14 Julho 2025
Há mil maneiras de sobreviver ao fim, de seguir em frente apesar de tudo, de ainda imaginar um amanhã. Para Rashid Masharawi, diretor, roteirista e produtor nascido em Gaza, no campo de refugiados de Shati, em 1962, o cinema é a chave para a resistência, porque "é uma linguagem capaz de preservar nossos sonhos e nossas memórias, um objetivo que, para nós, palestinos, é crucial: podemos reinventar a nossa pátria também por meio da linguagem cinematográfica".
A entrevista é de Fulvia Caprara, publicada por La Stampa, 12-07-2025. A tradução é de Luisa Rabolini.
Premiado em festivais ao redor do mundo (a última vez foi há poucos dias no Festival de Cinema de Ischia, onde, mesmo não podendo comparecer, recebeu o Prêmio pelo Conjunto da Obra), Masharawi é o criador de "From Ground Zero", o projeto que reúne 22 curtas-metragens feitos por cineastas de Gaza, dedicados à realidade em que despencaram após o ataque de 07-10-2023.
Eis a entrevista.
Como se consegue realizar um filme em Gaza hoje?
É muito difícil. Eu diria que é impossível. A crença predominante é que, neste momento, a última coisa que alguém em Gaza precisa é de um filme. Há outras prioridades, sendo a primeira salvar a vida. A maioria dos cineastas envolvidos no projeto perdeu parentes e suas casas. Vocês podem imaginar a atmosfera, o estado de espírito deles e, também, as dificuldades práticas.
Israele Hamas, le news. Raid su sito di distribuzione acqua: 6 bimbi morti. ldf: “Malfunzionamento” https://t.co/vCQAhkXO84
— Repubblica (@repubblica) July 13, 2025
Por exemplo?
Não podemos contar com o equipamento necessário, não temos pessoas que saibam utilizá-lo, precisamos de internet e eletricidade, mas muitas vezes não temos nenhuma das duas. Estamos assustados, muitas vezes perdemos contato uns com os outros, depois nos reunimos, nos certificamos de que todos estão vivos e recomeçamos. Vários dos meus assistentes em Gaza estão arriscando suas vidas.
Por que é importante, apesar de tudo, fazer um filme e continuar sendo cineasta?
Neste momento, é particularmente importante. Ser cineasta significa muitas coisas. Depois de 40 anos de cinema, continuo tentando fazer o mundo entender que nós, palestinos, somos seres humanos, não números. Homens, mulheres, crianças. Que somos como vocês. Temos sonhos, olhos. Que às vezes somos até engraçados. E que gostamos da vida. O cinema serve para defender a nossa identidade, para compartilhar a nossa história com o mundo, para falar, para explicar.
Muitos países europeus, muitas categorias de pessoas estão demonstrando seu apoio aos civis de Gaza, ao povo palestino. Isso serve para alguma coisa?
O apoio da comunidade europeia é muito útil e significativo, eu o aprecio, gostaria de poder agradecer a essas pessoas uma a uma, abraçá-las. Nessa fase, os palestinos se sentem sozinhos; mais de 600 dias se passaram e eles ainda não podem receber a ajuda de que precisam. O apoio, os artigos nos jornais, as manifestações públicas fazem os palestinos compreender que não estão se movendo em total solidão, que alguém deseja que eles tenham uma vida melhor. Não estou falando de governo, estou falando de pessoas; todos nós fazemos parte deste mundo, somos todos seres humanos, mas alguns não concordam nem com isso.
Freedom Flotilla, la nave Handala parte da Siracusa diretta a Gaza - la Repubblica https://t.co/sMQLhS0O6z
— IHU (@_ihu) July 13, 2025
Em suas histórias, quase sempre há um toque de esperança. O senhor ainda a tem?
Claro, os filmes que estamos fazendo agora em Gaza, em meio à guerra, representam o desejo de mostrar a esperança. Às vezes, se a esperança não existe, é preciso inventá-la, colocá-la em uma história cinematográfica e mostrá-la às pessoas. Trabalhamos para isso, pelo amanhã, pela vida, pelo amor, por nossas famílias.
Qual é a sua relação com o cinema italiano?
Eu adoro, sempre tive uma relação muito forte com o país. Trinta anos atrás, quando filmei ‘Haifa’ e o apresentei no Festival de Cinema de Cannes, os críticos do mundo todo escreveram que a influência do cinema italiano era bem forte. Para mim, ‘Cinema Paradiso’ foi fundamental. Também experimentei o cinema itinerante; viajei por dez anos organizando exibições de filmes em escolas, campos de refugiados e vilarejos. Meu filme ‘Ticket to Jerusalem’ foi realizado com o apoio do Istituto Luce, e já vim muitas vezes apresentar filmes na Itália.
Qual é o seu maior desejo?
Neste momento, só penso em Gaza, 24 horas por dia. Quero que a morte acabe, que comida e remédios cheguem às pessoas. Toda a minha família e amigos estão lá, conversamos várias vezes ao dia. Sempre quis uma vida melhor para os palestinos. Agora, uma vida já seria suficiente.
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