02 Setembro 2023
O crescimento estadual foi muito baixo e a maioria dos 497 municípios gaúchos apresentou decrescimento demográfico entre 2010 e 2022
O artigo é de José Eustáquio Diniz Alves, demógrafo e pesquisador, em artigo publicado por EcoDebate, 23-08-2023.
Eis o artigo.
No dia 28 de junho de 2023, o IBGE divulgou os primeiros resultados do censo demográfico de 2022. Em geral, os totais populacionais vieram abaixo do esperado.
As projeções populacionais de 2018 para o estado do Rio Grande do Sul indicavam uma população de 11.507.906 habitantes em 2022. No entanto, o número apurado pelo IBGE ficou em 10.880.506 habitantes.
O gráfico abaixo, com dados de 13 censos, mostra a evolução da população gaúcha, que era de 434,8 mil habitantes em 1872, passou para 897,4 mil em 1890 e ultrapassou 1,1 milhão de habitantes em 1900. No ano 2000, ultrapassou 10 milhões de habitantes, alcançou 10,7 milhões em 2010 e, nos últimos 12 anos, cresceu muito pouco, chegando a 10,88 milhões de habitantes em 2022.
Entre 1872 e 1890, o crescimento médio anual da população sul-rio-grandense foi de 4,1% ao ano (o maior crescimento de toda a série). Entre 1920 e 1940, cresceu 2,1% aa e voltou a subir para 2,7% aa entre 1950 e 1960. A partir da década de 1960, a taxa de crescimento veio caindo progressivamente, ficando em apenas 0,5% ao ano na primeira década do século XXI e em 0,1% aa entre 1910 e 2022.
População do Rio Grande do Sul 1872 2022 (Foto: Séries históricas do IBGE)
Enquanto o crescimento estadual foi muito baixo, houve municípios com crescimento, mas a maioria dos 497 municípios gaúchos apresentou decrescimento demográfico entre 2010 e 2022. Foram 207 cidades com crescimento da população e 290 cidades com redução do número de habitantes. As duas tabelas abaixo apresentam os municípios que reduziram de tamanho no último período intercensitário.
Cidades do rio grande do sul com decrescimento demográfico (Foto: IBGE)
O censo demográfico é a mais profunda e abrangente pesquisa do país, sendo fundamental para a formulação das políticas públicas e para a decisão de investimentos da iniciativa privada. No entanto, é preciso reconhecer que houve muita dificuldade para se realizar o recenseamento 2022. O governo passado restringiu os recursos para o IBGE se equipar e se preparar para realizar o levantamento em 2020. As dificuldades já eram grandes quando veio a pandemia da covid-19 que inviabilizou a realização da pesquisa no segundo semestre de 2020.
Em 2021, novamente, faltou dinheiro e vontade. A questão foi judicializada e o Supremo Tribunal Federal obrigou o Governo Federal a liberar os recursos e fazer o censo em 2022.
O recenseamento foi a campo com a sociedade dividida e em meio a uma eleição extremamente polarizada. Houve atraso na coleta dos dados e não foi fácil aplicar os questionários nos inúmeros domicílios brasileiros. Desta forma, não tivemos um censo perfeito, mas sim um censo possível.
Todavia, com modelos estatísticos, dados secundários de registros administrativos e uma boa dose de criatividade os demógrafos e demais cientistas sociais poderão corrigir as eventuais falhas e desvendar a realidade da sociedade brasileira. Muitas dúvidas poderão ser dirimidas quando o IBGE divulgar as demais informações do censo 2022.
Referências
ALVES, JED. Demografia e Economia nos 200 anos da Independência do Brasil e cenários para o século XXI, Escola de Negócios e Seguro (ENS), maio de 2022. (Colaboração de Francisco Galiza).
ALVES, JED. As oportunidades e os desafios dos bônus demográficos com os novos números do Censo 2022, Folha de São Paulo, 28/06/2023
ALVES, JED. As novidades e as surpresas do censo demográfico 2022, Ecodebate, 03/07/2023
IBGE. Primeiros resultados: população e domicílios, 28/06/2023
WW – Edição de domingo | Qual o impacto do envelhecimento da população? – 16/07/2023
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