Igreja Católica da República Popular Congo denuncia depredação dos minérios do país pelos EUA

Foto: Yuyang Liu/Unsplash

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08 Janeiro 2026

Um acordo que dá livre acesso dos Estados Unidos da América a minérios raros e de valor estratégico da República Popular do Congo (RPC), recentemente assinado entre o governo deste país e o de Washington, tornou-se num motivo de crescente tensão com a Igreja Católica do país.

A reportagem é de Manuel Pinto, publicada por 7 Margens, 06-01-2026.

O acordo foi assinado em 4 de dezembro último, na sequência de um processo que a Igreja considera ter sido pouco transparente, quando, do seu ponto de vista, pode estar em causa um “problema de soberania nacional”, com os interesses congoleses a ficarem subordinados a interesses estadunidenses.

Em causa está a abertura do acesso a recursos minerais da RPC, tais como lítio, cobalto, cobre e ouro, matérias que são cruciais para a indústria ocidental. O acordo prevê a criação de zonas de projetos estratégicos e uma “reserva estratégica de ativos”, estando também no horizonte a reativação da linha ferroviária que atravessa Angola, para escoamento dos minerais por via marítima.

O presidente da Conferência Episcopal, dom Fulgence Muteba Mugalu, de Lubumbashi, lançou um alerta, dizendo ao sítio Gaudium Press que, sob a aparência de uma parceria, o acordo equivale a “hipotecar o futuro da nação”, já que uma cláusula de exploração produziria efeitos por 99 anos. Para o arcebispo, em vez de “amizade”, este acordo exprime “um novo colonialismo, no qual os Estados Unidos colhem os frutos da exploração, enquanto o Congo sacrifica a soberania e a justiça intergeracional”.

Mugalu recordou o que disse o Papa Francisco, na viagem pastoral que fez ao país, quando, referindo-se ao capitalismo global, denunciou uma “lógica de predação”.

As entidades do governo congolês contrapõem que o acordo de parceria assinado constitui uma “fonte vital de investimento, segurança, cooperação e desenvolvimento”, de que a economia do país carece. O ministro da Comunicação, Patrick Muyaya, rejeitou, também no Gaudium Press, as acusações dos bispos como “inverdades factuais”, insistindo que “o acordo não prevê transferência de propriedade de minas, venda de recursos ou violação da soberania. Ele afirmou que o acordo apenas estabelece princípios para uma cooperação transparente, deixando o Estado congolês “livre para rejeitar qualquer projeto contrário ao interesse nacional”.

Contudo, essa não é, de todo, a visão do diretor do Instituto Denis Hurley para a Paz da Conferência Episcopal Sul-Africana, o padre Johan Viljoen, citado pelo jornal Crux. Ele concorda a cem por cento com os bispos, considerando que o governo congolês, ao assinar esse acordo, está efetivamente a “hipotecar o futuro do país”.

“Isso é exatamente o que os americanos fizeram em todos os outros países onde estiveram presentes, seja no Iraque ou em qualquer outro lugar”, disse Johan Viljoen.

“Eles vão trazer as suas grandes empresas, vão obter concessões, vão explorar todos os minerais críticos, vão exportá-los para a América, e vão repatriar os ganhos, os lucros também para a América”.

O padre citou o caso de Moçambique, dizendo que as empresas mineiras daquele país pagaram menos de um quarto do imposto que deveriam pagar em 2024.

“Se a experiência em Moçambique servir de indicação”, disse Viljoen ao Crux, a única coisa que o governo congolês beneficiará com as empresas americanas que exploram esses minerais serão os impostos que elas pagam, mas nem sequer esse requisito mínimo elas respeitam”.

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