16 Janeiro 2025
O polêmico trabalho, liderado pelo filósofo Julian Savulescu, especula sobre a possibilidade de editar vários genes para reduzir o risco de doenças hereditárias, o que provocou forte rejeição entre especialistas em bioética.
A reportagem é de Antonio Martínez Ron, publicada por El Salto, 15-01-2025.
A publicação de um artigo na revista Nature que especula sobre a possibilidade de editar o genoma de embriões humanos em múltiplas localizações provocou uma forte reação contrária na comunidade científica. Sob o título Edição poligênica hereditária: a próxima fronteira na medicina genômica?, o texto, liderado pelo filósofo e bioeticista Julian Savulescu, defende a continuidade da exploração dessa abordagem, embora faça algumas advertências sobre a segurança das ferramentas de edição e os limites éticos.
Os avanços na tecnologia já permitiram o nascimento de pelo menos duas crianças geneticamente modificadas, escrevem os autores, em referência ao experimento conduzido de forma irresponsável pelo cientista chinês He Jiankui em 2018, que resultou no nascimento de duas meninas (posteriormente descobriu-se uma terceira) com o genoma editado por meio da técnica CRISPR, e cujos passos parecem querer seguir. Sua conclusão é que editar um número relativamente pequeno de variantes genômicas poderia fazer uma diferença substancial no risco de um indivíduo desenvolver doença arterial coronariana, Alzheimer, transtorno depressivo maior, diabetes e esquizofrenia.
Diante da possibilidade de que, no futuro, sejam realizadas edições múltiplas na sequência de DNA de embriões e células germinativas humanas, os autores se mostram convencidos de que editar apenas algumas variantes maximizará os benefícios e minimizará os riscos. Neste estudo, demonstramos que a edição de um número relativamente pequeno de variantes poderia causar mudanças drásticas no risco de um indivíduo desenvolver doenças e, se utilizada de forma ampla e segura, pode reduzir substancialmente a incidência de doenças poligênicas entre pessoas com genomas modificados, escrevem.
Uma loucura e uma total imprudência
A Associação para a Pesquisa Responsável e a Inovação em Edição Genômica (ARRIGE) publicou um comunicado em resposta ao artigo, no qual seus membros questionam por que a revista Nature decidiu reacender o debate iniciado pelo chinês He Jiankui com suas práticas inadequadas. Em sua opinião, o artigo defende a edição poligênica hereditária para reduzir o risco de várias doenças comuns, desenvolvendo um cenário teórico baseado na ideia totalmente especulativa de que a edição genética hereditária em larga escala é viável e segura, o que não condiz com os avanços e inovações mais recentes dessa tecnologia.
A ARRIGE destaca que imaginar a possibilidade de transferir essas modificações poligênicas para embriões humanos é uma loucura e uma total imprudência, além de ser praticamente ilegal na maioria de nossos países. Os autores do artigo publicado na Nature, ressaltam, baseiam-se em suposições simplificadas e não comprovadas sobre os mecanismos genéticos, os fatores ambientais e a variabilidade populacional. O modelo pressupõe que as técnicas de edição genômica podem modificar o DNA do embrião humano com precisão impecável, indicam. Mesmo dentro de três décadas, nada permitirá fazer tal afirmação.
Ultrapassando limites
Para o geneticista e especialista em bioética Lluis Montoliu (do CNB-CSIC, CIBERER-ISCIII), a revista Nature ultrapassou um limite ao publicar este artigo. Em sua opinião, o trabalho é totalmente especulativo, com uma grande quantidade de evidências científicas contrárias. Trata-se de um exercício teórico, baseado em modelos matemáticos, sem validação experimental e, por isso, parece uma proposta feita de forma completamente irresponsável, escreve em um artigo de resposta.
Embora o suposto objetivo seja gerar pessoas mais saudáveis, longevas e menos propensas a desenvolver doenças, aponta Montoliu, os autores deveriam considerar o absurdo representado pela tentativa anterior de editar o genoma de embriões humanos usando as ferramentas CRISPR, conduzida por He Jiankui.
Eles também não levam em conta as múltiplas interações entre todas as variantes gênicas, nem o comportamento individual que tais variantes genéticas podem apresentar em diferentes pessoas, com diferentes genomas, afirma Montoliu. É um despropósito colossal, eticamente questionável e cientificamente inviável, que pode gerar desconfiança e descrédito na comunidade científica, conclui.
Após o escândalo do experimento realizado na China, que resultou no nascimento de dois bebês geneticamente modificados com CRISPR em 2018, a Organização Mundial da Saúde (OMS) concluiu que criar bebês editados geneticamente é algo irresponsável. Além disso, um grupo de cientistas e bioeticistas de renome internacional pediu, nas páginas da Nature, uma moratória global sobre esse tipo de experimento.
Embora, na época, e após a condenação de prisão pelas autoridades chinesas, He Jiankui parecesse um louco solitário, há evidências de que o governo inicialmente lhe deu apoio e que parte da comunidade científica sabia o que ele estava fazendo. Como mostra o documentário Make People Better, a ideia de evitar doenças graves por meio da edição genética é tentadora para alguns pesquisadores, e é provável que alguns poucos queiram acelerar o processo sem tantas considerações éticas.
Uma especulação legítima?
Para o filósofo da ciência Antonio Diéguez, é legítimo que Savulescu faça esse tipo de reflexão especulativa. Ele lembra que, quando o escândalo de He Jiankui veio à tona, Savulescu foi uma das primeiras vozes a classificá-lo como uma monstruosidade, de modo que não é suspeito de apoiar tais práticas. O que acontece é que ele gosta de criar discussões de cunho bioético, algo que sempre fez, explica. A tal ponto que já foi acusado de fazer uma bioética ficcional, mas ele e seu grupo defendem que uma ética especulativa ajuda a refinar a reflexão.
Diéguez acredita que o lado positivo é que isso promove o debate, mas, embora os autores insistam que tudo isso não é viável no momento, pode gerar falsas expectativas. O problema é que pode levar muitas pessoas a acreditar que isso é algo iminente e despertar falsas esperanças em pessoas com doenças genéticas, aponta. Por outro lado, admite o filósofo, a abordagem deste artigo pode pecar por ser reducionista e determinista.
Em todos os casos complexos, há centenas de genes envolvidos, exceto nas doenças monogênicas, explica Diéguez. Na diabetes, por exemplo, pode haver centenas de genes, mas os autores argumentam que talvez, modificando apenas dez deles, seja possível obter um efeito significativo. O que precisa ser avaliado é a confiabilidade desse modelo, ressalta, pois é verdade que ele é especulativo e não possui um modelo empírico por trás.
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