06 Janeiro 2024
"Viktor Frankl afirmava que o crescimento saudável na fé tem consequências positivas também em nível psíquico, da humanidade: que enorme contribuição poderia dar uma comunidade cristã bem fundada sobre o Evangelho, preocupada com o crescimento dos homens e das mulheres do nosso tempo, pronta a oferecer experiências libertadoras e saudáveis de espiritualidade e de fé! Que contribuição poderia dar para essa humanidade tecnológica, globalizada, digital e consumista cujo grande e constante risco é torne-se desumana!", escreve Gennaro Pagano, presbítero de Pozzuoli, psicólogo, psicoterapeuta e diretor da Fundação Centro Educacional Diocesano Regina Pacis de Pozzuoli, na Itália, em texto publicado na página do autor no Facebook, 03-01-2024. A tradução é de Luisa Rabolini.
Eis o artigo.
Acredito que um dos problemas mais sérios da Igreja neste tempo seja a ênfase também comunicativa, da sua autorreferencialidade. Basta ler os posts, os artigos, os compartilhamentos das mídias católicas, mas também de um simples jornalzinho diocesano (quanto papel desperdiçado, as árvores pedirão contas, diria a falecida Murgia!) para perceber a grande ausência: o crescimento espiritual.
Toda discussão está centrada na estrutura, nas fofocas clericais, no que se faz, em como se organiza, nas conferências, associações, iniciativas, jubileus e sínodos, sobre quem abençoar e quem não.
Como se houvesse milhares de pessoas fazendo fila do lado de fora das nossas igrejas pedindo a bênção e a autorização para serem felizes, para se sentirem conformes, para saberem-se amados por aquele Amor que chamamos de Deus.
Mas de crescimento espiritual, não se fala nada (que não é apenas algo interno!). No entanto, sem o crescimento espiritual, a comunidade cristã desaparece, a humanidade dos crentes é mortificada, a fé morre e a religião triunfa, com as suas normas, as suas castas sagradas, as suas tradições.
Viktor Frankl afirmava que o crescimento saudável na fé tem consequências positivas também em nível psíquico, da humanidade: que enorme contribuição poderia dar uma comunidade cristã bem fundada sobre o Evangelho, preocupada com o crescimento dos homens e das mulheres do nosso tempo, pronta a oferecer experiências libertadoras e saudáveis de espiritualidade e de fé! Que contribuição poderia dar para essa humanidade tecnológica, globalizada, digital e consumista cujo grande e constante risco é torne-se desumana!
Mas, em vez disso, preocupamo-nos com a forma como estamos organizados, como reformar as nossas estruturas, não para comunicar o Evangelho ao homem, mas para nos manter à tona e não perder o pouco poder que ainda é reconhecido à religião e a quem a representam. É uma grande pena!
Alguns dizem, talvez para se consolarem num pensamento simplista e falacioso, que não há nada de novo sob o sol porque a Igreja sempre esteve em crise. Mas eles estão errados porque há duas novidades substanciais neste tempo que o Papa Francisco definiu em 2015 como “uma mudança de época".
- 1. Acabou o regime de cristandade, um regime cultural, cognitivo e de valores que reconhecia independentemente um papel importante e de autoridade para a igreja e para as suas palavras.
- 2. A percepção do tempo - devido à revolução digital e às inovações no campo da comunicação social - mudou radicalmente nas últimas décadas, causando uma resistência às longas esperas e uma necessidade de imediatismo até então desconhecida. Portanto, o mundo não espera sínodos e similares, documentos e sermões inovadores: vai em frente com ou sem a gente.
Mas há um paradoxo curioso: este mundo que pode prescindir de nós e dos nossos ditames religiosos não consegue prescindir do Evangelho, da sua humanidade, daquela mensagem de amor capaz de libertar o coração. Não pode prescindir do amor. Aquele Amor que nada mais é do que o rosto e o nome de Deus que Jesus contou, explicou, revelou com a sua vida, com as suas palavras, com a sua Páscoa.
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