Adélia Prado e a poesia que chacoalha. Artigo de Adriano Versiani

Foto: Nazar Hrabovyi/Unsplash

Mais Lidos

  • Jesuíta da comunidade da Terra Santa testemunha o significado da celebração da Paixão, Morte e Ressurreição de Cristo em uma região que se tornou símbolo contemporâneo da barbárie e do esquecimento humano

    “Toda guerra militar é uma guerra contra Deus”. Entrevista especial com David Neuhaus

    LER MAIS
  • Sábado Santo: um frio sepulcro nos interpela. Comentário de Adroaldo Palaoro

    LER MAIS
  • A ressurreição no meio da uma Sexta-feira Santa prolongada. Artigo de Leonardo Boff

    LER MAIS

Assine a Newsletter

Receba as notícias e atualizações do Instituto Humanitas Unisinos – IHU em primeira mão. Junte-se a nós!

Conheça nossa Política de Privacidade.

Revista ihu on-line

Natal. A poesia mística do Menino Deus no Brasil profundo

Edição: 558

Leia mais

O veneno automático e infinito do ódio e suas atualizações no século XXI

Edição: 557

Leia mais

Um caleidoscópio chamado Rio Grande do Sul

Edição: 556

Leia mais

27 Setembro 2025

"Ler sua obra é sempre encontrar, em cada poema, uma totalidade que não cabe na linguagem, mas que ainda assim nos habita", escreve Adriano Versiani, advogado e mestrando em história e conexões atlânticas pela Universidade Federal do Maranhão – UFMA.

Eis o artigo.

Fui atingido pela flecha flamejante disparada pela nova obra de Adélia Prado, O Jardim das Oliveiras, lançada em 2025 pela Editora Record.

De delicadeza ímpar, marca constante da poesia de Adélia, a obra me penetrou, tocou, seduziu e incomodou, a ponto de suscitar reações físicas.

Em O Jardim das Oliveiras, houve, para mim, um anúncio: a linguagem não alcança plenamente o real da subjetividade humana. Há momentos, como no poema timbre em que se declara que a alma é maior que a linguagem e há sensações que só a alma sabe. É o caso também da magnífica poesia intitulada o auxílio do anjo.

Nesse poema, há uma articulação entre o cotidiano e a dimensão espiritual. Na cena, ela tenta meditar em oração e é acometida pelo latido de um cachorro e, em razão do evento, passa a ter reflexões que levam à desconcentração. Aproxima-se, então, o anjo que intervém “Insista. Não precisa sofrer entre cão e cachorro e entre latir e ladrar”.

Após o latido, o eu lírico é assaltado por pensamentos gramaticais recorrentes, como: “o cão late ou ladra?” É nesse momento, propriamente no absurdo da linguagem, que o anjo atua, conclamando ao nada, ao lugar espiritual em que a linguagem não adentra. O que mais me aturdiu foi perceber que, embora haja esse lugar para além da linguagem, a poesia reafirma que vivemos dela: não há vida sem verbo, e negá-lo seria negar o próprio Deus. A relação é maravilhosamente dúbia e profunda, pois humana também.

Outro ponto que me encanta de modo geral na poesia de Adélia e que encontrou nova força nesta última obra, é a relação dialética entre o eu lírico e a mística. A relação, passando pelo cotidiano, é um dos pontos que, para mim, são mais belos na poesia de Adélia, porém não é fácil, tampouco aparece sem dubiedade. A aridez espiritual e a dificuldade de lidar com o numinoso também perpassam por sua poesia, embelezando-a ainda mais.

Livro "O Jardim das Oliveiras", de Adélia Prado (Editora Record, 2025).

É o caso de sua Oração a São João da Cruz, em que o eu lírico inicia com um bloqueio espiritual --- “como se me habitasse o espírito surdo-mudo” ---, passa por uma fase de luta --- “como um peixe, debato-me”--- e faz outros sofrerem e, justamente por isso, invoca a ajuda de quem mergulhou “no túnel de frio e medo da noite escura mais densa”.

Em outro poema, intitulado O aspirante e suas dificuldades, ela cita Teresa de Ávila e João da Cruz. Na belíssima poesia, ela afirma a inevitabilidade do sofrimento e o fato de que os dois místicos gozavam até mesmo nas “agruras do jejum”, ao contrário do eu lírico que “pede comida”.

É o reconhecimento de nossa fraqueza, diferentemente de João da Cruz que sente Deus até mesmo na dor. Fraqueza que nos faz debater como peixes e diante disso há uma solução que pode nos ajudar: pedir ajuda a São João da Cruz mediante exercício da oração, confessando nossas desgraças.

É uma ode à natureza humana. Como são bonitas as cenas propostas por Adélia, como elas nos habitam e fertilizam por dentro. Somos esses sujeitos falhos, questionadores, cujo sofrimento nos constitui, mas sempre teremos onde recorrer em termos espirituais. A mística é aqui a flor mais bela das poesias, que estão colocadas na ausência. Adélia não nos diz isso, só demonstra por meio do cotidiano, porém, as poesias, em sua totalidade, nos fazem vislumbrar a beleza do transcendente.

Em Aniversário de Falecimento, uma vez mais o eu lírico postula a ajuda de Deus diante do silêncio que ressoa do ente querido falecido. Vale a pena a citação:

(...) As camadas de terra acomodando-se

faziam um barulho surdo

que até agora ressoa.

Quem suporta comigo essa lembrança?

Ó Deus, consolai-me de sua ausência.


O silêncio faz barulho na alma. Ele incomoda, agita, bagunça por dentro e quem consola é o numinoso, quando ele mesmo não está ausente. A última frase pede consololação a Deus pela ausência do ente, mas também pode ser entendida como a ausência de Deus. Às vezes, só o silêncio nos habita.

Por fim, Variações Sobre Uma Dor foi, para mim, um dos mais arrebatadores poemas dessa nova obra. Tocou-me profundamente.

Em O Jardim das Oliveiras, há convites: ao silêncio, ao reconhecimento das dores, ao diálogo com o invisível e à partilha da condição humana. Ler sua obra é sempre encontrar, em cada poema, uma totalidade que não cabe na linguagem, mas que ainda assim nos habita.

Leia mais