os movimentos de Khamenei. De modo que o ataque foi, basicamente, um atentado contra Khamenei com aparência cirúrgica, de filme de espionagem. Mas não existe bombardeio cirúrgico de filme de espionagem. De fato, naquele dia morreram mais de 500 pessoas, entre elas quase 200 menores de uma escola severamente bombardeada. Por que se bombardeia o Irã em 28 de fevereiro? Pela oportunidade, literalmente, de "dar um fim" em Khamenei. Se outros alvos tivessem sido bombardeados antes, Khamenei teria se protegido por semanas em um bunker. A pergunta é, então: por que liquidar Khamenei?
Pela parte israelense, assassinava-se quem era responsabilizado pelo ataque do Hamas em 7 de outubro de 2023. Matar Khamenei é, assim, um ato de consumo interno. É oferecer aos eleitores do arco que sustenta o governo Netanyahu uma explicação, uma gramática do que aconteceu, na qual prevalece o bélico como linguagem, na qual se verbaliza um mundo simples, de causas e efeitos simples, através da guerra. Esta gramática é a única que o "pacote Netanyahu" pode utilizar. Por duas razões: não só é a) a custosa e bem-sucedida gramática criada desde 2005 pela direita e pela nova extrema-direita israelense, mas também b) eles não podem utilizar outra que aluda a uma realidade mais ampla, já que o próprio Netanyahu, nessa realidade, tem três processos criminais abertos em Israel por corrupção, além de um mandado de prisão solicitado pelo Tribunal Penal Internacional. Netanyahu, enfim, não só não pode abandonar Israel — exceto em viagens para países como os EUA —, como não pode abandonar, por isso mesmo, essa linguagem política. O interesse de Netanyahu em toda esta operação é pessoal e consiste em emitir ações que façam esquecer sua trajetória pessoal, sua corrupção e seus crimes de guerra? É muito possível.
Pela parte dos EUA, não há nenhuma vantagem ou benefício nesse ataque. O pacote America First exclui esse tipo de ação externa. De fato, esse pacote está sendo reformulado às pressas desde 28 de fevereiro, para que esse ataque de difícil argumentação se adapte a uma ideia ecumênica de "americafirstismo". Embora não seja impossível, é difícil. Se Trump não conseguir, o Irã será seu Stalingrado. Não há explicação para as razões do ataque ilegal, caro, absurdo e de final absolutamente aberto iniciado em 28 de fevereiro. Por isso, também é possível que as razões dos EUA, como no caso de Israel, sejam puramente internas e afetem apenas seu líder.
Seriam, neste caso, duas razões: a) o caso Epstein, sua sombra sobre a luminosidade de Trump — em 3 de março, o FBI publicou documentos nos quais diversas mulheres, menores de idade na época dos fatos, teriam sido agredidas, segundo seus testemunhos, por Trump; vocês ouviram falar disso em meio ao ruído da guerra? —. E a outra seria b) a decisão da Suprema Corte dos EUA de derrubar a questão das tarifas, o grande sucesso local e planetário de Trump. E não só isso, mas c) a resposta de Trump à Suprema Corte: uma tarifa universal de 15%, inviável pelos mesmos motivos legais apontados pela Corte, que acabou ficando em 10%. Ou seja — ai, que eu me mato de rir — a melhora da situação tarifária para o Brasil (que vê suas tarifas reduzidas em 13,56%), para a China (reduções de mais de 7%) ou para a UE (mais de 2% de pechincha).
Ou seja, as explicações e descrições do que aconteceu na manhã de 28 de fevereiro — um atentado em larga escala contra um senhor, no qual morrem 500 pessoas — concentram-se nas políticas internas dos EUA e de Israel. Mas essas explicações, fracas para montar tamanha confusão, já não são válidas para o que aconteceu na tarde de 28 de fevereiro e, a partir desse momento, até agora. Não explicam a intensificação do conflito, nem seu transcurso. Ou o fazem a partir de narrativas mutantes.
Em poucas horas, e com base em declarações dos secretários de Defesa, de Estado e de Trump, o ataque visava impedir a fabricação de armas de destruição em massa — opção descartada anteriormente pelo governo Trump. Depois nasceu a "intenção de derrubar o regime iraniano", logo a de buscar um "levante da população", posteriormente obedecia à continuidade de uma guerra EUA-Irã iniciada "há 47 anos", para passar depois a ser algo que "não obedecia a nenhuma mudança de regime", ou até — a última enquanto escrevo estas linhas — tudo obedecia à vontade de nomear um novo "Mega-Aiatolá" ao estilo Delcy Rodríguez — o que, agora, parece inverossímil; diferentemente do chavismo, formado por profissionais, o aiatolismo é formado por crentes, ou seja, amateurs, ou seja, fanáticos. Também se reformulava, progressivamente, a duração do conflito. No que é dramaticamente importante e uma ilustração da ausência de qualquer plano: de uma duração rápida, passou-se em 48 horas para "quatro ou cinco semanas", que em cinco dias passaram para "vários meses". A guerra, enfim, pode durar até setembro, segundo informa o Politico citando fontes da Casa Branca. O que se aproximaria de um desastre político para Trump se pensarmos que o interesse inicial era realizar uma ação rápida, capaz de ser um fóssil esquecido em novembro, quando ocorrerão as — cada vez mais duvidosas — eleições de meio de mandato nos EUA. Falar de um conflito até setembro é jogar roleta russa com a própria vida.
Sobre o caos: esta manhã, cedo, o conflito já afetava 13 Estados. Muitos. Além disso, um da UE (Chipre — desde Alexandre, o Grande, não havia um conflito entre gregos e persas; vivendo para ver), outro da OTAN (Turquia) e outro já definitivamente fora da região (Azerbaijão, antiga província iraniana conquistada, na época, pelos tzares). O alcance territorial do conflito abrange do Mediterrâneo ao Sri Lanka, ponto onde, de maneira confusa, ocorreu o primeiro naufrágio de um navio de guerra iraniano por torpedo de um submarino dos EUA desde a Segunda Guerra Mundial. Tudo isso fala da extrema fragilidade da situation. De sua volatilidade. Também econômica.
Na segunda-feira, 2 de março, os mercados abriram com altas no gás e no petróleo. Inferiores, no entanto, às previstas. A razão: os mercados, de alguma forma, se acostumam com Trump, de modo que assumiram, em silêncio, durante o fim de semana, uma alta que não chegou a ser estrondosa, mas que foi ocorrendo ao longo da semana. O gás supera em 50% seu preço de 27 de fevereiro, e a gasolina sobe. Acredita-se que o limite desta crise será chegar aos 140 dólares o barril. Lembrem-se desse número, que será a fronteira do conflito rumo ao exagero. O Estreito de Ormuz está fechado. O que aumentará o preço do transporte não só de gás e petróleo, mas, por tabela, de todo o transporte marítimo.
Neste momento, desconhece-se o projeto dos EUA. Ao que parece, está tentando atrair os — pobres — curdos para entrar em território iraniano. Se isso durar, e por necessidade do roteiro, alguém deverá entrar no Irã. O que suporia também uma guerra civil no Irã — a pior das guerras possíveis; a mais cruel, artesanal e imprevisível, pois depende ainda mais da ira. Os EUA estão intensificando seus ataques. Segundo nos comunicam — vá saber — a bases militares, navais, de mísseis, a instalações nucleares (cuidado), a agências de segurança, ao complexo residencial de Khamenei, à Assembleia de Especialistas que deve nomear o Khamenei 2.0. Israel, por sua vez, está intensificando seus ataques ao Líbano/Hezbollah. Nesse processo, recebe ataques de drones e mísseis do Hezbollah. Dia e noite. O que produz esta metáfora: hoje, Israel é um país de pessoas que dormem mal. Não dormir é uma atitude insustentável perante a vida. Por sua vez, o Irã parece querer a) ampliar o conflito para que se torne regional, de modo que haja maior pressão regional para que os EUA o interrompam. E b) também pretende aumentar o custo da guerra. De fato, segundo dizem os especialistas, o Irã está atacando com artefatos baratos — 20 a 50 mil dólares —, que obrigam Israel e os EUA a um grande gasto em armamento de defesa. Sobre o gasto em armamento: Antony Blinken assinalou um fato importante. Os EUA estão esgotando suas reservas armamentistas sem uma narrativa clara, comprometendo sua segurança futura. Pelo mesmo preço, Blinken fala do possível fim desta guerra. Depende de duas variantes: a) os mercados (lembrem-se: 140 dólares o barril) e b) a munição (ou seja, os mercados). E uma terceira variável: que, independentemente do resultado, Trump declare vitória e encerre a guerra. Segundo Blinken, é a opção mais provável.
Por outro lado, a China parece não dar muita importância. Segundo o The Economist, a China importa 80% do petróleo iraniano — que representa 10% das importações de petróleo chinesas. E exporta pouco para o Irã. Uma ruptura comercial com o Irã seria um problema, mas não um grande problema existindo a Rússia. O conflito atual, aponta o jornal, inclusive beneficia a China por duas razões: a) elimina-se a possibilidade de outro arsenal nuclear na Ásia e b) os EUA estão gastando muito armamento longe do Pacífico. Recentemente, anunciou-se que China, Rússia e Irã assinaram um pacto estratégico e defensivo. Comunicou-se que o pacto era secreto e tão extenso que seria divulgado em partes, o que não foi feito. No mais, a China emite declarações formais de adesão inquebrantável, mas tíbias. Curiosidade: os telejornais chineses, que não informaram na época sobre os motins da população iraniana contra o regime, agora informam com total normalidade sobre o que ocorre. O que é um indicativo de certa ausência de preocupação.
O descrito, exceto a cosmovisão chinesa, é a descrição de uma selva. É isso? Isso é o caos, algo impossível de estabelecer como se chegou a ele? É, por isso, uma catástrofe — aquelas coisas que, como tempestades e terremotos, nascem sozinhas e diante das quais você só pode dar de ombros?
Em seu último livro, Emmanuel Rodríguez fala da catástrofe como lugar, como fato, como algo tridimensional. Fala da aceitação — na sociedade, mas ainda mais na política — da catástrofe (econômica, ecológica, geopolítica) como algo irreversível. De modo que as elites já não administram o progresso, mas sim a catástrofe. Isso limita absolutamente o reformismo. Na verdade, o grosso da política nesta fase é apenas emissão de guerra cultural, a simulação de conflito em outro ponto, longe do conflito real. Tudo isso se traduz em um "niilismo doce" na sociedade, que aceita a catástrofe como possibilidade. Deve ser um processo avançado, pois esse "niilismo doce" parece estar dando lugar a um niilismo absoluto em algumas elites. Por exemplo, nas dos EUA e de Israel. Perto de uma semana do início deste conflito, o embate só se explica no niilismo. Na contemplação do abismo com naturalidade. Na ideia de que a realidade são cogumelos, tempestades, epidemias — fenômenos diante dos quais só cabe dar de ombros e assumir que as vítimas morreriam de qualquer jeito. E isso é, talvez, o que está acontecendo. A aceitação da catástrofe por parte da política.
Sobre o niilismo dos EUA: seu selo. Impressiona saber que o processo de tomada de decisões de Estado desde janeiro foi formulado pela IA da Palantir, que utilizou o Claude da Anthropic — agora, essa empresa não joga mais esse jogo — dentro da IA da Palantir, rebatizada como Plataforma Para Tomada De Decisões Críticas. O niilismo, enfim, era isso.
Em sua gama de cinzas, esse niilismo é o que está acontecendo na Europa. O início do conflito foi saudado de maneira estranha pela elite da UE, que apontou a gravidade da resposta iraniana, mas não a gravidade da guerra ilegal iniciada por EUA e Israel. Surpreendentemente, a ilegalidade da guerra não tem sido uma constante na Europa. Surpreendentemente, a França enviou um porta-aviões ao Mediterrâneo. Surpreendentemente, em viagem a Washington, o chanceler Merz foi ambíguo diante dos ataques de Trump à Espanha, pela recusa desta em permitir que os EUA usem as bases espanholas para missões de ataque. Surpreendentemente, no que não tem precedentes, a Espanha negou o uso dessas bases. Surpreendentemente, o Reino Unido fez o mesmo. Não se trata de uma sequência de fatos claros, mas de fatos contraditórios entre si.
O niilismo parece impregnar tudo também na Europa. E, com ele, seu subproduto: a guerra cultural. Custa diferenciar o que é política, o que é guerra cultural e o que é niilismo — a inconsciência de que as catástrofes já são inevitáveis, o estado de espírito predominante em 1914. Mas seria importante fazê-lo, pois a única coisa clara em toda essa confusão é o nascimento da nêmese de Trump: Sánchez.
Estamos em uma época flutuante, líquida, propensa a fenômenos imprevistos e, por isso, a líderes não previstos. Se Sánchez jogar bem suas cartas — não apenas as niilistas ou as de guerra cultural, mas as políticas —, pode alcançar uma situação nova e insuspeitada, não apenas no âmbito local.
Isso, claro, se não morrer "atropelado" por Trump. Sánchez, nesta incursão, não enfrenta um juiz medíocre ou um opositor interno, mas uma potência. E desde que não perca terreno para o oposto de Sánchez: Meloni. Seu detalhado "A Itália não está em guerra nem quer entrar nela" pode ser algo mais operacional que o genérico "não à guerra" de Sánchez. Os ultra-niilistas são os que melhor se movem, enfim, no niilismo.
É preciso continuar descrevendo o que acontece. Não é uma catástrofe. É um acúmulo de decisões de pessoas com nome e sobrenome, na era da gestão das catástrofes que não são catástrofes, mas acúmulo de decisões de pessoas com etc.
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