11 Fevereiro 2026
Juan José Tamayo argumenta que, se o cristianismo quiser retornar às raízes de seu fundador, deve recuperar seu caráter libertador como um movimento anti-imperialista e igualitário para homens e mulheres.
A reportagem é de Juan G. Bedoya, publicada por El País, 09-01-2026.
Sobre os teólogos da libertação, o lendário Pedro Casaldáliga disse que eles são “soldados derrotados de um exército invencível”. Juan José Tamayo (Amusco, Palência, 1946) é um deles, e agora apresenta seu 90º livro, 60 dos quais escreveu sozinho e o restante como coordenador e autor principal.
Intitulado Cristianismo Radical, o livro é publicado pela editora Trotta e já está em sua terceira edição. As propostas do autor são formidáveis, considerando um cristianismo, especialmente o catolicismo romano, abalado por escândalos de abuso e desacreditado pela ganância de sua hierarquia. Tamayo argumenta que, se essa religião quiser retornar às raízes de seu fundador, deve recuperar seu caráter libertador como um movimento anti-imperialista e igualitário para homens e mulheres; deve se libertar do sequestro a que está sendo submetida pela aliança entre a extrema-direita e os movimentos cristãos fundamentalistas; É preciso resgatar a ética radical de Jesus de Nazaré, "sequestrada muito cedo pelos oficiais de Deus e pelos mercadores do templo", e optar pelas comunidades empobrecidas.
Livro de Juan José Tamayo. (Foto: Reprodução/Trotta)
Certamente estamos lidando com um livro radical. É necessário esclarecer o significado dessa palavra, tão desacreditada por ser confundida com extremismo, fundamentalismo, fanatismo e até violência. Em uma sociedade dócil, o radical (ir à raiz das coisas) incomoda as pessoas. Mas não. Tamayo insiste que o cristianismo ou é radical ou não é cristianismo, e que aqueles que o salvaram de suas inúmeras crises não foram os papas, o Vaticano (conhecido como Santa Sé) ou os reis cristãos, mas sim o radicalismo de fiéis como Francisco de Assis, Teresa de Ávila, Simone Weil, o bispo Romero e uma longa lista de outros.
O papado romano procurou subjugar e silenciar Tamayo, apesar de suas publicações com editoras seculares e de seu status de professor emérito em uma universidade pública. Esse esforço já vinha ocorrendo há algum tempo. Seu primeiro livro, Por uma Igreja do Povo, publicado em 1976, foi apreendido pelo sinistro Tribunal de Ordem Pública (TOP), que permaneceu ativo mesmo após a morte do ditador Franco (embora não o nacional-católico que persistiu).
Em 2003, a Congregação para a Doutrina da Fé, então chefiada por Joseph Ratzinger, mais tarde Papa Bento XVI, decretou que Tamayo estava excluído da “comunhão eclesial” (um eufemismo para excomunhão) por suas teses sobre Jesus de Nazaré no livro Deus e Jesus, o sexto volume da série Rumo à Comunidade, também publicado pela Trotta. Seu novo livro é uma continuação de tudo isso.
O cristianismo oficial sempre foi alvo de críticas pela figura de Jesus de Nazaré, desde que o imperador Constantino o cooptou descaradamente no mal denominado Concílio de Niceia. Agora, passaram-se 1.700 anos. Milhares de teólogos foram excomungados desde então por escritos sobre o fundador nazareno.
Suas reservas são compreensíveis, não tanto porque os inquisidores acreditam que pensadores como Tamayo sejam uma versão moderna do arianismo, apresentando Jesus como um mero defensor revolucionário, libertador e misericordioso das mulheres, mas sim por suas críticas aos ricos que acumulam bens e ostentam poder e luxo sem vergonha, compaixão ou misericórdia para com os necessitados.
"É mais fácil um camelo passar pelo fundo de uma agulha do que um rico entrar no reino de Deus", disse Jesus durante um de seus eventos de campanha (Mateus 19,24), pouco antes de ser preso e crucificado pelos romanos. Devastador.
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