25 Março 2025
"Os ditadores estendem as mãos (antes talvez de um acerto de contas final) sobre as cabeças daqueles que são humilhados e agredidos. A situação é semelhante àquela antes da última guerra mundial", escreve Bernard Berthier, em artigo publicado por baptises.fr, 17-03-2025. A tradução é de Luisa Rabolini.
Eis o artigo.
O ônibus gratuito que transporta os excursionistas com raquetes de neve e as crianças com seus trenós está cheio de gente. Algumas senhoras esportivas que subiram em uma parada na metade do percurso ainda estão de pé. Uma delas, convidada por outra que havia subido antes (e que podemos chamar de Juliette), não quis sentar-se em um assento que ainda estava livre porque estava de costas à direção da viagem. Juliette imediatamente ocupou aquele assento, para que a primeira senhora pudesse se sentar no assento que ela havia deixado livre. Naquele momento, seu rosto estava alinhado com o meu olhar. Como vocês devem ter adivinhado, Juliette é uma mulher atenciosa e expansiva: conversa com a recém-chegada e com uma amiga que estava ao seu lado e agora está de frente para ela. Um sorriso divino?
Não sei o que ela está dizendo. Não a ouço e não tento entender. Só vejo seu sorriso, que ilumina seus olhos, mas que também se irradia para a boca, para a testa, para as bochechas, para o queixo: ela é toda sorriso, e esse sorriso é só bondade, e esse sorriso dura até a chegada!
E, de repente, digo a mim mesmo que estou diante da prova da existência de Deus. Todo mundo sabe e continua repetindo, provavelmente com razão, que o mundo vai mal. Mas nesse mundo que vai mal, há lampejos de absoluta bondade, generosidade e alegria, que são um sinal e dão sentido à vida. Juliette tinha feito uma boa caminhada? Ela tinha acabado de desfrutar de uma boa refeição? Ela estava se sentindo em boa forma física? É possível, mas tudo indicava que seu sorriso vinha de uma fonte mais profunda, de um otimismo subjacente, da alegria de estar no mundo e de estar em relação.
O que resta quando tudo parece dar errado
A eleição de Donald Trump e seus primeiros meses no governo acabaram definitivamente com minhas ilusões de um mundo em que o respeito pelos outros, a preocupação com os fracos e a reprovação das mentiras ainda tinham alguma eficácia. Os ditadores estendem as mãos (antes talvez de um acerto de contas final) sobre as cabeças daqueles que são humilhados e agredidos. A situação é semelhante àquela antes da última guerra mundial.... Diante de tudo isso, o leve otimismo não é nada mais do que um cataplasma em um membro de madeira. É claro que digo a mim mesmo que ainda devemos procurar lampejos de esperança na noite que se espalha e agir com razão e coragem, lutando mais e mais pelo nosso lema: Liberté, Égalité, Fraternité. E fazer isso o mais próximo possível de mim, de minha vida cotidiana, porque cada um de nós não pode fazer nada para curar a loucura do mundo e evitar o cataclismo, se não demonstrar com suas ações boas e justas dia após dia, seu discernimento, seu empenho comunitário bem escolhido e sua cédula eleitoral quando chegar a hora, que nós, homens e mulheres de boa vontade, não estamos de acordo, que estamos nos levantando contra a perversão dos valores. Isso já é alguma coisa.
O que é a Esperança, aquela com o E maiúsculo?
Toda esperança é frágil, momentânea e, às vezes, contraditória (a esperança do vendedor de ganhar mais contrasta com a esperança do comprador de pagar menos, assim como a esperança do fazendeiro de ver a chuva contrasta com a do turista que só sonha com o bom tempo). Mas, assim como Abraão, de quem São Paulo escreve (Romanos 4,18) que “esperou contra toda Esperança”, o cristão, mesmo que seja pessimista em relação ao futuro do mundo, ainda tem Esperança. Não como uma ilusão, não como um bilhete premiado que lhe dá o direito de fechar os olhos e não fazer nada, mas como uma espinha dorsal que o mantém em posição ereta e lhe permite olhar para o céu quando alguém quer dobrá-lo sob o peso de seu fardo ou com o desejo de humilhá-lo. A Esperança se manifesta plenamente quando tudo vai mal, assim como minha fé vale mais quando está no meio dos inimigos a serem amados.
Falar de Deus – falar dele buscando-o, tentando ouvi-lo, seguindo os passos de Jesus – é dizer não aos não valores do mundo, é negar a vontade de poder dos ditadores (da moda, das ideias, do poder). Isso não é religião, não é piedade, é uma possibilidade de liberdade.
E continuar a sorrir do fundo de próprio ser é uma forma positiva e doce de expressar indignação, de se opor às zombarias e de imbuir o mundo de Amor.
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