05 Março 2026
“Um momento de kairos para a Comunhão Anglicana global” – assim define o GAFCON, um movimento dissidente de primazes, metropolitas, clero e leigos a conferência de quatro dias que teve início esta terça-feira, 3 de março, em Abuja, na Nigéria, e que pode representar a separação de um ramo dentro do mundo anglicano. Isto a escassas semanas da tomada de posse da nova arcebispa de Cantuária.
A reportagem é publicada por 7 Margens, 03-03-2026.
A conferência é convocada pela GAFCON (Global Anglican Future Conference), que se tem vindo a demarcar dos rumos seguidos em especial pela Igreja de Inglaterra, mas também pelas igrejas ortodoxas (incluindo episcopalianas) da América, no que toca, sobretudo, ao lugar das mulheres e às questões de sexualidade e gênero.
As orientações teológicas e pastorais adotadas são tidas como opostas ao Evangelho e levaram progressivamente a fortes tensões nas últimas conferências globais. A eleição de uma mulher, Sarah Mullally, para arcebispo de Cantuária, que deve presidir ex officio à Igreja de Inglaterra e à Comunhão Anglicana, terá sido a gota de água que fez acelerar o processo de divisão.
O movimento de contestação corporizado na GAFCON tem implantação sobretudo na África subsaariana e, em geral, no chamado Grande Sul, mas reúne bispos, padres e leigos de outros horizontes geográficos que com ele sintonizam.
Mas, no Grande Sul, os contestatários não estão sozinhos. Na última década desenvolveu-se um outro movimento, o GSFA (Global South Fellowship of Anglican Churches) que, partilhando parcialmente as críticas da GAFCON, se recusa a adotar um caminho de cisão, preferindo continuar a alimentar o debate no interior da Comunhão Anglicana liderada pele sede de Cantuária.
De qualquer modo, o GAFCON, que, por considerar que a Comunhão existente se desviou e abandonou “a autoridade da Bíblia”, se considera a verdadeira Comunhão Anglicana, afirma que “o futuro chegou” e começa a acontecer agora – a “comunidade precisa de ser reordenada”, diz. Apesar do apelo ao arrependimento que afirma ter feito aos outros, a situação foi “de mal a pior”.
A conferência de Abuja, que os organizadores dizem ter para cima de 400 participantes, vai reunir-se em pequenos grupos de discernimento, para que o caminho a seguir seja definido de forma participada. “Conciliar, confessional, colaborativa e centrada nas Escrituras”, assim o define o secretário-geral da GAFCON.
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