O Natal e os LGBT+: entre a Estrela de Belém e o Arco-íris

Foto: Pixabay

Mais Lidos

  • Lula, sua última eleição e seus demônios. Artigo de Antonio Martins

    LER MAIS
  • Vozes de Emaús: Movimento Fé e Política faz história. Artigo de Frei Betto e Claudio Ribeiro

    LER MAIS
  • Parte do Sul Global, incluindo o Brasil, defende que países desenvolvidos abandonem os combustíveis fósseis primeiro. Para Martí Orta, não há espaço para ritmos nacionais distintos na eliminação de petróleo, gás e carvão. O pesquisador afirma que a abertura de novos projetos de exploração ignora os limites definidos pela ciência

    Cancelar contratos fósseis. Não ‘há tempo’ para transição em diferentes velocidades. Entrevista com Martí Orta

    LER MAIS

Revista ihu on-line

Natal. A poesia mística do Menino Deus no Brasil profundo

Edição: 558

Leia mais

O veneno automático e infinito do ódio e suas atualizações no século XXI

Edição: 557

Leia mais

Um caleidoscópio chamado Rio Grande do Sul

Edição: 556

Leia mais

06 Janeiro 2023

"Na Bíblia, alguns sinais nos céus evocam a presença de Deus. A Estrela de Belém simboliza o Natal; e o arco-íris, a aliança de Deus com todo ser vivente após o dilúvio. Nos tempos atuais, o arco-íris representa a diversidade existente na população LGBT+ e a sua luta por cidadania. Jesus nos revela a face de Deus, que é amor. Nada que não seja amor pode existir em Deus. Removendo-se a homotransfobia, a face divina brilha para a humanidade com mais esplendor, engrandecendo o Natal e aquecendo os corações dos que o celebram", escreve Luís Corrêa Lima, sacerdote jesuíta, professor da PUC-Rio e autor do livro Teologia e os LGBT+: perspectivas históricas e desafios contemporâneos (Ed. Vozes), em artigo publicado por Dom Total, 04-01-2023.

Eis o artigo.

No tempo do Natal, celebramos a vinda de Deus ao nosso encontro, assumindo a nossa carne e partilhando a nossa existência. Como dizem os Evangelhos: “para nós” nasceu o Salvador; Jesus de Nazaré é Deus conosco, Emanuel. Ele quer entrar em nossa vida a fim de que possamos caminhar juntos para a salvação. Os textos da liturgia e os símbolos do Natal apontam nesta direção. Com fé, podemos acolher este grande mistério que dá sentido às nossas vidas.

A grandeza do Natal, porém, pode ser ofuscada onde não há fé ou não há valores do Evangelho. Muitas pessoas LGBT+ sofreram ou ainda sofrem muito por causa de um cristianismo homotransfóbico em que foram criadas. A elas foi apresentado um Deus que supostamente criou todos os seres humanos heterossexuais e cisgênero, isto é, identificados com o sexo que lhes é atribuído ao nascer. Homem e mulher existem para se unirem e procriarem. Não deve haver lugar para pessoas LGBT+ e nem para as suas uniões. Tudo isto é doença e abominação. Estas pessoas supostamente devem buscar a cura para os seus males, recorrendo à oração insistente, e jamais transigirem ou fazerem concessões.

O resultado são famílias divididas, agressões físicas ou verbais, hostilidades diversas, filhos expulsos de casa, pessoas deprimidas ou a caminho do suicídio. Para as vítimas deste sofrimento, a imagem do Deus da vida, Pai de Jesus Cristo, é ofuscada e distorcida. Em seu lugar, há um tirano opressor.

Felizmente há mudanças importantes em curso na sociedade e na Igreja. Uma das mais notáveis são os gestos e as palavras do papa Francisco ao longo do seu pontificado. Diversas vezes ele se encontrou com pessoas LGBT+, trazendo a todas elas conforto e encorajamento. Neste seu décimo ano como papa, assegurou-lhes que o mais importante a saberem sobre Deus é que Ele é pai e não renega nenhum de seus filhos. O Seu estilo é proximidade, misericórdia e ternura.

No Dia do Orgulho LGBT+, 28 de junho, Francisco enviou mensagem pelo Twitter falando do amor criativo de Deus que traz harmonia às diversidades. Bem distante do pânico moral de fundamentalistas e tradicionalistas, o papa reiterou seu apoio ao reconhecimento civil de uniões do mesmo sexo, e propôs a atenção pastoral aos que vivem nestas uniões, para que progridam no encontro com Cristo. Ao receber uma mulher transgênero, que presenteou o papa com um livro contando sua própria vida, Francisco a elogiou por escrever sua história e lhe recomendou ser sempre ela mesma.

É preciso que as pessoas LGBT+ sejam protegidas da homotransfobia religiosa e que identifiquem seus aliados dentro e fora da Igreja, bem como os ambientes onde possam estar seguras. Entre estes aliados estão a Rede Global de Católicos Arco-íris e a Rede Nacional de Católicos LGBT. Nelas se celebra o amor criativo de Deus que traz harmonia às diversidades. Muitas feridas podem ser curadas e a devida autoestima alcançada.

Na Bíblia, alguns sinais nos céus evocam a presença de Deus. A estrela de Belém simboliza o Natal; e o arco-íris, a aliança de Deus com todo ser vivente após o dilúvio. Nos tempos atuais, o arco-íris representa a diversidade existente na população LGBT+ e a sua luta por cidadania. Jesus nos revela a face de Deus, que é amor. Nada que não seja amor pode existir em Deus. Removendo-se a homotransfobia, a face divina brilha para a humanidade com mais esplendor, engrandecendo o Natal e aquecendo os corações dos que o celebram.

Leia mais