12 Fevereiro 2026
'Esta terra é de todos os povos, raças e línguas. Somos moradores de uma única Casa Comum'
O artigo é de Frei Wilson Dallagnol, frei franciscano, publicado por Brasil de Fato, 10-02-2026.
Eis o artigo.
É evidente que a questão da evangelização no Rio Grande do Sul vem marcada de nuances e narrativas controversas. Ao chegarmos à 48ª edição da Romaria da Terra no RS, nos debruçamos com esta controversa realidade. De um lado, os povos indígenas presentes na Região dos Sete Povos, com a presença dos missionários jesuítas. Do outro lado, os interesses colonialistas dos espanhóis e portugueses que vinham em busca de divisas e matéria-prima para o comércio.
Ao celebrar os 222 anos do martírio de São Sepé Tiaraju, a Comissão Pastoral da Terra (CPT-RS) iniciou as Romarias da Terra. E inicia exatamente com a questão indígena, tomando a memória de Sepé Tiaraju, como a memória do martírio dos povos indígenas. É claro e evidente, que o ponto de partida e a ótica é a partir dos povos oprimidos. Trata-se de um posicionamento eminentemente do Evangelho. Assim é o relatório na decisão tomada para realizar a Romaria da Terra: “Ultimar uma mobilização que a Assembleia decidiu fazer no dia de São Sepé Tiaraju, em São Gabriel, em homenagem a esse nosso Santo da Terra. A temática será: “Terra” e a data é a terça-feira de Carnaval, dia da morte de Sepé. O Irmão Antônio Cechin ficou encarregado de pesquisar e as lideranças de São Gabriel da possibilidade de prepararem a região” (Relatório do Encontro da CPT/RS – 15 a 18/08/78). É a necessidade de sermos fiéis à história e a mística inicial da intuição da Romaria da Terra.
A evangelização no Sul do Brasil tem uma história que remonta à chegada dos missionários jesuítas no século 17, com a fundação das missões guaranis, que são um marco histórico importante. Os 500 anos de evangelização na América Latina, comemorados em 1992, também abrangem o Sul do país. Mas, é no século 17 que os jesuítas foram responsáveis pela fundação de importantes reduções e missões entre os povos guaranis, no que é hoje o Rio Grande do Sul. Trata-se de um dos marcos históricos mais emblemáticos da região.
Em 2026, marcará os 400 anos das Missões Jesuíticas Guaranis, comemorações que se iniciarão esse ano para celebrar esse marco histórico e cultural. Para alguns historiadores mais críticos, a evangelização no Brasil é um tema controverso, com relatos de exploração e violência, além de evangelização de forma mais pacífica. A diversidade religiosa no Sul do Brasil é resultado da evangelização católica e protestante ao longo dos séculos.
A mística da Romaria da Terra está permeada de celebração religiosa que une fé e luta social pela terra, água e floresta, reinterpretando a fé cristã a partir das experiências dos camponeses e oprimidos. Ela resgata a narrativa bíblica do Êxodo, vendo o povo que caminha para uma terra prometida de liberdade e justiça, e usa a espiritualidade para motivar a ação pela reforma agrária, direitos sociais e cuidado com o meio ambiente.
Vejamos os elementos centrais desta mística:
1º) Luta e espiritualidade: A mística entrelaça a fé e a política, vendo a conquista da terra e a utopia do Reino de Deus como um mesmo processo. A terra é vista como sagrada, pertencente a Deus e ao povo.
2º) Narrativa do Êxodo: A caminhada da Romaria é interpretada como uma saída do cativeiro para uma terra prometida, e os participantes se veem como o povo que busca a libertação.
3º) Terra como dom e direito: A terra é um dom de Deus, mas é dilapidada pelos interesses colonialistas e capitalistas, sendo a Romaria uma forma de lutar pelo seu uso justo e sustentável.
4º) Caminhar e caminhar juntos: A mística do caminhar juntos simboliza a união dos romeiros em um objetivo comum, fortalecendo o sentimento de irmandade e a esperança de mudança.
5º) Memória e resistência: As romarias também resgatam a memória de lutas passadas, como as dos governos ditatoriais militares, e servem como espaço de resistência e conscientização.
6º) Cuidado com a casa comum: Recentemente, a mística tem incorporado a mensagem de “reconstruir e cuidar da casa comum”, especialmente em regiões atingidas por tragédias climáticas.
Todo romeiro/a da terra tem “partido”, tem lado. Sejamos povos de diversas etnias, indígenas originários, imigrantes, que viemos do “além-mar”, portugueses e espanhóis, inicialmente, depois das recentes imigrações, todos fazemos parte de um único Povo de Deus. E nossa história precisa ser marcada pelo “pedido de perdão” pela opressão, pela conversão contínua de nossas atitudes discriminatórias.
Somos desafiados a conviver harmoniosamente, braços dados e olhar no horizonte, em busca da utopia do Reino. Esta terra é de todos os povos, raças e línguas. Somos “moradores” de uma única Casa Comum. Todos temos direitos a “terra, teto e trabalho”. “O amor aos pobres é a garantia evangélica de uma Igreja fiel ao coração de Deus. Toda a renovação eclesial sempre teve entre as suas prioridades esta atenção preferencial pelos pobres” (Papa Leão XIV, Dilexi Te, nº 103).
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