03 Março 2026
O Morro do Cristo é a identidade de Juiz de Fora. Nada mais simbólico do que a cicatriz nele aberta pela mais recente tragédia climática ocorrida no Brasil.
O comentário é de Cláudia Viscardi, professora do Departamento de História da UFJF, em sua conta do Instagram.
Sabemos que a cidade tem uma topografia difícil. E que durante décadas de descaso dos poderes públicos, pouco ou nada foi feito para prevenção. Sabemos também que a desindustrialização da cidade a tornou refém da especulação imobiliária desenfreada, que destruiu não só nosso patrimônio histórico como também o sistema de drenagem, fazendo da cidade uma selva de pedra, uma ode ao capitalismo selvagem, que pra muitos, é beleza e modernidade.
Sou uma cidadã comum, que mora longe do rio e sobre encostas seguras. Mas desde a minha infância e juventude, o Morro do Cristo se impunha sobre minha casa, e do quintal admirava sua imponência. Não tínhamos medo dele, mas orgulho. Hoje ele está partido, como partidas estão nossas esperanças e expectativas de futuro. Nossa cidade está destruída. Morreram quase 70 pessoas.
Veja o antes e depois do Morro do Cristo (Arte elaborada por Tribuna de Minas)
São mais de 8 mil exilados de suas casas. Muitos perderam o pouco que tinham. A cidade será reconstruída? Provavelmente sim, a duras penas. Mas se não alterarmos o que nos trouxe até aqui, a história se repetirá. E como sempre o faz, sob a forma de tragédia. Espero que esta cicatriz do nosso morro, que é circundada pelo nosso mar de outros morros, continue como uma ferida aberta para que a gente nunca se esqueça do que temos feito com nosso planeta, com nossa cidade e com nosso senso de comunidade.
Morro do Cristo, em Juiz de Fora, fatiado pelos deslizamentos (Foto retirada do Instagram da prefeitura de Juiz de Fora)
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