Como o mercado mantém o BC refém. Artigo de Luís Nassif

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20 Junho 2024

O que se percebe é que, no andar da carruagem, o país chegará em fins de 2025 com a Selic roçando os dois dígitos ainda, a economia estagnada e a mídia alimentando o monstro do bolsonarismo de volta.

O artigo é de Luis Nassif, jornalista, publicado por Jornal GGN, 20-06-2024.

Eis o artigo.

Não adianta a retórica inflamada de Lula, isoladamente. A armadilha dos juros é muito mais complexa.

O grande mercado rentista, formado nas últimas décadas, exige altas taxas da Selic. E vai exigir cada vez mais, por um moto contínuo. Altas taxas de juros mantém a economia estagnada. Juros altíssimos reduzem o mercado de consumo e a possibilidade de crescimento das empresas do setor real da economia.

Para manter a rentabilidade, o capital financeiro recorre à compra de estatais por valores depreciados. Quando esse processo começa a se esgotar, apela-se, agora, para privatização de gestão de escolas, vendas de companhias de saneamento. Mas o estoque está se esgotando. Então, restam os ganhos proporcionados pela dívida pública.

Mais que isso.

Grosso modo, pode-se dividir o país entre tomadores de crédito e detentores de capital. O modelo atual sangra consumidores e empresas com as mais altas taxas de juros do mundo. Mas conseguiu-se o feito inédito das vítimas endossarem o discurso dos opressores. É só conferir a manifestação de associações empresariais, alertando para os rumos da situação fiscal – em um momento em que se discute meio ponto de resultado nominal.

Em 2023, segundo o Banco Central, cada ponto percentual de elevação do resultado nominal representava, em média, R$ 24,5 bilhões em impacto anual nas contas públicas. Meio ponto – os 0,5 em torno dos quais armou-se esse cabo de guerra – representa R$ 12,25 bilhões. Esse montante e equivale a 0,2 pontos percentuais na taxa Selic. Ou seja, se a Selic caísse de 10,5% para 10,3%, a economia seria equivalente a tudo o que se pretende de resultado nominal.

Só há um nome para isso: loucura coletiva! E aí entra a cartelização do mercado de taxas no Brasil. Ele se move exclusivamente pelo efeito manada. Todo o trabalho dos analistas consiste em prever para onde vai a manada. E a manada vai para onde acredita que o Banco Central vai.

Até semanas atrás, o clima era de otimismo com a economia, fundamentos fortes, inflação sob controle. A discussão era se a Selic continuaria caindo 0,5 ponto ou 0,25 ponto por reunião. Aí, Roberto Campos Neto dá um sinal em direção contrária. A manada começa a inverter a direção. E, graças ao poder de cartel, consegue amarrar completamente o Banco Central, a ponto de ele manter a Selic inalterada por decisão unânime.

Coloque-se no papel do grupo indicado por Lula. Se racham a decisão, criam motivo para o mercado se inquietar, puxando o dólar e as taxas futuras para cima. Derruba-se 0,25 da Selic e, em troca, enfrenta-se um aumento das taxas futuras, que se refletem diretamente nas taxas de empréstimo. E, depois, puxam o dólar para cima, impactando os preços dos produtos comercializáveis. Há um nome para isso: chantagem.

Para evitar as turbulências de curto prazo, curvam-se então ao mercado, e mantém-se a Selic no patamar de dois dígitos. A chantagem de Campos Neto sai vitoriosa.

Esse circuito de chantagem só terminará a médio prazo, quando assumir a presidência do BC um economista respeitado e responsável que injete gradativamente bom senso no mercado. E quando Lula acordar para a necessidade de montar grupos de trabalho para preparar a nova economia, abrindo possibilidades para o capital financeiro buscar outras alternativas e deixar de pressionar a Selic.

O que se percebe é que, no andar da carruagem, o país chegará em fins de 2025 com a Selic roçando os dois dígitos ainda, a economia estagnada e a mídia alimentando o monstro do bolsonarismo de volta.

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