13 Janeiro 2026
Homens brutais, bárbaros, praticamente analfabetos, iludidos com a ideia de conquistar países como se o mundo fosse um jogo de Risk.
O artigo é de Melba Escobar, publicada por El País, 13-06-2026.
Melba Escobar é uma escritora e jornalista colombiana que, entre outros livros, escreveu uma obra de não ficção sobre a Venezuela intitulada "Éramos felizes e não sabíamos disso".
Eis o artigo.
Hoje quero recomendar o livro que tem o mesmo título desta coluna. E só recomendo livros que realmente me comovem. Mas, se me comoveu neste caso, foi porque Giuliano Da Empoli traduz a nossa era em palavras. Ele captura um instantâneo do atual panorama político, cultural e emocional e o apresenta para nós. Ele faz isso descrevendo os ternos usados pelos homens mais poderosos do mundo quando compareceram à Assembleia Geral da ONU no ano passado. E digo homens porque são homens. Nayib Bukele, Donald Trump, Nicolás Maduro, Vladimir Putin, Xi Jinping, Mohammed bin Salman, Javier Milei. Todos homens. Todos predadores.
Um fervor bélico se espalha como fogo em palha seca. Como se a exceção, a violência autoritária e a quebra das regras do jogo estivessem se tornando a norma. Porque não se trata mais apenas de regimes isolados. Agora há uma urgência, um zelo conquistador, vingativo e destrutivo. Vladimir Putin ocupou a Crimeia em 2014, quebrando assim o tabu que proibia um país de recorrer à força para alterar suas fronteiras, afirma Da Empoli. A invasão da Ucrânia em 2022 ratificou essa mensagem. E com ela, a guerra voltou a estar na moda. Agora, aqueles que a invocam ganham eleições. Homens brutais, bárbaros e praticamente analfabetos deliram com a conquista de países como se o mundo fosse um jogo de Risk, e se lançam na caça por mais um território em busca de petróleo, água, oxigênio, seja lá o que for que desejem possuir, e só querem provar que podem fazê-lo pela força bruta.
Nos últimos cinco anos, os gastos públicos com armamentos aumentaram 34% em todo o mundo. Atacar custa cada vez menos do que se defender. O Irã está mais perto do que nunca de uma bomba nuclear. A Rússia faz ameaças veladas com uma em sua agressão contra a Ucrânia. A inteligência artificial pode ser usada para criar armas biológicas, químicas, radiológicas e nucleares. Enquanto isso, figuras atuais como Nayib Bukele se autodenominam "o ditador mais tranquilo do mundo inteiro", e muitos o chamam de "o milagre de Bukele" por ter reduzido todos os indicadores de criminalidade em El Salvador. Mas a que custo? Às custas de quem? Violando os direitos humanos de quantas pessoas? Essas perguntas parecem ter perdido a relevância. Parecem não importar mais. Só os resultados importam, não os processos. Devemos avançar a toda velocidade em um mundo predatório, para não dizer canibalístico, onde a lógica dos autocratas parece ser aniquilar antes de ser aniquilado. Como se estivéssemos em um filme de ficção científica. Mas não estamos assistindo a Jogos Vorazes. Não estamos assistindo Avatar, onde os predadores são humanos exterminando outras espécies; somos nós no ano de 2026, em tempo real, e isso está acontecendo.
No mundo em que vivemos, a emergência parece implacável. E então chegam os vilões com seus trajes extravagantes, como o de Bukele na Assembleia Geral da ONU há dois anos, meio Guerra nas Estrelas, meio Simón Bolívar. O super-herói dos nossos tempos, de manto roxo, surge prometendo nos salvar quando mais precisamos. Eles vêm para nos salvar do crime, da imigração, do deslocamento forçado, do status de refugiado, do desemprego, da ruína, da fome, dos fiadores, das hipotecas, da inflação, do custo de vida. Chegam armados com promessas, mísseis e bombas para cumpri-las. É como se o Aladdin da nossa infância tivesse aparecido agora com uma metralhadora e um sorriso terno para garantir que, se deixarmos tudo em suas mãos, a história terá um final feliz.
A condição que esse novo ídolo satânico nos impõe é a de não questionar, apenas nos render completamente à sua vontade. E então surge Donald Trump, invadindo a Venezuela para depor Nicolás Maduro, sem se importar com o fato de que, ao fazer isso, está quebrando todas as regras do jogo, colocando em risco a democracia e violando os direitos humanos. E agora? A China atacará Taiwan? Israel terminará de destruir a Palestina? A Rússia anexará a Ucrânia? Todos aqueles filmes que assistimos na cama em uma noite de domingo, aqueles que nos fazem temer o pior, são a realidade que está acontecendo lá fora. Mas é como se não percebêssemos. A verdade é que o futuro mais temido está acontecendo lá fora; já começou.
Leia mais
- A Doutrina Donroe e o sequestro de Maduro: a exceção como método de governo no “Hemisfério Ocidental”. Entrevista especial com Armando Alvares Garcia Junior
- EUA: Nova Estratégia de Segurança Nacional é a maior ruptura ao Direito Internacional desde 1945. Entrevista especial com Armando Alvares Garcia Junior
- Venezuela: "Somos despojos de guerra e um aviso para o mundo". Entrevista com Alejandra Díaz
- Impedindo o estupro do Direito. Artigo de Tonio Dell’Olio
- Eleições na América Latina em 2026 estão na mira das intervenções de Trump
- No capitalismo mafioso Nicolás Maduro veste Nike. Artigo de Ivana Bentes
- Os precedentes para a operação de Trump na Venezuela. Artigo de Timothy Snyder
- Delcy Rodríguez: “O tráfico de drogas e os direitos humanos foram a desculpa; o verdadeiro motivo era o petróleo”
- Washington anuncia que já está vendendo petróleo venezuelano, e Caracas fala em um acordo comercial
- Os grandes vencedores do golpe na Venezuela. Artigo de Daniel Kersffeld
- Venezuela. O Papa: "Que prevaleça o interesse do povo". Mas crescem as dúvidas no Vaticano sobre o ataque
- A queda de Maduro tensiona as relações entre Ortega e Murillo na Nicarágua
- Trump teria “baixado o polegar” para Corina Machado por vaidade: não gostou que ela aceitasse o Prêmio Nobel da Paz
- A Venezuela está prenunciando a nova ordem mundial que Trump quer impor
- “O mundo está em processo de autodestruição”. Entrevista com Manuel Castells
- "É terrível. Trump está sancionando o retorno à lei da selva". Entrevista com Francis Fukuyama
- Trump usa a agressão contra a Venezuela para ameaçar os governos das Américas que não se submetem aos EUA
- Governo dos EUA afirma ‘este é nosso hemisfério’ e reforça posição contra Maduro
- Compreender a intervenção dos Estados Unidos na Venezuela. Artigo de Gabriel Zucman
- Trump, o pirata do Caribe
- Operação dos EUA na Venezuela, Força Delta em ação: Maduro e sua esposa flagrados dormindo em seu quarto. Artigo de Gianluca Di Feo
- O "golpe" de Trump na Venezuela. Artigo de José Luis Ferrando
- Ação dos EUA na Venezuela pressiona diplomacia do Brasil
- "Gallo Pinto", o ex-espião de Chávez que incriminou Maduro
- Forças Especiais dos EUA desempoeiram o drone "Besta de Kandahar" em incursão na Venezuela
- E se a Venezuela for apenas o começo? Artigo de Francisco Peregil
- Uma transição estranha na Venezuela. Artigo de Sergio Ramírez
- Um Muro de Berlim para a esquerda latino-americana? Artigo de Pablo Stefanoni
- O maldito chefe. Artigo de Martín Caparrós
- Sinal verde para empresas americanas: Musk é o primeiro
- As grandes petrolíferas dos EUA, diante de um negócio bilionário na Venezuela patrocinado por Trump
- Não se trata apenas de petróleo: desdolarização e China, após o golpe de Trump na Venezuela. Artigo de Yago Álvarez Barba
- O Papa pede que se respeite “a soberania da Venezuela” e que se “supere a violência”
- Terrorismo imperialista. Artigo de Frei Betto
- A Celac não chega a um consenso sobre a Venezuela
- O imperador está nu. Artigo de Jorge Majfud
- Trump, Gramsci e os outros. Artigo de Gustavo Veiga
- Após o sequestro de Maduro, Trump toma medidas para confiscar o petróleo venezuelano
- Os EUA inauguram uma nova era de intervenções na América Latina
- "Doutrina Donroe" de Trump retoma foco dos EUA nas Américas
- Os Estados Unidos bombardearam mais um barco no Pacífico, e as tensões com a Venezuela estão aumentando
- EUA elaboraram três cenários para a queda de Maduro, e nenhum deles terminou bem para a Venezuela