26 Fevereiro 2026
Um grupo de bispos dos EUA, a maioria da região da fronteira EUA-México, divulgou uma declaração em 24 de fevereiro, horas antes do primeiro discurso sobre o Estado da União do presidente Donald Trump em seu segundo mandato, instando a várias reformas na aplicação das leis de imigração.
A reportagem é de Kate Scanlon, publicada por National Catholic Reporter, 24-02-2026.
Políticas de imigração linha-dura têm sido um elemento central da agenda do presidente, mas novas pesquisas indicam que o apoio público a essas políticas está diminuindo antes do discurso de Trump em 24 de fevereiro perante uma sessão conjunta do Congresso no Capitólio.
A declaração, assinada por 20 bispos dos EUA, incluindo dom John Wester, arcebispo de Santa Fé, Novo México; dom Gustavo Garcia-Siller, arcebispo de San Antonio; dom Mark Seitz, bispo de El Paso, Texas; e dom Michael Pham , bispo de San Diego, identificou diversas áreas específicas para reforma a fim de "ajudar a proteger os direitos humanos dos imigrantes e suas famílias".
"Nós, pastores em estados fronteiriços e em outras regiões, manifestamos nossa preocupação com o impacto das recentes e contínuas atividades de fiscalização imigratória do Departamento de Segurança Interna (DHS) contra indivíduos e famílias que não possuem status legal em nosso país", diz a declaração dos bispos. "Embora reconheçamos o direito e o dever de uma nação soberana de fazer cumprir suas leis, também acreditamos que essas leis devem ser respeitadas de maneira a proteger a dignidade e os direitos humanos concedidos por Deus."
Os bispos pediram que se garanta que famílias com status migratório misto não sejam separadas, citando os danos desnecessários causados às crianças, e que locais sensíveis, como casas de culto, escolas e hospitais, sejam protegidos de ações coercitivas.
O relatório anual dos bispos dos EUA sobre liberdade religiosa identificou recentemente como áreas de preocupação crítica as restrições impostas pelo governo Trump aos agentes do Serviço de Imigração e Alfândega (ICE) para efetuar prisões em locais de culto, escolas e hospitais, bem como a garantia de que aqueles sob custódia do ICE tenham acesso aos sacramentos.
"Consideramos isso uma questão de liberdade religiosa — um direito consagrado tanto na Constituição dos EUA quanto em tratados internacionais. Além disso, as crianças devem poder frequentar a escola sem medo e aqueles que precisam de atendimento médico urgente devem poder buscar tratamento com confiança", afirmaram.
A declaração também pediu o restabelecimento do asilo no sistema de imigração, particularmente nas fronteiras.
"Nós também nos opomos à prisão e detenção de refugiados que respeitam a lei e que foram admitidos legalmente nos EUA, conforme proposto pelo Departamento de Segurança Interna", acrescentou o comunicado dos bispos.
Eles também pediram o fim da intimidação e das táticas de medo nos esforços de aplicação da lei.
"O uso de máscaras, abordagens aleatórias sem justa causa, patrulhas itinerantes e abusos físicos contra imigrantes e outras pessoas estão bem documentados", diz o comunicado. "Essas táticas podem intimidar imigrantes, mesmo aqueles com base legal para permanecer nos EUA, e impedi-los de exercer seus direitos."
Wester afirmou em um comunicado que a nova declaração "dá substância" à " mensagem pastoral especial sobre imigração " dos bispos dos EUA, que foi aprovada por ampla maioria em sua assembleia plenária anual de outono em Baltimore, em novembro.
A carta dos bispos sublinhou a oposição da mensagem especial à "deportação em massa indiscriminada de pessoas", acrescentando que "isso é prejudicial aos direitos humanos dos nossos semelhantes e não atende aos melhores interesses da nação".
A condenação da "deportação em massa indiscriminada" encontra respaldo no magistério da Igreja, com o Concílio Vaticano II mencionando a "deportação" entre os atos específicos que denunciou como "ofensivos à dignidade humana". São João Paulo II incluiu essa lista em sua encíclica de 1993, Veritatis Splendor ("Esplendor da Verdade"), e em sua encíclica de 1995, Evangelium Vitae ("O Evangelho da Vida").
A declaração dos bispos também reiterou a posição de longa data da Conferência dos Bispos Católicos dos EUA de que "os imigrantes e suas famílias que construíram patrimônio em nosso país e que, de outra forma, respeitam a lei — a grande maioria dos indocumentados — devem ter a oportunidade de sair das sombras e conquistar sua cidadania ao longo do tempo, tornando-se membros legais plenos e contribuindo para suas comunidades e para a nação".
A declaração também fez coro com a afirmação de 20 de fevereiro do bispo Brendan Cahill, de Victoria, Texas, presidente do Comitê de Migração da Conferência dos Bispos Católicos dos Estados Unidos (USCCB), que se opôs aos planos "profundamente preocupantes" do governo Trump de adquirir enormes armazéns em todo o país, cada um com capacidade para internar milhares de pessoas.
"Instamos também nossos agentes de imigração a não deterem pessoas e grupos vulneráveis, incluindo famílias e crianças, mulheres grávidas e pessoas com deficiência", acrescentaram. "Afirmamos ainda que os detidos devem ter acesso a assistência religiosa e pastoral, incluindo a missa e os sacramentos da Igreja Católica."
A maioria das pessoas visadas pelo ICE para detenção em massa e eventual deportação deverá ser católica em 6 de cada 10 casos, de acordo com um relatório conjunto católico-evangélico de 2025 publicado pela Conferência dos Bispos Católicos dos Estados Unidos (USCCB) e pela World Relief. O relatório também constatou que quase 1 em cada 5 católicos (18%) nos EUA está vulnerável à deportação ou vive com alguém que está.
Os bispos também apelaram ao Congresso e à administração para que ajudem a mitigar as causas profundas da migração irregular, invistam em programas de reintegração para deportados e ponham fim à deportação de imigrantes para países terceiros.
"Enquanto o Congresso e o governo deliberam sobre mudanças na forma como a imigração é aplicada em todo o país, nós os instamos a considerar estas recomendações", diz o comunicado dos bispos. "Como sempre, estamos prontos para trabalhar com eles para criar um sistema de imigração que garanta a segurança pública, proteja os direitos humanos, incentive o crescimento econômico e a justiça, e preserve nossa herança como uma nação de imigrantes."
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