Viver os lugares como sinais do habitar humano e divino. Artigo de Enzo Bianchi

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01 Novembro 2025

"Falar de lugares significa falar de realidades conhecidas e familiares que vemos todos os dias, mas 'muitas vezes nossos olhos são incapazes de contemplar e perceber a ocorrência silenciosa do extraordinário dentro dos limites e espaços do ordinário' ", escreve o monge italiano Enzo Bianchi, fundador da Comunidade de Bose, em artigo publicado em La Repubblica, 03-05-2025. A tradução é de Luisa Rabolini.

Eis o artigo.

“Aquele que ninguém tomou em seus braços nunca habitou”. Essa frase do escritor francês Michel Serres é o melhor resumo da importante contribuição que os dois ensaios de Emanuele Borsotti dão ao sentido do habitar, do viver os lugares e os espaços: Segni dei luoghi. Vivere lo spazio, abitare il senso [Sinais dos lugares. Viver o espaço, habitar o sentido], Vita&Pensiero, e Abitare. Vivere i luoghi per essere sé stessi [Habitar. Viver os lugares para ser si mesmos], Queriniana. É muito raro que um autor publique dois livros sobre o mesmo assunto com poucos meses de diferença, pois o risco de repetição é alto. Emanuele Borsotti não corre esse risco, e consegue compor um esplêndido díptico sobre o tema: o homem é também os lugares que habita. De fato, como escreveu Jean-Bertrand Pontalis, “são necessários muitos lugares dentro de nós mesmos para termos alguma esperança de sermos nós mesmos”.

Emanuele Borsotti, nascido em 1978, especialista em liturgia, atento ao diálogo entre espiritualidade e disciplinas humanas, colabora com a cátedra “Pensamento e formas do espiritual” no Pontifício Ateneu S. Anselmo de Roma. Na época Prior, em 2007, eu o acolhi na Comunidade de Bose e, impressionado com sua inteligência e sensibilidade, logo o enviei a Paris para os estudar. Homem de vasta cultura, amante dos livros e do prazer da leitura, ele tem uma paixão especial pela poesia e pela literatura.

Suas obras são o reflexo fiel não apenas de seus interesses e paixões, mas também de sua personalidade, caráter e espírito. Com um estilo de escrita refinado e culto, seus textos são um entrelaçamento hábil de teologia e literatura. Os conteúdos transitam com extrema facilidade entre Bíblia, poesia, filosofia, patrística, liturgia, teologia, psicanálise e obras artísticas. O resultado são reflexões originais e profundas que oferecem sugestões para pensar, em um estilo que evoca o de um autor francês de que gosto muito, François Cassingena-Trévedy.

Nosso tempo parece oscilar entre localismos em várias escalas e a sintomatologia dos não-lugares.

Presa entre esses extremos que exaltam um defeito e lutam por um excesso, a condição humana tem os traços de uma desorientação às vezes trágica, às vezes leve. Será que esses extremos declaram, como disse Heidegger em 1951, uma crise do habitar? Habitar não é simplesmente ter uma residência, embora essa importância não deva ser subestimada, mas é a maneira certa de estar no mundo do humano, que a palavra crise interroga e coloca em tensão. Se “o habitar é a maneira pela qual os mortais estão na terra” (Heidegger), então essa modalidade deve ser pensada e assumida em um entrelaçamento cultural preciso e em um contexto social. Quais são os caminhos para escutar o desejo humano e responder à exigência, ao mesmo tempo efetiva e afetiva, de um lugar para habitar? Como garantir que habitar signifique, no estilo heideggeriano, “cuidar”?

Em Segni dei luoghi, Emanuele Borsotti tenta responder a essas perguntas não de uma forma imaterial, mas acompanhando o leitor pelos lugares comuns da existência, movido pela convicção de que viver o espaço vital permite habitar o sentido. O espaço não é uma abstração e muito menos uma utopia, mas, como diria Fernando Pessoa, “o espaço é alguém para mim”.

Borsotti articula sua reflexão sobre os lugares a partir da noção de “sinal”, observando imediatamente que “o homem vive dentro de diferentes espaços e habita uma pluralidade de lugares que não constituem um mero cenário, como o pano de fundo de um palco diante do qual se encenaria o cotidiano do ser e do agir: o espaço que nos rodeia, que nos hospeda e no qual estamos imersos como em nosso elemento natural, é em si mesmo um sinal, sinaliza e tem em si um eloquente alcance sígnico”.

Falar de lugares significa falar de realidades conhecidas e familiares que vemos todos os dias, mas “muitas vezes nossos olhos são incapazes de contemplar e perceber a ocorrência silenciosa do extraordinário dentro dos limites e espaços do ordinário”.

E então Borsotti identifica, entre as várias possibilidades, seis lugares principais. O primeiro só pode ser o jardim, onde, para a Bíblia, acontece o No princípio do mundo. A estrada, um lembrete de que a vida é uma jornada em uma rede de vias possíveis. Os muros e as paredes, sinais de delimitação e fronteira, as áreas que “cercam e isolam, abraçam e repelem, protegem e banem, incluem e excluem, distinguindo entre interno e externo, entre meu e teu, entre nós e eles, entre semelhantes e diferentes, entre familiares e estranhos, entre habitantes e estrangeiros”. Os muros, lugar tão dramaticamente atual. E depois a cidade dos mortos, lugar de memórias sepultadas entre proximidade e remoção. O limiar, que narra o quanto o ser humano é um ser entreaberto, que ao ficar diante de uma porta e bater está, na verdade, “no limiar da revelação”. E, finalmente, as casas e as coisas, e aqui a palavra só pode ser deixada a Emmanuel Lévinas: “A casa é o nosso canto do mundo, é o nosso primeiro universo”. No segundo livro, Abitare, Emanuele Borsotti continua seu itinerário de reflexão sobre os lugares como sinais, detendo-se na abertura sobre o ícone bíblico de Jacó em Betel, uma história que revela a intuição judaica altamente evocativa de que Deus é o lugar por excelência. Jacó sonha com uma escada que sobre ao céu e com anjos subindo e descendo por ela. Quando acorda do sono, Jacó descobre que Deus habita aquele lugar “e eu não sabia”, e assim o lugar se impõe por sua singularidade, trabalha na intimidade, desperta-o para a autoconsciência, da noite para o amanhecer, da ignorância de si mesmo e do mundo para um conhecimento progressivo. Para Borsotti, Jacó mostra que “viver um lugar em profundidade implica que algo desse lugar já habita em nós e que algo de nós já pertence àquele lugar; entre o homem e o lugar cria-se assim um vínculo de habitação mútua, de convivência, de copertença entre a vida íntima do sujeito e o já dado espaço físico”.

O livro prossegue explorando a vastidão do questionamento do qual o ser humano é, ao mesmo tempo, artífice e guardião: onde habita Deus? E aqui estão intensas páginas dedicadas ao que o autor chama de “topografia do totalmente Outro”, um reflexo da inquietação do homem “na busca perene por um sinal tangível, uma concretização material no espaço daquela graça que se gostaria de poder esperar, experimentar, viver e habitar”. O ensaio conclui com uma reflexão inspirada no habitar a vida, um habitar flexionado no roçar a paisagem e ancorar-se nos lugares. Habitar amando, mas também amar escolhendo não habitar, de acordo com o paradoxo expresso por Michel Serres: “Habitar não amar: todos habitam, mas o amor não habita. Daí sua perigosa raridade”. E depois o habitar poeticamente de Friedrich Hölderlin - “cheio de mérito, mas poeticamente habita o homem nesta terra” -, Emily Dickinson, Christian Bobin e, por fim, Rainer Maria Rilke: “Estamos aqui para dizer: casa...”. Com esses dois livros, Emanuele Borsotti se apresenta aos leitores que poderão encontrar nele um escritor promissor, que tem a estatura e a capacidade de se afirmar como um autor capaz de forjar uma espiritualidade profunda e robusta, que tem a Bíblia como fundamento, a grande tradição cristã como construção sólida e a literatura e a poesia como seu precioso friso.

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