15 Janeiro 2026
"Nos escritos franciscanos e nos testemunhos sobre ele, emerge claramente o tema da obediência total à hierarquia, à instituição eclesiástica. A obediência incondicional é uma diferença decisiva entre Francisco e Valdo. Mas não é a única", escreve Giuseppe Platone, pastor valdense, em artigo publicado por Riforma, 16-01-2026.
Eis o artigo.
É uma pergunta crucial aquela que acompanha a autora do livro recém-publicado em sua investigação minuciosa e envolvente. Eis a pergunta: por que Valdo foi condenado como herege, enquanto Francisco se tornou santo? Historicamente, as duas experiências cristãs estão separadas por cerca de trinta anos. Primeiro a de Valdo, depois a de Francisco. Aparentemente semelhantes. Na realidade, ao analisar as fontes, as duas experiências religiosas revelam-se diferentes tanto em suas motivações iniciais quanto em seus desdobramentos subsequentes. O que cativa o leitor no novo texto da historiadora Francesca Tasca é a análise cuidadosa dessa incongruente convergência. Por um lado, temos a proposta do leigo Valdo, voltada para a realização de uma ação dinâmica de matriz apostólica, e, do outro, a kenosis (termo do Novo Testamento usado por Paulo, por exemplo, em Filipenses 2,6, referindo-se a Cristo que "esvaziou-se a si mesmo, assumindo a forma de servo..."), ou seja, a abnegação de si.
Um conceito que o cristianismo antigo ligou à descrição messiânica do Servo do Senhor (Ebed Yhweh em Isaías 53,12: "...derramou a sua alma na morte, e foi contado com os transgressores"). Diferentes conceitos, portanto, se confrontam: a práxis da pregação do Evangelho, forjada no molde apostólico, e a kenosis, ou seja, o esvaziamento de si e a plena submissão à condição humana de sofrimento. Prosseguindo a investigação, se descobre como a proposta do leigo Valdo tinha um notável potencial de desestabilização da ordem estabelecida e do status quo. Acima de tudo, era extremamente arriscada aquela de infringir a rígida diferenciação medieval entre clero e laicato.
Em poucos anos, em Lyon, Valdo reuniu homens e mulheres em torno de uma pregação livre e indicou uma nova maneira de viver o Evangelho. Foi uma experiência disruptiva: pessoas comuns, leigos de ambos os sexos, sem hierarquias ou ordens, que possuíam e pregavam a Bíblia, renovando a mensagem apostólica em total pobreza. Retirar as Sagradas Escrituras do monopólio do clero significava questionar a autoridade eclesiástica. O acesso direto ao texto bíblico, traduzido para a língua vernácula, pregado por leigos, foi considerado um abuso e reprimido. Pelo menos oito anos se passaram desde a conversão de Valdo (1174) até sua expulsão da cidade pelo bispo Bellemani (1182). Alguns anos depois (1184), veio também a condenação pontifícia (Ad abolendam).
Hoje, quem quisesse buscar em Lyon a memória de Valdo, expulso de sua cidade, encontraria poucos vestígios. A damnatio memoriae contra ele surtiu um efeito impressionante. Mas a intuição apostólica que Valdo vivenciou persistiria por séculos em uma dispersão de forma clandestina pela Europa, tecendo os fios de uma rede rastreável sobretudo nas atas dos processos inquisitoriais.
Se Lyon esquece Valdo, Assis se torna cada vez mais a meta de peregrinações ao túmulo daquele que seria canonizado pelo papa como santo, apenas dois anos após sua morte. Em Assis, Francisco, como Valdo, era filho de uma família abastada. Seu pai, ligado aos mercados franceses, era comerciante de tecidos. O jovem e brilhante Francisco participou da batalha contra Perugia, foi feito prisioneiro e, uma vez livre, abandonou a vida militar para trilhar um novo caminho espiritual de natureza penitencial. Viveu sua conversão próximo de seus lugares de origem, em particular na Porciúncula: uma pequena igreja do século IV, então em ruínas, que seria restaurada pelo próprio Francisco e que se tornaria, ao longo dos anos, lugar simbólico. Ali, Francisco escolheria morrer (mas será sepultado dentro dos muros de Assis, onde será construída uma basílica, esplendidamente decorada pelos afrescos de Giotto, Cimabue, Cavallini, entre outros).
Séculos depois, em 1939, no auge do fascismo, Francisco será proclamado padroeiro da Itália, e a basílica dedicada a ele se tornará um santuário nacional.
Embora sobre Valdo as fontes históricas sejam poucas e geralmente hostis, abundam sobre Francisco: temos seus próprios escritos, e entre as hagiografias de grande importância está a Vita Prima, encomendada pelo Papa Gregório IX e escrita pelo Frei Tomás de Celano.
Nos escritos franciscanos e nos testemunhos sobre ele, emerge claramente o tema da obediência total à hierarquia, à instituição eclesiástica. A obediência incondicional é uma diferença decisiva entre Francisco e Valdo. Mas não é a única. Tasca oferece outras distinções interessantes: as mulheres, a pregação, a pobreza, a heresia.
Neste novo ano, oitavo centenário da morte de Francisco de Assis, o dia 4 de outubro volta a ser feriado nacional italiano. Por que não aproveitar a data como uma preciosa oportunidade ecumênica para melhor compreender, historicamente, a pluralidade e a diversidade das trajetórias de fé no único Cristo? Nessa possível comparação, recomendo a pesquisa de Tasca como ferramenta idônea e historiograficamente atualizada.
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