20 Março 2025
“Masafer Yatta existe por uma razão: as pessoas que se agarram à vida a mantêm viva”. Quando Basel Adra profere essas palavras, surgem imagens de uma menina correndo pela terra pedregosa. Um jovem prepara brasas para assar a carne.
A reportagem é de Lucia Capuzzi, publicada por Avvenire, 18-03-2025. A tradução é de Luisa Rabolini.
Uma mulher idosa arruma a casa semidemolida. Em seguida, ela se inclina sobre seu filho, paralisado por um tiro das forças de segurança, para ajudá-lo a mudar de posição. Cenas da vida cotidiana dos “resistentes” de Masafar Yatta, um fragmento da Cisjordânia que se agarra às colinas ao sul de Hebron. Um punhado de mil homens e mulheres vive lá, espalhados por 19 vilarejos, a maioria construídos no final do século XIX. Sua existência está em constante risco de despejo devido a uma decisão israelense que, desde 2019, transformou a área em “zona militar”. Uma parte do território, ou seja, proibida para civis. A ordem de demolição 1455 evidentemente não inclui os colonos e seus assentamentos que estão se multiplicando por toda parte. Enquanto, uma casa de cada vez, as escavadeiras do exército devastam esse remanescente da Palestina, seus habitantes se agarram a ele com uma determinação ainda maior.
Armados apenas de câmeras, alguns ativistas denunciam a expulsão, síntese e metáfora de todas as injustiças da ocupação, mantida por Tel Aviv desde 1967. Entre eles está Basel Adra, 29 anos, protagonista e diretor de No other land, que acaba de receber um Oscar. A ele se junta seu colega israelense Yuval Abrahams, 29 anos, codiretor do documentário com Hamdan Ballal e Rachel Szor e repórter dos corajosos jornais +972 e Local call. O próprio Abrahams falará sobre eles no Festival Internacional de Jornalismo de Perugia, juntamente com a diretora Ghouson Bishararat, os colegas Oren Ziv e Meron Report, moderados pela jornalista do Repubblica Francesca Caferri, além de apresentar o vídeo.
A evolução do relacionamento entre os dois jovens é o eixo central da história: ambos precisam superar barreiras internas mais inexpugnáveis do que aquelas de concreto e ferro que cercam a Cisjordânia para passar da desconfiança explícita a uma parceria forte, embora perpetuamente tensa. Basel e Yuval compartilham idade, profissão, estudos universitários, empenho social e até mesmo sonhos. No entanto, um abismo os separa. “Você pode ir para onde quiser. Eu não posso”, resume Basel.
“Este último é um “homem verde” – narra o vídeo - como as placas dos carros palestinos, forçado a circular apenas em estradas ad hoc, obstruídas por postos de controle claustrofóbicos e controles de segurança. Yuval é um “homem amarelo”, a placa que dá liberdade de movimento aos carros israelenses. Isso explica a diferença de atitude em relação ao sistema de abusos perpetrados em Masafer Yatta. “Não se pode resolver a ocupação em dez dias. Para resistir é preciso tempo. É preciso se acostumar a fracassar”, fala Basel, nascido e criado em al-Tuwani. Fundamental para a sua experiência é a presença ininterrupta de vinte e oito anos da Operação Colomba, um corpo de paz civil da Comunidade João XXIII. “Em al-Tuwani, a violência é tamanha que até as crianças precisam ser escoltadas. Basel era um dos pequeninos que acompanhávamos. Seu testemunho é a prova concreta de que existe uma alternativa à violência e à guerra”, escrevem da Operação Colomba. ”A esperança de paz deve ser cultivada com cuidado e constância”.
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