Pesquisador propõe releitura da história literária no Rio Grande do Sul. Entrevista com Luís Augusto Fischer

Foto: José Cruz/Agência Brasil

15 Janeiro 2026

Resultado de mais de uma década de trabalho, coleção organizada por Luís Augusto Fischer se baseia em marcos temporais do estado.

A entrevista é de Christina Queiroz, publicada pela Revista Pesquisa Fapesp, janeiro de 2026.

Professor de literatura brasileira na Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS), o gaúcho Luís Augusto Fischer costuma dizer que viver perto de fronteiras significa estar em estado permanente de autorreflexão. Talvez por isso, ao longo de sua trajetória acadêmica, ele sempre tenha sentido que o Rio Grande do Sul, que faz divisa com Argentina e Uruguai, carregava perguntas sobre a própria identidade. Na visão do pesquisador, o estado imagina ser distante do Brasil, mas ao mesmo tempo é profundamente marcado pela história nacional. Dessa sensação de deslocamento nasceu uma ideia: escrever uma história da literatura gaúcha que não apenas registrasse autores e datas, mas reconstruísse a lógica interna desse território cultural.

Publicada em 2025, a coleção História da literatura no Rio Grande do Sul (Editora Coragem e Editora da UFRGS) reúne seis volumes, com textos assinados por 92 autores. Uma de suas propostas é contar a história literária no estado distanciando-se de marcos temporais e culturais associados a cidades como Rio de Janeiro e São Paulo, entre eles a Semana de Arte Moderna de 1922. Além disso, o trabalho incorpora em suas análises recortes como canção popular, histórias em quadrinhos, tradução, literatura indígena, de fantasia e a vida editorial do estado. A obra vem sendo apresentada a estudantes e ao público em geral por meio de caravanas que percorrem universidades, faculdades e bibliotecas públicas de todo o estado.

Graduado, mestre e doutor em letras pela UFRGS, ele também cursou quatro anos de graduação em história e realizou estágio de pós-doutorado na Sorbonne Paris VI, na França. Em 2023, foi professor visitante na Universidade de Princeton, nos Estados Unidos. Fischer tem 67 anos e é autor de mais de 20 livros, muitos deles envolvendo crítica literária e cultura gaúcha.

Box "História da Literatura do Rio Grande do Sul", de Luís Augusto Fischer (Editora Coragem e Editora da UFRGS, 2024).

Eis a entrevista.

Por que escrever uma história da literatura no Rio Grande do Sul?

Desde o início de minha carreira lecionei literatura, que é a área à qual me dedico mais diretamente. No entanto, nunca perdi de vista o campo da história propriamente dito, especialmente os debates historiográficos. Sempre tive o desejo de escrever uma história da literatura. Parte importante de minha motivação para organizar esse trabalho vem do lugar onde vivo. O Rio Grande do Sul ocupa uma posição geográfica específica no Brasil. Durante cerca de 150 anos, fez fronteira entre o império português e o espanhol e, hoje, faz divisa com Argentina e Uruguai. Ao contrário de outras fronteiras, que se perdem na floresta ou em zonas sem circulação humana intensa, aqui, a linha divisória é viva e povoada. Gosto de recorrer a uma ideia do sociólogo alemão Georg Simmel [1858-1918] para pensar esse fenômeno. Simmel dizia que quem vive na fronteira é sempre levado a refletir sobre a própria identidade. Assim, no meu estado, somos atravessados por um impulso autorreflexivo. Considero que esse sentimento esteve no cerne do meu desejo de refletir sobre a literatura no Rio Grande do Sul.

Como surgiu a ideia de desenvolver a coleção?

É uma ideia que acalento desde a faculdade, na década de 1970. Na graduação tive aulas com o historiador Guilhermino César [1908-1993], primeiro titular da cadeira de literatura brasileira da UFRGS. Ele elaborou diferentes estudos sobre a historiografia literária no estado e falava sobre eles em suas aulas. Assim, eu dialogava diretamente com alguém que tinha escrito a história que hoje tento compreender e atualizar. Entretanto, a ideia começou a se desenhar mais claramente em 1999, quando a pesquisadora Elisa Henkin, que foi minha colega de faculdade, assumiu a direção do Instituto Estadual do Livro [IEL]. Naquela época, o IEL tinha um papel relevante no cenário cultural do estado. Henkin me procurou para pensarmos em ações para sua gestão. Nos anos 1990, vivíamos um clima de efervescência cultural que culminou, em 2001, na realização do Fórum Social Mundial em Porto Alegre, um evento de enorme vitalidade política e projeção internacional. Sugeri, então, que o IEL organizasse uma história da literatura no Rio Grande do Sul. A proposta era reunir pesquisadores que já vinham escrevendo sobre autores, períodos e movimentos literários específicos, e convidá-los a produzir sínteses de seus estudos. Porém o projeto acabou não acontecendo naquela ocasião e decidi retomar a ideia em 2006.

Por quê o senhor retomou a ideia?

Naquele ano, o historiador Tau Golin, da Universidade de Passo Fundo [UPF], e o filósofo Nelson Boeira, da Universidade Estadual do Rio Grande do Sul [Uers], coordenaram a publicação da obra História geral do Rio Grande do Sul [Editora Méritos], composta por seis volumes. Fui convidado a integrar o conselho editorial dessa coleção e a experiência reacendeu meu interesse. Pensei que era hora de tentar novamente escrever uma história literária do estado. A ideia foi amadurecendo ano após ano até a produção começar de forma efetiva em 2014, quase uma década depois. Convidei colegas de cada um dos programas de pós-graduação em literatura no Rio Grande do Sul para escrever os capítulos. Temos aqui uma rede universitária sólida, com forte presença no interior do estado. Ao todo, 92 pessoas assinam os textos que compõem a obra, incluindo pesquisadores da geração anterior à minha, colegas da minha geração e pesquisadores mais jovens, recém-formados ou em processo de formação acadêmica. Essa diversidade geracional foi fundamental para compor um panorama amplo e plural da história da literatura no estado.

Quais temas norteiam a coleção?

Temos uma conexão forte com a literatura produzida em Montevidéu, no Uruguai, e Buenos Aires, na Argentina. O primeiro volume da coleção se inicia em 1860, quando começa a se consolidar uma produção literária mais estruturada no estado. O segundo aborda o modernismo no estado, a partir de 1910, enquanto o terceiro abarca a geração de escritores como Érico Verissimo [1905-1975], Mario Quintana [1906-1994] e Dyonélio Machado [1895-1985], que tiveram seu auge durante período de intensa atividade da Editora Globo, em Porto Alegre, nas décadas de 1930 e 1940. O quarto volume inclui a produção elaborada durante a ditadura militar [1964-1985] e o quinto número envolve autores contemporâneos. Por fim, o sexto volume reúne temas que atravessam diferentes períodos históricos. Entre eles, a história de instituições ligadas à vida literária, como academias de letras, associações de escritores e feiras do livro, que constituem um fenômeno importante no estado há mais de 70 anos. Há, também, ensaios dedicados à produção memorialista e à literatura de grupos étnicos específicos: indígenas, teuto-descendentes, afrodescendentes e judeus.

Poderia falar sobre as novidades temáticas e metodológicas da coleção?

Uma novidade que considero particularmente significativa é a inclusão da tradução como parte da história da literatura do estado. Há um capítulo inteiro dedicado a tradutores que atuaram no Rio Grande do Sul. Temos uma tradição contínua de tradução de obras do dramaturgo inglês William Shakespeare [1564-1616] desde o começo do século XX, com diferentes gerações de estudiosos dedicados a verter seus escritos para o português. Também desenvolvemos um capítulo com um levantamento de autores gaúchos traduzidos para distintos idiomas, como Érico Verissimo e Dyonélio Machado. Incluímos, ainda, temas que costumam ser marginalizados na historiografia literária tradicional, como a canção popular. No livro, contamos a história desse gênero no estado a partir da geração do compositor Lupicínio Rodrigues [1914-1974], dos anos 1930. Também temos capítulos dedicados à literatura de fantasia e infantojuvenil e à produção em quadrinhos. O objetivo foi dar estatuto literário a essas formas de expressão, reconhecendo sua importância na configuração do campo cultural gaúcho.

Houve um esforço para incorporar a produção literária de cidades menores?

Sim. Outro ponto de destaque da nossa obra é justamente descentralizar a narrativa. Em estudos historiográficos anteriores existe uma tendência de concentrar as análises na capital, Porto Alegre. Para superar isso, incluímos no segundo volume uma seção dedicada à vida literária em cidades do interior. Não se trata apenas de reconhecer autores que nasceram em outras localidades, mas de mapear municípios que desenvolveram uma vida literária efetiva, com jornais dedicados à literatura, academia de letras, grupos organizados de escritores e poetas em atividade. Selecionamos 14 cidades e encomendamos pequenas monografias sobre cada uma delas. Entre elas estão Pelotas, Santa Maria, Bagé, Passo Fundo, Santa Cruz do Sul e São Leopoldo.

Quais autores contemporâneos são analisados no trabalho?

O estado sempre contou com um número expressivo de escritores que publicam majoritariamente aqui, cujas obras são lidas, debatidas e valorizadas localmente, mesmo sem grande projeção nacional. Muitos desses autores apresentam um nível literário elevado. Esse circuito interno não só mantém uma vitalidade própria como, muitas vezes, acaba lançando nomes que ultrapassam as fronteiras do estado. Em parte, isso se deve à história e à cultura local, que criaram condições para o surgimento constante de novas vozes a cada geração. Hoje, por exemplo, vemos emergir com força autores negros no estado, como José Falero, Jeferson Tenório e Eliane Marques, que publicaram inicialmente em editoras e revistas locais, mas que com o passar dos anos ganharam projeção nacional.

Como a pesquisa acadêmica colabora com o movimento literário no estado?

Além de nomes como Lya Luft [1938­‑2021] e Caio Fernando Abreu [1948­‑1996], que são amplamente estudados, há uma atenção acadêmica dedicada a autores menos conhecidos. Muitas vezes, são figuras cuja obra não circula fora do estado, mas que despertam interesse pelo valor estético ou histórico que carregam. Muitos pesquisadores expressam uma preocupação com a manutenção da memória literária local. Um desses objetos de estudo é o Grupo Quixote, coletivo de vanguarda literária surgido no estado após a Segunda Guerra Mundial (1939-1945). O grupo, que inspirou diferentes dissertações e teses, não ganhou projeção nacional, mas teve integrantes como o sociólogo Raymundo Faoro [1925-2003], que se tornou um nome importante das ciências sociais no Brasil.

O imaginário gauchesco sempre esteve presente nas obras de autores do estado?

Existe no Rio Grande do Sul uma dimensão forte de bairrismo, que se manifesta, entre outras formas, na valorização da literatura de temática gauchesca. Trata-se de uma produção extensa e consolidada, centrada no universo das estâncias, do gado e dos cavalos. Esse imaginário rural compõe um dos pilares da identidade cultural do estado. Mas essa tradição não se limita ao território brasileiro. Ela é compartilhada com regiões da Argentina e do Uruguai, compondo uma paisagem cultural comum que ultrapassa as fronteiras nacionais. Por isso, incluímos na coletânea um capítulo com resultados de pesquisas dedicadas à chamada literatura gauchesca, abordando suas manifestações tanto no Rio Grande do Sul quanto na região do rio da Prata.

A Semana de Arte Moderna de 1922 foi importante para esse cenário?

A notícia da Semana de Arte Moderna chegou cedo ao Rio Grande do Sul e foi bem recebida por escritores e críticos locais. Desde 1925, Mário de Andrade [1893-1945] manteve correspondência intensa com Augusto Meyer [1902-1970], intelectual gaúcho que foi poeta e depois se destacou como ensaísta e tradutor. Essa troca de cartas entre os dois revela o interesse de Andrade por entender o que acontecia no estado gaúcho. O diálogo é revelador de uma dinâmica de reconhecimento mútuo, mas também de diferenças. Meyer nunca tomou Andrade como o único modelo possível de autor moderno. Ao contrário, suas referências de modernidade eram outras, entre elas alguns autores vinculados ao modernismo do Rio Grande do Sul, como Ernani Fornari [1899-1964].

Quais as peculiaridades do modernismo gaúcho?

Enquanto o modernismo paulista se construiu em oposição ao parnasianismo, o modernismo no Rio Grande do Sul surgiu como um herdeiro direto do simbolismo, propondo inovações, mas sem menosprezar o passado. Há autores gaúchos interessantes cujas trajetórias expressam bem essa confluência de tradições. Fornari é um deles, na medida em que seu primeiro livro, Missal da ternura e da humildade [Livraria do Globo, 1923], apresenta forte inclinação simbolista, enquanto as obras seguintes, como Trem da serra [1928], têm aspectos claramente modernos, adotando uma linguagem cotidiana e menos solene. O Rio Grande do Sul não teve muitos escritores alinhados com a estética do modernismo paulistano de 1922, que buscava romper com características literárias de movimentos anteriores. Talvez esse seja um dos motivos de terem alcançado pouca repercussão em nível nacional. Em contrapartida, tivemos uma produção intensa nos anos 1930 e 1940 no campo do romance realista, incluindo Érico Verissimo e Dyonélio Machado, que hoje são considerados centrais à história da literatura brasileira, da mesma forma que Mário de Andrade e Oswald de Andrade [1890-1954].

Por que a história da literatura no Brasil tende a se organizar a partir do eixo Rio-São Paulo?

Por diferentes motivos. Alguns deles envolvem o fato de o Rio ter sido capital do país por quase dois séculos, enquanto a cidade de São Paulo passou a ser considerada o centro irradiador de tendências modernistas após 1922. Esses acontecimentos acabam estabelecendo parâmetros redutores para pensar a literatura no Brasil como um todo. Em São Paulo, por exemplo, a chancela modernista opera como uma espécie de selo de legitimidade: só é reconhecido como relevante quem se enquadra em modelos estéticos preconizados por autores que fizeram parte do movimento. Entre as características valorizadas nesse sentido estão poemas escritos com versos livres, a busca pela identidade nacional nas narrativas, a aposta em experimentação estética e na linguagem coloquial. Minha crítica a esse modelo é antiga. Sempre defendi a importância de prestar atenção às dinâmicas locais, sem impor critérios externos. Por exemplo, se eu fosse buscar uma manifestação parnasiana no Rio Grande do Sul semelhante à que ocorreu no Rio de Janeiro, não encontraria. O parnasianismo praticamente não existiu no estado gaúcho. Em compensação, o simbolismo teve aqui uma presença muito forte, que se estendeu até os anos 1920. Ou seja, os tempos literários são outros, e é justamente por isso que precisamos olhar com atenção para os processos locais. Mas o conteúdo que produzimos na nossa coleção não pode ser pensado como enciclopédico ou como uma história única. Uma história literária precisa ser, antes de tudo, uma narrativa com conflitos, tensões, escolhas e silêncios.

Por que o senhor questiona o regionalismo?

Essa é uma das categorias mais problemáticas da história literária brasileira. O que significa, afinal, regionalismo? Toda produção cultural, inclusive a do centro, é de uma região. O carimbo de regionalista, que foi dado a produções de regiões como o Sul e o Nordeste do Brasil, empobrece a recepção da obra e restringe sua validade. A história da literatura no Rio Grande do Sul mostra que os ritmos e as prioridades foram diferentes daquelas identificadas em São Paulo e no Rio de Janeiro. Por isso, trabalhamos com marcos temporais próprios.

Quais são eles?

Um desses marcos temporais é 1868, quando foi fundada a Sociedade Partenon Literário, em Porto Alegre, que, na ocasião, tinha pouco mais de 20 mil habitantes. Criada por um grupo de escritores, a associação foi o centro da vida literária do estado durante cerca de 20 anos, editando uma revista que desempenhou papel fundamental à circulação de ideias. Outro marco decisivo envolve a fundação da Livraria do Globo em 1883. Originalmente, o estabelecimento imprimia documentos comerciais, como contratos e notas fiscais. Porém, no final dos anos 1920, passou também a publicar livros, motivado pela emergência de jovens escritores, que buscavam um local para imprimir seus textos. Foi nesse contexto que surgiram nomes como Érico Verissimo e Dyonélio Machado. A Livraria do Globo manteve uma atuação editorial vigorosa até o início dos 1970, tornando-se um verdadeiro polo de produção cultural no estado.

A história da literatura perdeu centralidade nos estudos acadêmicos?

Sim. Um dos motivos, certamente, é o impacto da globalização nos anos 1990. Para muitos colegas, parecia que a ideia de nação havia se tornado obsoleta. Tudo passou a ser visto sob a ótica do comparatismo, do trânsito internacional e da circulação irrestrita. Mas isso é uma ilusão. No Brasil, continuamos a viver em um sistema de ensino quase inteiramente estruturado em língua portuguesa. A literatura que se lê nas escolas é, majoritariamente, brasileira. Isso, por si só, justifica a necessidade de se estudar a história da literatura no país. Outro fator decisivo é a tecnologia. O acesso irrestrito a conteúdos globais faz com que a dimensão nacional pareça dispensável. Somos expostos a tudo, o tempo inteiro, e isso nos dá a impressão de que pertencemos a uma espécie de presente contínuo, sem fronteiras. No entanto, pertencemos, antes de tudo, a um tempo histórico específico e a um território concreto. Além disso, no campo dos estudos literários se instalou o que considero uma perversidade: a superespecialização precoce. Vejo isso com muita preocupação. O estudante, muitas vezes ainda no primeiro ou segundo semestre da graduação, sem base formativa suficiente, já é absorvido por uma linha de pesquisa. E segue por esse caminho durante toda a sua formação. Assim, ele sai da universidade como um especialista, mas sem uma visão ampla da literatura. Costumo brincar com meus alunos que teremos de instituir uma formação no curso de letras similar à do clínico geral na medicina. Dessa forma, os estudantes poderão se formar com uma perspectiva temporal extensa da literatura e uma compreensão abrangente de gêneros e tradições.

A revista "Um caleidoscópio chamado Rio Grande do Sul" está disponível aqui.

Leia mais