Réquiem para Bakhmut. Artigo de Manuel Castells

Mais Lidos

  • Brasil precisa de sistema de alerta antecipado contra desastres ambientais. Entrevista com Francisco Eliseu Aquino

    LER MAIS
  • “Precisamos de uma ministra negra para o STF começar a dar respostas ao racismo estrutural no país”. Entrevista com Ingrid Farias

    LER MAIS
  • “A grande estupidez da esquerda foi aceitar o neoliberalismo”. Entrevista com Rob Riemen

    LER MAIS

Newsletter IHU

Fique atualizado das Notícias do Dia, inscreva-se na newsletter do IHU


Revista ihu on-line

Zooliteratura. A virada animal e vegetal contra o antropocentrismo

Edição: 552

Leia mais

Modernismos. A fratura entre a modernidade artística e social no Brasil

Edição: 551

Leia mais

Metaverso. A experiência humana sob outros horizontes

Edição: 550

Leia mais

21 Abril 2023

“Estamos diante de uma guerra velha e tradicional entre poderes militares que disputam a hegemonia. Enquanto a Europa se subordina à OTAN, empurrada pelo compreensível medo histórico da Europa do Leste, e enquanto se decide nosso destino nas salas da geopolítica, segue o incessante moedor de carne”, escreve Manuel Castells, sociólogo espanhol, em artigo publicado por La Vanguardia, 15-04-2023. A tradução é do Cepat.

Eis o artigo.

Bakhmut é um moedor de carne, segundo dizem os dois lados combatentes. Cinco meses de atroz combate, cujo objetivo explícito é matar o maior número possível de inimigos para enfraquecer o adversário, antes da anunciada contraofensiva ucraniana. Os horrores da guerra de trincheiras da Primeira Guerra Mundial estão sendo superados. Mata-se a golpes de mísseis e obuses, mas também corpo a corpo, entre os escombros de uma cidade que não existe mais. Incontáveis, em ambos os lados, foram mortos ou mutilados.

Todos concordam que Bakhmut tem pouco valor estratégico. Talvez os últimos ucranianos resistentes se retirem pela única estrada que permanece livre para evitar serem cercados. Mas dá no mesmo, exceto para os egos, porque em semanas ou meses as idas e vindas letais podem mudar o controle do território. Tudo depende de quantas armas a OTAN envia e de quanta carne de canhão a Rússia mobiliza.

Os mercenários do Grupo Wagner continuam suas investidas suicidas contra tropas motivadas, bem armadas e lideradas. Forças especiais russas foram recentemente destacadas para completar a operação e para que Prigozhin não leve só os duvidosos louros de um triunfo que busca alimentar seu projeto de poder. Contudo, seria uma vitória efêmera.

Para além de Bakhmut, erguem-se linhas defensivas com grande potencial de fogo e determinadas a resistir. Até quando essa matança sem sentido? Até derrotar a Rússia, que não pode perder totalmente porque é uma potência nuclear, ou até a rendição da Ucrânia, que conta com o apoio da OTAN?

Todos sabem que todo esse sangue é derramado para negociar em uma posição favorável. Negociação haverá, entre outras coisas, porque os republicanos estadunidenses estão cada vez mais contrários a continuar financiando a guerra e utilizarão isto na campanha eleitoral que começa em meio ano. Então, toda essa destruição se reduz a um cálculo de quantos mais terão que morrer por quilômetro de território que possa ser conquistado ou perdido na negociação.

A Rússia de Putin é uma autocracia e a Ucrânia tenta ser uma democracia, mas esta não é uma guerra entre democracia e autocracia. A Rússia não pode pensar em conquistar a Europa. Busca recuperar seu respeito como império, ainda que reduzido, enquanto os Estados Unidos resistem em abandonar sua hegemonia mundial ameaçada pelo surgimento do poder chinês.

Estamos diante de uma guerra velha e tradicional entre poderes militares que disputam a hegemonia. Enquanto a Europa se subordina à OTAN, empurrada pelo compreensível medo histórico da Europa do Leste, e enquanto se decide nosso destino nas salas da geopolítica, segue o incessante moedor de carne. Honra aos que morrem defendendo sua terra e suas famílias. Comiseração aos que apostaram a única coisa que tinham, suas vidas, na roleta da morte e perderam. E vergonha para os demais, todos nós, que com o argumento de que a culpa é de Putin (certo), vivemos o privilégio da paz, enquanto a guerra abre suas mandíbulas sangrentas de modo mais feroz do que nunca.

Leia mais

Comunicar erro

close

FECHAR

Comunicar erro.

Comunique à redação erros de português, de informação ou técnicos encontrados nesta página:

Réquiem para Bakhmut. Artigo de Manuel Castells - Instituto Humanitas Unisinos - IHU