30 Agosto 2025
"Francisco afirmou que, assim como Jesus ia ao encontro das pessoas que viviam à margem, nas periferias existenciais, é isso que a Igreja deve fazer hoje com as pessoas da comunidade LGBTIA+, muitas vezes marginalizadas dentro da própria Igreja: fazê-las sentir-se em casa, especialmente as que são batizadas, pois são parte do povo de Deus", escreve Luís Corrêa Lima, padre jesuíta, professor da PUC-Rio e autor do livro Teologia e os LGBT+: perspectivas históricas e desafios contemporâneos (Vozes), em artigo publicado por Contém Amor, 28-08-2025.
Eis o artigo.
A Igreja Católica viveu um processo de notável renovação com o pontificado de Francisco (2013-2025), especialmente em relação aos LGBT+. Convém recordar alguns de seus pontos principais. Desde o início, repercutiu fortemente sua declaração: “Se uma pessoa é gay, busca o Senhor e tem boa vontade, quem sou eu para julgar?” Ele teve diversos encontros com pessoas gays e trans, alguns até incluindo seus respectivos companheiros e companheiras, sempre com palavras de acolhida, apoio e encorajamento.
Em 2022, o papa respondeu a um questionário que trazia a seguinte pergunta: “Qual é a coisa mais importante que as pessoas LGBT precisam saber sobre Deus?” Sua resposta foi: “Deus é Pai e não renega nenhum de seus filhos. E o estilo de Deus é proximidade, misericórdia e ternura. Ao longo deste caminho, vocês encontrarão Deus.” No mesmo ano, Francisco recebeu no Vaticano seis mulheres transgênero.
Uma delas, Alessia Nobile, presenteou o papa com um livro sobre sua própria vida e transição de gênero, intitulado A Menina Invisível. O papa o aceitou e disse: “Ótimo, você fez muito bem em escrever sua história!” Depois, recomendou a Alessia que fosse sempre ela mesma e não se deixasse envolver pelo preconceito contra a Igreja.
Numa entrevista autobiográfica, Francisco afirmou que, assim como Jesus ia ao encontro das pessoas que viviam à margem, nas periferias existenciais, é isso que a Igreja deve fazer hoje com as pessoas da comunidade LGBTIA+, muitas vezes marginalizadas dentro da própria Igreja: fazê-las sentir-se em casa, especialmente as que são batizadas, pois são parte do povo de Deus. O papa autorizou a bênção conjunta de pessoas em uniões do mesmo sexo, aos que “vivem o dom do amor”, conforme sua própria expressão. Ele também autorizou o batismo dos filhos desses casais e de pessoas transexuais.
Com relação à doutrina, Francisco deu passos em direção à mudança, reinterpretando textos bíblicos até então utilizados para condenar a prática da homossexualidade. No entanto, nem tudo são flores ou abertura na Igreja Católica. Há resistências à bênção em muitos lugares. Persistem discursos LGBTfóbicos tóxicos e até orações de cura e libertação, voltadas a tentar mudar a orientação sexual ou a identidade de gênero, tentativas sutis de “cura gay”. Vale dizer que, entre cristãos evangélicos, é comum a mesma hostilidade, chegando até a exorcismos.
A sucessão do papa Francisco trouxe inquietações e temores. Como Leão XIV tratará os LGBT? O que se sabe até agora é que seu estilo é discreto e conciliador. Ele afirmou que seguirá as grandes linhas de seu antecessor e que a bênção a casais do mesmo sexo não será revogada. Parece que não haverá retrocesso. Sobre possíveis avanços, não é fácil prever.
Nesse cenário, cabe aos cristãos LGBT+ buscarem ambientes seguros. Na Igreja Católica existe a Rede Nacional de Grupos Católicos LGBT (@redecatolicoslgbt). São pessoas que se reúnem para partilhar suas histórias de vida, apoiar-se mutuamente e conciliar sua fé com a própria orientação sexual e identidade de gênero. Formam grupos que fazem grande diferença na vida de seus membros e de suas famílias. No Brasil, são dezenas de grupos; em outros países, há instituições similares.
Uma das iniciativas públicas da Rede é a peregrinação ao Santuário Nacional de Aparecida. No ano passado, ocorreram duas, nas quais os participantes foram bem recebidos e puderam tomar parte da missa. Neste ano, haverá uma peregrinação mundial a Roma para o Jubileu 2025. Nos dias 5 e 6 de setembro, estão programados três eventos destinados a cristãos LGBT: uma vigília na Igreja do Gesù, dos jesuítas; uma missa no mesmo local; e uma procissão até a Porta Santa da Basílica de São Pedro. Os eventos já estavam programados pelo Vaticano desde o ano passado, e o novo papa nada alterou.
Assim, delineia-se uma nova face da Igreja. Guardando no coração as palavras do papa Francisco, podemos ajudar pessoas LGBT+ a se sentirem como filhas amadas de Deus, experimentando o jugo leve e o fardo suave oferecidos por Jesus.
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