05 Mai 2023
Ao contrário de todos os discursos convencionais que custam a ir além da simples constatação e que caem no refrão do “é assim mesmo”, ou em uma impotência deprimente, é possível um novo sistema de organização que repense a nossa relação com a hierarquia e, portanto, com a governança. E isso a partir da mais antiga das sabedorias: o evangelho.
O comentário é do filósofo e brasilianista francês Patrick Corneau, ex-professor da Université Bretagne Sud. Em português, é autor de “Brasileza” (Perspectiva, 2007). O artigo foi publicado por Teologi@Internet, 01-05-2023. A tradução é de Moisés Sbardelotto.
Eis o artigo.
É um lugar-comum típico da era moderna: a crise da autoridade, o exercício quase impossível da governança em todos os âmbitos da nossas vidas – na família, na escola, no trabalho, na vida comunitária, na cena pública e na esfera política. Mais do que nova, essa crise é crônica; já se trata até da nova condição em que nos encontramos vivendo concretamente.
Com a aceleração dos fenômenos ligados à circulação imediata das informações e à sua interação em escala global, no entanto, parece que essa crise está assumindo um caráter intenso, com consequências imprevistas, cada vez mais desestabilizadoras e deletérias.
A pandemia foi um terrível sinal disso. Muitas vozes se levantaram para pedir mudanças urgentes; centros de pesquisa se ocuparam da questão; comentaristas e intelectuais falaram disso na mídia, às vezes levantando demais a voz e criando assim mais confusão – senão até estupore e espanto – na cabeça das pessoas...
Nesse concerto dissonante, as vozes autenticamente inovadoras têm dificuldade de se fazer ouvir, uma dificuldade ainda maior quando propõem o inesperado, o inaudito.
Uma luz voltada para o exercício da governança
O pequeno livro de 96 páginas que acabei de ler é um exemplo disso: traz uma novidade tão antiga que ninguém mais é capaz de vê-la. “Il re deluso” [O rei desiludido], de Marie-Laure Durand, é um livro luminoso. Intrinsecamente luminoso, por sua escrita de clareza exemplar; luminoso, com ainda mais razão, pela luz reveladora, resplandecente, altamente refrescante que lança sobre o complicado exercício da governança.

"O rei desiludido", em tradução livre (Foto: Divulgação)
Ao contrário de todos os discursos convencionais que custam a ir além da simples constatação e que caem no refrão do “é assim mesmo”, ou em uma impotência deprimente, Marie-Laure Durand acredita ser possível um novo sistema de organização que repense a nossa relação com a hierarquia e, portanto, com a governança. Ela traça seus contornos confiando-se à mais antiga das sabedorias: o evangelho!
É uma abordagem ousada e, convenhamos, singularmente revolucionária, porque não se trata de mais um livro de receitas sobre como se comportar, mas sim de uma reflexão espiritual e antropológica sobre a nossa condição política (Homo politicus).
A parábola do rei desiludido
A partir de onde o livro começa? De uma parábola do Evangelho segundo Mateus, a do rei desiludido (Mt 22,1-14):
“É a história de um rei que casa seu filho. Em si mesmo, é um evento feliz, um momento de graça, a oportunidade para reunir as pessoas e fazer festa. Mas as coisas não sairão como o esperado. No fim, é a história de um fiasco. Acaba-se contando os mortos, as decepções, as ameaças e a amargura que reina de um lado e de outro. O projeto do rei não encontra o favor do público e, em vez de dar origem à concórdia, gera mal-entendidos e incidentes diplomáticos” (p. 27).
Aqui está a “simplicidade da Bíblia”, apesar de sua complexidade, como para toda parábola evangélica... Marie-Laure Durand, doutora em teologia, biblista especialista em exegese, toma esse episódio aparentemente banal para examinar os equívocos, as carências e os enganos, e para descobrir como eles revelam uma cautela, uma advertência, talvez uma certa prudência sobre o que se espera de um bom governo e que poderia ser transposto à nossa situação.
Com efeito, a análise do fracasso desse rei, que prepara o casamento do filho e que acaba executando uma parte de seu povo, é a oportunidade para ler o que não funciona no nosso modo de agir. A Bíblia nos mostra pessoas que fracassam porque podemos olhar para os nossos fracassos sem pressão ou sentimentos de culpa. Se o rei fracassa, nós também podemos reconhecer que às vezes as coisas dão errado e que aquilo que deveria ser uma alegria ou uma decisão sábia, em certo ponto (o archè kakón dos gregos, o ponto onde as coisas desmoronam), se transformou em uma fonte de problemas.
Uma meditação em três partes
Marie-Laure Durand parte, portanto, desse texto surpreendente como base para uma meditação em três partes: “Cuidar” (pp. 26-42); “Promover” (pp. 43-58); “Escolher” (pp. 59-74).
O que significa “cuidar” quando se administra um reino e se pensa em seu futuro, quando se sucedem rejeições e incompreensões? Cuidar das pessoas não significa, talvez, fazê-las entender como são preciosas e únicas? Não significa, talvez, projetar-se em sua temporalidade, reconhecendo-a e respeitando-a para recuperar uma preciosa confiança em si mesmos e nos outros?
O que significa “promover”, visto que a história de um rei que casa o filho também já é uma história de promoção, aquele momento em que o rei vê o filho crescer, prevê uma união afetiva e/ou política para preparar o dia em que este último o sucederá? Como fazer para transmitir as instituições sem problemas, isto é, dentro de um quadro estável e aceito por todos; mas também como fazer para que cada sujeito também se sinta “promovido”, encorajado a se superar ou a se elevar positivamente em sua própria identidade única?
O que significa “escolher”, visto que a história de um rei que casa o filho é também a história de um monarca que tem problemas de governança: ele crê que deve decidir tudo e por todos no reino; sua concepção de poder é rigorosamente vertical e piramidal, ele pensa que é garantia de estabilidade; mas esse não é, talvez, um status quo pago caro? Não é, talvez, uma forma de exercer o poder que, longe de servir ao reino e à autoridade, apenas o enfraquece à medida que o sistema se torna mais complexo ou as crises se sucedem?
A constante atualidade do texto bíblico
No fim desse exercício de interpretação bíblica altamente disruptivo, Marie-Laure Durand sacode aquilo que assumimos como óbvio, desconstrói as nossas representações e os nossos modos de agir. Ela nos demonstra, se já não estivéssemos convencidos, da constante atualidade do texto bíblico em nossas relações sociais.
Tendo como ponto de referência a parábola evangélica dos convidados ao banquete, ela nos encoraja a questionar as nossas representações de poder. Com seu conhecimento de teologia e filosofia, unido a uma grande sagacidade, ela nos ensina a pensar a nossa vida coletiva de forma diferente.
Eu falei antes de uma abordagem revolucionária: sim, porque Cristo é assim e sempre foi. Quer as pessoas gostem ou não, sua palavra fulgurante e sorridente sabe ser igualmente afiada; quando a governança encontra Jesus, é obviamente para destruir o velho templo.
Concluamos, então, com as últimas linhas desse ensaio que, como um meteorito, sabe iluminar o céu apagado das nossas ideias:
“Se cuidar tem a ver com a singularidade das pessoas, se governar é cuidar para acertar as temporalidades, escolher consiste em se associar ao processo de decisão e em partilhar as escolhas feitas. O Reino de Deus se assemelha a um rei que teria entendido que reinar sozinho não faz sentido. O Reino de Deus se assemelha a um rei que iniciaria um diálogo com o mundo para permitir que cada um aproveite ao máximo a abundância que nos rodeia. Um rei que levaria a sério a história das pessoas, sua singularidade e que daria e se daria tempo para construir uma decisão. Um rei que não estaria em competição com nenhum de seus súditos, que seria capaz de dar sua confiança e de mantê-la apesar de tudo. Um rei que trataria os outros como adultos. Capaz de suportar uma rejeição e um desacordo. Sedento de diálogo e de encontros. O Reino de Deus se assemelha a Deus” (p. 73).
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