14 Janeiro 2026
Foi criada sob os auspícios da Igreja Católica e tornou-se um dos maiores desafios ao regime. Hoje, uma exposição fotográfica no Museu da Memória e dos Direitos Humanos comemora seu trabalho fundamental.
A reportagem é de Pedro Schwarze, publicada por El País, 13-01-2026.
Para o ditador, a estratégia se voltou contra ele de forma espetacular. O Vicariato da Solidariedade, instituição fundamental na defesa dos direitos humanos durante o regime militar (1973-1990), surgiu depois que Augusto Pinochet forçou o fechamento do Comitê Pró-Paz, que atuava desde o golpe de Estado de 11 de setembro de 1973, por iniciativa das igrejas cristãs e da comunidade judaica. Foi então que o Cardeal Raúl Silva Henríquez, Arcebispo de Santiago na época, decidiu criar um vicariato, baseado no direito canônico, como parte da estrutura da Igreja, que funcionaria no palácio arquiepiscopal, ao lado da catedral metropolitana. Em outras palavras, nenhuma ordem do regime poderia forçar sua dissolução.
Isso aconteceu há 50 anos, em 1º de janeiro de 1976. A partir de então, o Vicariato da Solidariedade acompanhou e abrigou refugiados políticos e familiares daqueles assassinados, detidos e desaparecidos pelas forças repressivas. Tornou-se uma máquina humana para apresentar recursos judiciais, ajudar as famílias das vítimas a sobreviver e compilar o mais completo testemunho das violações de direitos humanos cometidas durante a ditadura.
Embora o Vicariato tenha evidenciado as feridas da repressão e apontado o regime como responsável, Pinochet não exerceu pressão suficiente para impedir ou minar seu trabalho. Ele só fechou suas portas após 16 anos de funcionamento, em 1992, quando o Chile dava seus primeiros passos rumo à democracia.
O Museu da Memória e dos Direitos Humanos comemora este marco com uma exposição fotográfica que destaca o trabalho do Vicariato da Solidariedade. “É uma exposição informativa, não artística, para explicar o que foi o Vicariato da Solidariedade e quais foram seus momentos mais significativos”, disse a diretora-executiva do museu, María Fernanda García, ao EL PAÍS.
Não é por acaso que alguns dos arquivos do Vicariato “são parte fundamental, parte da própria base” do museu, que também celebrou seu 16º aniversário, afirma García. Uma das imagens expostas, talvez a mais emblemática, mostra trabalhadores do Vicariato protestando na rua em frente à catedral com uma faixa. A foto data de 1986 e apresenta alguns dos funcionários mais antigos do Vicariato, incluindo Norma Muñoz, Lucía Valenzuela, Luis Toro, Héctor Salazar, Humberto Lagos, Leticia Olivares e Roberto Garretón.
O Vicariato funcionava no segundo e terceiro andares da residência do arcebispo. O acesso era feito por uma porta estreita, de frente para a Plaza de Armas, em Santiago, no número 444. O edifício data de 1851, portanto, possui cômodos espaçosos e tetos altos, mas estes se tornaram apertados para acomodar os mais de cem funcionários que empregava, além dos perseguidos e familiares das vítimas que ali buscavam atendimento. Advogados, assistentes sociais, secretários, sociólogos e figuras religiosas trabalhavam ali. Departamentos jurídicos, trabalhistas e camponeses foram criados. Milhares de habeas corpus foram redigidos ali em nome de detidos, muitos dos quais foram rejeitados por um sistema judiciário conivente.
Nesse local, foram organizados refeitórios para crianças, um serviço de colocação profissional para desempregados e oficinas de subsistência. Serviu também como ponto de encontro para organizações como a Associação de Familiares de Executados Políticos e a Associação de Familiares de Detidos e Desaparecidos.
O trabalho meticuloso dos profissionais que ali atuavam permitiu o registro e a documentação abrangentes das prisões de milhares de pessoas por motivos políticos. Contribuiu inclusive para determinar as estruturas e os métodos de operação do aparato repressivo da ditadura, primeiro a Direção Nacional de Inteligência (DINA) e depois o Centro Nacional de Informação (CNI). No terceiro andar do palácio arquiepiscopal, em um espaço de 70 metros quadrados, os arquivos do vicariato se acumulavam em gavetas de metal. E quando perceberam a importância desses registros, decidiram microfilmá-los.
Foi na casa paroquial que um homem chegou em novembro de 1978 para descrever o que havia encontrado perto da cidade de Lonquén, a 50 km de Santiago. O vigário Cristián Precht e o secretário executivo da casa paroquial, Javier Luis Egaña, foram até alguns fornos de cal abandonados. Lá, encontraram restos mortais. Mais tarde, descobriu-se que pertenciam a 15 pessoas, membros de três famílias, que haviam sido detidas por membros dos Carabineros (polícia militar) da cidade de Isla de Maipo entre 6 e 7 de outubro de 1973. Essa descoberta, juntamente com o subsequente sepultamento da maioria das vítimas em uma vala comum ordenada pelo sistema de justiça militar, causou tamanho impacto e escândalo que marcou um ponto de virada na luta pelos direitos humanos contra a ditadura e a primeira evidência de que os detidos desaparecidos poderiam ter sido assassinados e seus corpos ocultados.
Contudo, o Vicariato não ficou imune às ações da ditadura. Um dos golpes mais duros ocorreu em 1985. Na sexta-feira, 29 de março, em frente ao Colégio Latino-Americano, no bairro de Providencia, em Santiago, Manuel Guerrero, professor da escola, e José Manuel Parada, diretor da Unidade de Arquivo e Processamento do Vicariato da Solidariedade, foram sequestrados. Parada, sociólogo e ativista comunista, havia trabalhado para o Comitê Pró-Paz e, posteriormente, para o Vicariato desde a sua fundação. Os corpos de Guerrero, Parada e Santiago Nattino — sequestrados na quinta-feira, dia 28 — foram encontrados no bairro de Quilicura, na zona norte da capital chilena, ao meio-dia de 30 de março. Eles haviam sido decapitados. O caso chocou o país, e a investigação judicial forçou a renúncia de um dos membros da Junta Militar e chefe dos Carabineiros, o General César Mendoza, devido ao envolvimento da polícia no crime.
Embora o trabalho do Vicariato da Solidariedade tenha sido oficialmente encerrado em 1992, seu arquivo foi fundamental durante os anos de transição para a democracia e na busca pela verdade e justiça. Foi essencial na elaboração do Relatório da Verdade e Reconciliação, conhecido como Relatório Rettig, divulgado em março de 1991, que estabeleceu a primeira contagem das vítimas mortas e desaparecidas durante os 17 anos da ditadura. Por mais de três décadas, e até os dias atuais, as informações reunidas pelo Vicariato são constantemente solicitadas por juízes que abrem ou reabrem processos de direitos humanos relacionados ao regime de Pinochet.
Mas os registros compilados pelo Vicariato não são úteis apenas para processos judiciais, mas também fazem parte da memória histórica de um país. “Eles são solicitados pelas próprias vítimas, seja porque precisam comprovar sua situação para acessar as reparações concedidas pelo Estado (...) e também para a recuperação da memória” daqueles que sofreram prisão, perseguição e tortura, explicou María Paz Vergara, secretária-executiva da Fundação de Documentação e Arquivo do Vicariato de Solidariedade, que salvaguarda esse patrimônio, no podcast Marcos da História. “Houve casos em que as pessoas foram ao arquivo porque seu psiquiatra recomendou que consultassem a documentação e confrontassem o que lhes aconteceu, como um processo de cura. Há pessoas que não sabiam o que aconteceu com seus pais, ou pais que querem seus documentos para mostrá-los a seus filhos e netos”, enfatizou.
Para Javier Luis Egaña, primeiro secretário executivo do Vicariato da Solidariedade, o legado da instituição é fundamental para evitar que as violações dos direitos humanos do passado se repitam. “A importância do Vicariato reside na defesa de milhares de compatriotas e de muitos irmãos e irmãs de outros países durante os anos mais difíceis da ditadura. E o homem que foi vital para isso foi Raúl Silva Henríquez, Cardeal, Arcebispo de Santiago. Mas é muito importante preservar esses arquivos, porque eles são a memória que ajudará a garantir que eventos como os que ocorreram em 1973 jamais se repitam”, disse Egaña ao EL PAÍS. “Preservamos toda a documentação para que as pessoas possam consultá-la, porque tempos difíceis estão se aproximando”, afirmou.
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