De Trump a Putin, o perigoso retorno dos pais déspotas

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13 Fevereiro 2026

"De Putin a Trump, de Netanyahu a Khamenei, de Erdogan a Kim Jong-un, em regiões do mundo e em contextos culturais extremamente diversos, se afirmam pais tirânicos que rejeitam a primazia da política como primazia da palavra, afirmando um poder arcaico adverso a qualquer forma de mediação simbólica", escreve Massimo Recalcati, psicanalista, em artigo publicado por La Repubblica", 12-02-2026.

Segundo ele, "sua força deriva do vazio político que ocupam: lá onde o pai simbólico foi desativado, o pai da horda se apresenta como uma solução imaginária para a angústia e a desorientação coletiva".

Eis o artigo.

Nosso tempo vive o declínio da função simbólica do pai. Os efeitos desse declínio afetam não apenas o discurso educacional e as figuras parentais cada vez mais em crise no exercício de seus papéis, mas também, de forma mais profunda, a própria natureza dos laços sociais.

A dissolução de valores consolidados da tradição não gerou uma vida coletiva mais solidária, mas sim uma desorientação disseminada que promoveu uma tendência regressiva de viés nostálgico desses mesmos valores. Trata-se de um impulso pulsional conservador que permeia não apenas o Ocidente, mas todo o planeta. Exposto a um vácuo simbólico que não consegue ocupar, o indivíduo contemporâneo é impelido pela tentação de recuperar uma versão absolutista da autoridade do pai. Em vez de tentar praticar outra forma de paternidade, diferente da patriarcal — que, pelo menos no Ocidente, estaria à beira da extinção —, o nosso tempo manifesta uma inclinação paradoxal para um nostálgico saudosismo.

Enquanto a função simbólica do pai evapora, revelando seu fatal enfraquecimento, no cenário político contemporâneas se afirmam figuras de pais que exibem abertamente sua onipotência, como para obscurecer esse inevitável enfraquecimento. O que retorna não é a figura simbólica do pai como fundamento do pacto social e lugar de transmissão da lei da palavra, que é a única lei que torna possível a convivência civil, mas uma sua caricatura obscena, ou seja, aquela representada pelo pai da horda originalmente descrito por Darwin e Freud.

Qual é a natureza mais essencial dessa versão puramente perversa do pai? Não se trata de um pai que separa o prazer da lei, atribuindo um sentido à experiência do limite e do não-tudo, mas um pai-orangotango que subjuga a própria lei ao seu desmedido prazer. É, poder-se-ia dizer, a forma contemporânea assumida pelo retorno da versão mais autoritária e patológica do patriarcado: a autoridade paterna, em vez de ser símbolo da lei da palavra, impõe-se contra tal lei. Ela gostaria libertar-se da lei dos homens, fazendo de seu próprio arbítrio a única forma possível de lei.

De Putin a Trump, de Netanyahu a Khamenei, de Erdogan a Kim Jong-un, em regiões do mundo e em contextos culturais extremamente diversos, se afirmam pais tirânicos que rejeitam a primazia da política como primazia da palavra, afirmando um poder arcaico adverso a qualquer forma de mediação simbólica. Os pais da horda não falam, comandam; não interpretam a lei, mas a moldam à sua própria pessoa; não representam o limite, mas o violam sistematicamente em nome de uma soberania que quer se impor como absoluta. Sua força não deriva da lei da palavra, mas de sua adesão às pulsões mais primitivas e pré-políticas das massas, de seu fascínio por um poder que promete proteção em troca de submissão.

A crise contemporânea da democracia é em grande parte determinada pelo retorno espectral do fantasma do pai da horda, que Darwin, retomado por Freud, colocava como matriz originária do vínculo social. Em sua narrativa, as primeiras formas de agregação humana teriam sido caracterizadas pela presença de um líder que impunha sua força a filhos e filhas, subjugados por um prazer incestuoso elevado à categoria de única versão possível da lei.

Não por acaso, na reinterpretação freudiana desse mito, o nascimento do pacto social e a constituição de uma possível comunidade surgiam apenas da morte por assassinato do pai da horda, perpetrado pelos irmãos e irmãs reunidos contra o pai-tirano. Somente se o pai orangotango for deposto, de fato, poderá existir uma lei capaz de limitar o impulso incestuoso ao domínio e ao desfrute do todo.

Em nosso tempo, porém, parece estar acontecendo justamente o oposto: o retorno do pai onipotente da horda traz consigo o risco da morte do pacto social. Trata-se de um novo autoritarismo que, no Ocidente, não é de modo algum um resíduo arcaico que resiste à hipermodernidade, mas, ao contrário, um produto obsceno da própria crise da hipermodernidade. O pai da horda surge como uma resposta regressiva à angústia gerada pela evaporação do pai simbólico. Um caso emblemático atual é o uso trumpiano das milícias do ICE para combater o fenômeno da imigração, ou a degradação debochada e espetacular de seus adversários políticos, reduzidos a figuras subumanas — como já aconteceu com Biden ou, mais recentemente, com o casal Obama.

O retorno desses pais déspotas que substituem o direito pela força, ou melhor, como acontecia na horda primitiva descrita por Darwin e Freud, que colocam sua própria força no lugar daquela do direito, em vez de restaurar a velha autoridade simbólica do pai sinalizam sua perda mais absoluta, o fracasso definitivo dessa função. Não estamos, de fato, diante de um retorno à lei simbólica da palavra, mas sim sua tendência a suspendê-la em nome da força, confundida com o único direito que importa.

Os pais da horda não fortalecem a democracia, mas a excluem por princípio (como acontece, por exemplo, no regime religioso de Khamenei ou no regime militar-policialesco de Putin) ou a corroem por dentro (como nas ações políticas de Trump ou Netanyahu). Sua força deriva do vazio político que ocupam: lá onde o pai simbólico foi desativado, o pai da horda se apresenta como uma solução imaginária para a angústia e a desorientação coletiva.