Nem majoritariamente católico, nem majoritariamente evangélico. Artigo de Gutierres Fernandes Siqueira

Culto evangélico | Reprodução: PIBMANAUS/YouTube

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09 Junho 2025

"O dado central é que o Brasil já não caminha rumo a uma “nação evangélica”, como preveem alguns analistas entusiastas. O que emerge é outra coisa: uma cristandade sem hegemonia. Um mapa de crenças em que o catolicismo segue influente, o evangelicalismo se consolida como força dinâmica e os grupos minoritários ganham visibilidade. Um cenário semelhante ao dos Estados Unidos, mas com a peculiaridade tropical de nossa própria história e sociabilidade", escreve Gutierres Fernandes Siqueira, jornalista e teólogo, autor dos livros “Quem tem medo dos evangélicos?” e “Igreja Polarizada”, ambos pela Editora Mundo Cristão.

Eis o artigo.

O Censo Demográfico de 2022, divulgado pelo IBGE, confirma uma transformação profunda e irreversível na paisagem religiosa brasileira. O Brasil, que já foi o maior país católico do mundo, deixou para trás a era da hegemonia confessional para entrar num tempo de pluralismo religioso consolidado. Não se trata apenas da ascensão evangélica ou do crescimento dos “sem religião”, mas da inauguração de uma nova configuração: múltiplas formas de crer, nenhuma dominante.

Os números falam por si. A proporção de católicos caiu de 65,1% da população, em 2010, para 56,7% em 2022. Enquanto isso, os evangélicos avançaram de 21,6% para 26,9%. Embora o ritmo de crescimento tenha desacelerado levemente — 5,3 pontos percentuais na década passada, ante 6,5 na anterior —, a expansão segue vigorosa. O fenômeno evangélico continua sendo o movimento religioso mais consistente das últimas décadas, impulsionado por forte presença territorial, alta mobilização missionária e redes comunitárias enraizadas, sobretudo entre os mais pobres, adolescentes e jovens. Se essa tendência for mantida, a paridade numérica entre católicos e evangélicos deve ocorrer apenas na segunda metade da década de 2040.

Outro dado relevante é o crescimento dos que se declaram “sem religião”, que passaram de 7,9% para 9,3%. Mas este grupo não é uniforme. Inclui ateus e agnósticos, mas também muitos que mantêm algum tipo de crença, rejeitando apenas as instituições religiosas formais. É a fé fora das estruturas, típica de sociedades onde o indivíduo se torna o gestor da própria espiritualidade. Trata-se de um movimento que ecoa fenômenos já observados em países europeus e nos Estados Unidos.

As religiões de matriz africana também apresentaram crescimento expressivo. Umbanda e candomblé passaram de 0,3% para 1% da população — um salto numérico relevante, que reflete, entre outras coisas, um resgate identitário da herança afro-brasileira. Mas, como ensina a estatística, grandes oscilações em grupos pequenos — tanto para mais quanto para menos — são normais.

O dado central, no entanto, é que o Brasil já não caminha rumo a uma “nação evangélica”, como preveem alguns analistas entusiastas. O que emerge é outra coisa: uma cristandade sem hegemonia. Um mapa de crenças em que o catolicismo segue influente, o evangelicalismo se consolida como força dinâmica e os grupos minoritários ganham visibilidade. Um cenário semelhante ao dos Estados Unidos, mas com a peculiaridade tropical de nossa própria história e sociabilidade.

Não estamos diante apenas de uma mudança estatística, mas da formação de um novo pacto espiritual brasileiro. A fé se torna mais plural, mais exposta no debate público e, ao mesmo tempo, mais íntima e individualizada. Esse novo tempo exige maturidade institucional, responsabilidade política e um compromisso firme com a liberdade religiosa — não como concessão estatal, mas como expressão de uma sociedade civil robusta e democrática.

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