A solidão do Papa Francisco. “A Igreja contrária às suas reformas, mas continua sendo um profeta”. Entrevista com Vito Mancuso

Papa Francisco | Foto: L'Osservatore Romano

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23 Janeiro 2024

Não existe apenas a proverbial ironia do Papa Francisco por trás do seu reconhecer-se sozinho à luz das escolhas pastorais corajosas, a mais recente a liberação das bênçãos a casais homossexuais. “Também transparece um certo medo, misturado com amargura, por perceber que grandes setores da Igreja, os mais praticantes, não o seguem", é o teólogo Vito Mancuso quem põe o dedo na ferida da crescente solidão de Bergoglio tendo como pano de fundo a sua participação no programa Che tempo che fa.

A entrevista com Vito Mancuso é de Giovanni Panettiere, publicada por Qn, 16-01-2024. A tradução é de Luisa Rabolini.

Eis a entrevista.

Mesmo em nível internacional, os apelos do Papa pelo meio ambiente e pela paz caem regularmente no vazio, não lhe parece?

Absolutamente sim, mas mesmo que seus avisos não sejam seguidos, não existe no mundo outra autoridade moral e espiritual, exceto a sua. E essa capacidade de incomodar o poder político e econômico, mesmo ao custo de fracassar, representa o próprio destino de Francisco.

Um destino de 3 milhões de telespectadores que ficaram grudados na TV na outra noite para ouvir suas palavras... .

Ele é um comunicador extraordinário cuja solidão induz um sentimento humano de ternura. Do ponto de vista político e espiritual, é bom ter um Papa que, apesar de ter dificuldade para governar e fazer-se ouvir nos níveis mais altos, demonstra que é capaz de se sintonizar como poucos sobre os problemas dos homens e das mulheres do seu tempo, de escrever maravilhosas encíclicas em defesa da criação que talvez sejam compreendidas e implementadas daqui a cem anos. Afinal, aquela de Bergoglio é a solidão dos profetas que sabem ouvir a voz de Deus e olhar para além do contingente.

Mas nesse interim, como brinca Fiorello, os cardeais já o “cortaram do seu grupo Whatsapp". Falando sério, essa solidão palpável do Papa é aceitável na Igreja?

Era obrigatória nos tempos de Pio IX e Pio XII, quando a figura do Pontífice era distante, outra em relação às pessoas. Agora, desaparecidos há décadas o plural maiestatis e a cadeira gestatória, o fato de o Papa estar isolado é um enorme problema em nível eclesial. O próprio Francisco percebeu que não faltam aqueles que, profanando o sentido autêntico da oração, já não rezam mais por ele, mas contra ele, como Fazio deu a entender de forma nem tão sutil.

A que se deve ser ele uma “voz que clama no deserto” entre os católicos?

Ele não acertou totalmente as contas com as forças efetivas à sua disposição na Igreja. A isso se acrescenta que muitas vezes, nesses mais de dez anos de pontificado, Francisco criticou publicamente as condutas da Cúria romana. É como se o primeiro-ministro todos os dias atacasse os seus ministros. Disso resulta que ele acaba não recebendo especial simpatia no executivo.

E como essa situação se traduz no governo do Papa?

Num contínuo descontentamento tanto da direita como da esquerda católica, com a primeira a repreendê-lo por ter desconsiderado a Tradição e a segunda por falta de coragem. A questão da bênção a casais homossexuais é paradigmática: por um lado, Bergoglio as aprova, por outro, logo em seguida especifica que devem ser feitas rapidamente e sem publicidade especial. Uma espécie de 'eu gostaria, mas não posso’ que tem dificuldade para se conciliar com o sentido último da religião. Quem acredita numa fé, precisa de pontos firmes.

Sobre a homossexualidade chegou-se até a um documento dos episcopados africanos substancialmente contrário ao que foi estabelecido pelo Papa. Quase um unicum na história da Igreja.

É um sinal de que desapareceu o princípio de autoridade, outrora expresso na frase Roma locuta, causa finita. Mas foi o próprio Francisco quem contribuiu para destruí-lo, com a sua insistência sobre a colegialidade e a sinodalidade. Infelizmente, a Igreja demonstra que ainda não está preparada para acolher as mudanças e ele se arranja como pode. Se Bento XVI era um teólogo e não um Papa, o seu sucessor é um profeta mais que um Pontífice.

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