Leviatãs, onde está a vitória? É preciso remover a guerra como algo natural e a paz como mero artifício

Representação soldados em guerra (Foto: Public Domain Pictures)

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27 Fevereiro 2023

Leviatani, dov’è la vittoria? (Leviatãs, onde está a vitória?, em tradução livre, EMI, dezembro de 2022, 18 euros) é o último livro de Raniero La Valle. É um texto militante, escrito com urgência e sob a pressão dos eventos que reviraram o mundo e as nossas vidas. A partir daquele trágico 24 de fevereiro, quando a guerra estourou na fronteira oriental da Europa, mudando bruscamente o horizonte dos povos europeus e reverberando seus efeitos nefastos em todo o mundo.

O assombro foi o aspecto inicial que atravessou a opinião pública, incrédula que nesta parte do mundo pudessem retornar aqueles eventos trágicos e infernais que pareciam enterrados para sempre pela história. Um assombro que fez com que a agressão da Rússia fosse lida como mero fruto de loucura criminosa.

A reportagem é de Domenico Gallo, publicada por Il Fatto Quotidiano, 25-02-2023. A tradução é de Luisa Rabolini.

Leviatani, dov’è la vittoria?

Uma leitura que certamente não poderia enganar La Valle que, nos dois primeiros capítulos do livro (Vamos começar pelo muro, O Novo Império), responde à pergunta: como chegamos a esse ponto? O ponto de partida foi a tentativa de Gorbachev de desmantelar o sistema de dominação e guerra, do qual a queda do Muro de Berlim foi o epifenômeno. A resposta da nação líder do Ocidente foi correr aos reparos e relegitimar a guerra como instrumento de uma política de dominação e imperial.

Começou com a primeira Guerra do Golfo e continuou com a guerra da OTAN contra a Iugoslávia, que fechou o século do Holocausto e das duas guerras mundiais, trazendo-o de volta ao início. Um processo acelerado pelo trauma do 11 de Setembro do qual os EUA saíram com novas estratégias militares que explicitaram a estratégia da segurança nacional com vista a um novo messianismo, garantido por uma potência militar que deve por definição ser superior a qualquer outro poder. Um messianismo que precisa de um inimigo, que ele mesmo produziu, ressuscitando a Cortina de Ferro e apontando as armas da OTAN à garganta do urso Russo.

A segunda parte do livro é uma coletânea de comentários sobre o desenvolvimento da guerra e dos eventos internacional durante o seu andamento. A leitura de Raniero La Valle constitui o contraponto à narrativa levada a cabo pelo pensamento único atlantista que dominou e domina nos meios de comunicação, nos partidos políticos, nas instituições da UE e até nos parlamentos.

La Valle exorciza o espectro da vitória que leva os EUA, a OTAN e a UE a alimentar irresponsavelmente a guerra: "A verdadeira sabedoria é a busca de uma alternativa à vitória para pôr fim à guerra". Os capítulos com os quais La Valle comenta as várias etapas do desenvolvimento da guerra e das reações dos atores internacionais (cúpulas da OTAN e do G7, deliberações dos Parlamentos) são pérolas de sabedoria e um remédio, um "pharmacon", contra o embrutecimento das consciências.

A conclusão é que: “devemos ir às raízes distantes, até aquela ideia ancestral, a remover, da guerra como natureza e da paz como artifício, e fazer do amor o pai e o princípio de todas as coisas”.

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