Francisco na Mongólia sonha com a China e a Rússia

Catedral de São Pedro e Paulo em Ulaan-Baatar. (Foto: Reprodução | Vatican News)

Mais Lidos

  • Lula, sua última eleição e seus demônios. Artigo de Antonio Martins

    LER MAIS
  • Vozes de Emaús: Movimento Fé e Política faz história. Artigo de Frei Betto e Claudio Ribeiro

    LER MAIS
  • Parte do Sul Global, incluindo o Brasil, defende que países desenvolvidos abandonem os combustíveis fósseis primeiro. Para Martí Orta, não há espaço para ritmos nacionais distintos na eliminação de petróleo, gás e carvão. O pesquisador afirma que a abertura de novos projetos de exploração ignora os limites definidos pela ciência

    Cancelar contratos fósseis. Não ‘há tempo’ para transição em diferentes velocidades. Entrevista com Martí Orta

    LER MAIS

Revista ihu on-line

Natal. A poesia mística do Menino Deus no Brasil profundo

Edição: 558

Leia mais

O veneno automático e infinito do ódio e suas atualizações no século XXI

Edição: 557

Leia mais

Um caleidoscópio chamado Rio Grande do Sul

Edição: 556

Leia mais

29 Agosto 2023

Ulaan-Baatar, capital da Mongólia, é o destino formal da viagem que o papa iniciará quinta-feira; mas a viagem substancial, embora inatingível por enquanto, é dupla: Moscou e Pequim. É possível, portanto, que nos quatro dias de estadia Francisco diga algumas palavras ou tenha encontros que dizem respeito diretamente à China ou à Rússia, países que atualmente são "proibidos" para ele.

A reportagem é de Luigi Sandri, publicada por L'Adige, 28-08-2023. A tradução é de Luisa Rabolini.

Existem atualmente 1.450 católicos mongóis: um número totalmente exíguo, 0,02% dos 3,5 milhões habitantes, em sua maioria nômades, espalhados por um país do tamanho de cinco Itálias, mas em sua maioria deserto, e onde os habitantes, por religião, estão distribuídos da seguinte forma: budistas, 53%, muçulmanos 3%, xamânicos 2,9%. Além dos católicos, há também 35 mil protestantes e cerca de mil ortodoxos. Notável (o 38%) o número daqueles que se proclamam ateus. Quem lidera os católicos é o cardeal piemontês Giorgio Marengo (nascido em 1974!), prefeito apostólico de Ulaan-Baatar.

Nesse quadro tão variegado, é previsível que Bergoglio convide todos à tolerância mútua e, juntos, a cooperar unidos para ajudar o seu país a ser o mensageiro da paz naquela área nevrálgica. Voando sobre a Rússia e, talvez, a China, que tipo de mensagem o papa enviará aos presidentes dos seus respectivos países? Quem, o patriarcado de Moscou escolherá para atender o peregrino na Mongólia? Em alguns lugares se falou - se o avião papal tiver de pousar na Rússia para uma pausa técnica - de um eventual encontro de Francisco com Kirill, o chefe da Igreja Russa. Hipótese que, no entanto, tem poucas probabilidades de ocorrer, porque o patriarca disse repetidamente que, caso venha a se realizar, não poderia ser um "acessório", mas sim o propósito único e preciso de tal viagem.

Se é a primeira vez que um bispo de Roma chega à distante Mongólia, certamente não é o primeiro cristão a visitá-la. Naquele país, a partir do VII/VIII séculos, chegaram os "nestorianos" (cristãos iraquianos-persas que não estavam em comunhão nem com os bizantinos nem com os latinos) que nomearam bispos e converteram algumas tribos mongóis. Depois, na Idade Média, embora a Europa tivesse sido aterrorizada pelo mongol Genghis Khan, fundador de um vastíssimo império que se estendia da Ásia Central à Polônia e à Ucrânia, os papas do século XIII favoreceram missões exploratórias junto aos mongóis. Naquelas terras, enviado por Inocêncio IV, chegou em 1245 o franciscano Giovanni di Pian del Carpine que, depois de dois anos, regressou à Itália e escreveu a fascinante "Historia Mongolorum quos nos Tartaros appellamus" (História dos Mongóis, a quem chamamos Tártaros, em tradução livre).

Subjugada durante séculos pela China, a Mongólia tornou-se uma república independente em 1924, e entrou na órbita soviética, com uma rígida política antirreligiosa. Com o fim da URSS, o país mudou muito e hoje respeita a liberdade de consciência. A viagem de Francisco terá que se confrontar com tal contexto em movimento. Antecipação, talvez, do dia em que um papa desembarcará em Moscou e em Pequim.

Leia mais