Otimismo desaparece na Ucrânia às vésperas de mais um inverno de guerra

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01 Dezembro 2023

Rumores de tensões no topo, exaustão após dois anos de combates e frustração com aliados estão turvando o clima em Kiev.

A reportagem é de Shaun Walker, publicada por El Diario, 28-11-2023.

Há uma sensação sutil, mas inconfundível, de tristeza em Kiev, e não apenas por causa das tardes escuras ou das baixas temperaturas de um novembro do Leste Europeu. Uma série de fatores internos e externos se combinaram para criar o que talvez seja o clima mais pessimista sobre a possibilidade de uma vitória rápida e decisiva da Ucrânia contra a Rússia desde as primeiras semanas da invasão em grande escala.

"No final do ano passado e no início deste ano houve muita euforia. Agora vemos o outro extremo, a desaceleração, e acho que por algum tempo haverá altos e baixos", diz Bartosz Cichocki, que no mês passado encerrou seu mandato de quatro anos como embaixador da Polônia em Kiev.

A tão esperada contraofensiva do verão foi frustrada pelos campos minados e fortificações impenetráveis da Rússia. Há rumores de que há tensões dentro da equipe de Volodymyr Zelensky, com um racha entre o presidente ucraniano e seu comandante-em-chefe. Os rumores ganharam força há alguns dias, quando Zelensky demitiu o chefe das forças médicas militares e pediu mudanças operacionais dentro do Exército.

A exaustão após dois anos de combates, a perda incessante de vidas no front e a frustração com a lentidão com que os parceiros ocidentais estão enviando armas se combinaram para fazer com que, pela primeira vez desde o início da guerra, algumas vozes começassem a pesar silenciosamente a possibilidade de negociações para um cessar-fogo, embora admitam que a aposta é arriscada e pode beneficiar a Rússia.

Há também o horror que se desenrola no Oriente Médio, que capturou parte da atenção que antes estava focada na Ucrânia e retardou o fluxo de munição. Sem falar no crescente "cansaço ucraniano" que se instala nas capitais ocidentais e na possibilidade iminente de um segundo mandato de Donald Trump nos EUA, o que pode alterar o apoio do principal aliado de Kiev.

O secretário de Defesa dos EUA, Lloyd Austin, viajou a Kiev na semana passada em uma visita não anunciada. Um de seus objetivos era tranquilizar os líderes ucranianos sobre o apoio contínuo de Washington, mas a oposição do Partido Republicano está dificultando a aprovação de planos de financiamento para a Ucrânia no Congresso dos EUA, e o temor é que isso se torne mais complicado à medida que as eleições de 2024 se aproximam.

Ao mesmo tempo, há desenvolvimentos positivos: há alguns dias chegaram notícias do campo de batalha de que as tropas ucranianas haviam se entrincheirado em posições na margem leste do rio Dnieper, na região sul de Kherson, possivelmente abrindo um caminho para a Crimeia. A Ucrânia também foi bem-sucedida no ataque à frota russa do Mar Negro. E, do ponto de vista diplomático, a confirmação pela União Europeia de que há planos para iniciar negociações para a adesão da Ucrânia foi uma alegria muito necessária.

Mas enquanto os ucranianos se preparam para mais um inverno de possíveis ataques russos a infraestruturas críticas, bem como o terror implacável de mísseis e drones russos caindo sobre cidades ucranianas à noite, o otimismo de seis meses atrás, quando parecia que a derrota da Rússia e o retorno da Crimeia e do Donbas poderiam estar ao virar da esquina, começou a desaparecer.

"Não será a vitória que sonhamos e levará muito mais tempo do que pensávamos", disse Volodymyr Omelyan, capitão do exército ucraniano e ex-ministro da Infraestrutura, que se alistou nas forças de defesa territorial desde o primeiro dia da guerra.

A palavra que começa com A

A maioria dos cidadãos entende que não haverá paz duradoura enquanto Vladimir Putin permanecer no Kremlin e que a Rússia aproveitará qualquer interrupção nos combates para se rearmar. De acordo com as pesquisas, a maioria dos ucranianos não quer negociações com a Rússia, especialmente se isso significar uma aceitação do território perdido.

Mas algumas vozes começaram a sugerir cautelosamente a necessidade de uma mudança de rumo devido à exaustão daqueles que estão na linha de frente desde o início do conflito, à dificuldade em mobilizar novos recrutas e ao fracasso da contraofensiva de verão para recuperar território.

"A escolha é muito simples", diz Omelyan, "podemos fazê-lo se estivermos dispostos a sacrificar a vida de outros 300.000 ou 500.000 soldados ucranianos para tomar a Crimeia e libertar o Donbas, e se conseguirmos tanques e F16 suficientes do Ocidente. Mas não vejo mais 500 mil pessoas dispostas a morrer, e não vejo a disposição do Ocidente de enviar o tipo de armas e os números de que precisaríamos."

A outra opção, diz Omélian, é "um acordo de cessar-fogo para fazer grandes reformas, para se tornar membro da Otan e da UE, então a Rússia entrará em colapso e retomaremos a Crimeia e o Donbas mais tarde".

No entanto, pode ser apenas uma ilusão. Zelenski garantiu que qualquer tipo de negociação está jogando nas mãos da Rússia porque o objetivo de guerra do Kremlin continua sendo a subjugação total da Ucrânia.

Mikhail Podolyak, conselheiro de Zelensky, admite que a guerra está numa fase difícil, mas também afirma que é uma fase em que "é necessária a concentração mais intensa e difícil" para avançar. "Sejamos claros, não há opções reais de negociação, a única coisa que haveria seria uma pausa operacional", disse Podolyak em Kiev durante uma entrevista presidencial: "A Rússia usaria isso para melhorar significativamente seu exército, fazer uma nova mobilização e depois relançar sua guerra, com consequências ainda mais trágicas para a Ucrânia".

Mas mesmo entre aqueles no círculo íntimo de Zelensky, há dúvidas sobre a crença messiânica do presidente na vitória ucraniana, de acordo com o jornalista Simon Shuster, que ao preparar sua biografia do líder ucraniano (em breve) teve acesso excepcionalmente próximo à equipe presidencial. Shuster cita um assessor frustrado do presidente que considera ilusórias as chances de Zelensky de uma vitória no campo de batalha. "Ficamos sem opções, não estamos ganhando, mas ousamos dizer", disse o assessor.

A guerra em Gaza

Os ataques do Hamas a Israel e a reação de Israel à sua ofensiva em Gaza foram complicados para a Ucrânia de três maneiras. Primeiro, porque, pela primeira vez desde fevereiro de 2022, a Ucrânia deixou de ser por muito tempo a principal preocupação de política externa para a maioria dos líderes ocidentais.

Em segundo lugar, reduziu o fornecimento de munição à Ucrânia, segundo Zelensky, agravando um problema já crítico para os militares de seu país.

Por fim, há as repercussões da decisão de Zelensky de se alinhar à dura postura pró-Israel dos EUA no conflito de Gaza. Ele descreveu o Hamas e a Rússia como "o mesmo mal". Isso tem dificultado a tentativa da Ucrânia de buscar alianças no Oriente Médio e em outros países fora do eixo ocidental, parte essencial da missão atribuída ao recém-nomeado ministro da Defesa, Rustem Umerov.

Podolyak admite que as relações com muitos países não ocidentais esfriaram. "Isso dificultou a criação de uma coalizão mais ampla de apoio à Ucrânia na luta contra a Rússia", diz ele.

Um segundo mandato de Trump?

A apenas um ano das eleições presidenciais norte-americanas, muitos em Kiev estão alarmados com um possível regresso de Donald Trump, que costuma dizer que seria capaz de chegar rapidamente a um acordo para acabar com a guerra.

Publicamente, as autoridades ucranianas dizem contar com o apoio da Casa Branca, seja quem for seu inquilino. Mas, reservadamente, há preocupações sobre a possibilidade de um governo Trump. "[A questão] foi levantada em todas as reuniões", disse Michael McFaul, ex-embaixador dos EUA na Rússia que se encontrou com Zelensky e outras autoridades em Kiev em setembro e está trabalhando em sanções com o governo ucraniano.

Mesmo que Trump não se torne presidente, os republicanos podem atrapalhar a política do governo Biden sobre a Ucrânia. Os envios de armas para Kiev foram reduzidos porque a oposição de um grupo de republicanos bloqueia a aprovação no Congresso de um novo pacote de ajuda à Ucrânia desde setembro. Andriy Yermak, chefe de gabinete de Zelensky, viajou este mês para uma reunião com democratas e republicanos em Washington com a missão de fazer as pessoas entenderem a importância de continuar enviando armas.

O retorno da política

Durante o primeiro ano da guerra, os ucranianos permaneceram inabalavelmente unidos atrás de Zelensky, admirados por sua liderança naqueles primeiros dias cruciais e unidos na luta de sua nação contra a Rússia. Um acordo nacional que, naturalmente, começou a rachar com o passar do tempo.

De acordo com uma fonte bem informada, o presidente ucraniano está muito preocupado com o "fenômeno Churchill", referindo-se à derrota eleitoral de um líder bem-sucedido em tempos de guerra. As eleições presidenciais estavam previstas para março de 2024, e havia indícios de que Zelensky poderia mantê-las para garantir um segundo mandato antes do que pode ser uma fase mais dura da guerra.

Muitos membros da sociedade civil reagiram fortemente a essa possibilidade, ressaltando a impossibilidade logística e de segurança da realização de eleições. "A maioria dos países democráticos desenvolvidos concorda: não é possível realizar eleições em tempos de guerra; todos devem ter prioridade, defender o Estado", diz Olga Aivazovska, especialista em processos eleitorais e presidente da ONG ucraniana Opora.

Zelensky finalmente descartou que haverá eleições na próxima primavera. Mas eleições ou não eleições, a unidade em tempos de guerra começa a ter limites. Políticos da oposição alertam que, quando a guerra terminar, voltarão a questionar os preparativos de Zelensky no período que antecede a invasão. Campanhas negativas de relações públicas e o uso de kompromat [material comprometedor de figuras públicas] voltaram aos canais do Telegram, onde a maioria dos ucranianos lê as notícias.

Embora Zelensky continue a ter altos índices de popularidade, o comandante-em-chefe Valeriy Zaluzhny também é altamente avaliado. Ele nunca expressou ambições políticas, mas muitos o consideram um possível candidato a presidente.

Zelenskyy e seus assessores criticaram o uso do termo "impasse" por Zaluzhny durante uma entrevista recente à revista The Economist para se referir à situação no campo de batalha. Mas Podolyak nega que haja um conflito entre os dois homens. "Zelensky é seu chefe direto, não pode haver um conflito por definição", disse.

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