Tabu. A remoção da morte, Jesus e a vida eterna: a grande lesão do irmão Enzo Bianchi

Foto: Freepik

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07 Dezembro 2022

Aprender a morrer. Morrer vivendo. E depois: o inferno, o paraíso, o juízo de Deus. Na véspera de seu octogésimo aniversário, em março de 2023, Enzo Bianchi entrega a seus leitores, cristãos e não, um livro de meditações que encaram a morte de frente. Porque como reza o salmista: "Nossa vida chega a setenta anos, oitenta se houver forças".

O comentário é de Fabrizio D'Esposito, publicado por il Fatto Quotidiano, 05-12-2022. A tradução é de Luisa Rabolini.

Entre guerras e pandemias e muito mais, a morte tem uma presença cotidiana, mas é difícil falar sobre isso.

Acima de tudo da nossa, de morte. Daí o ponto de partida totalmente compartilhável do fundador do mosteiro de Bose (depois exilado por razões que permanecem desconhecidas): "A remoção da morte, o único verdadeiro tabu do nosso tempo". Aprender a morrer, justamente. Como Bianchi está fazendo.

Melhor, como Bianchi está tentando fazer. Seu cristianismo é amor e misericórdia, mas também se alimenta de dúvidas e medos, como aconteceu com Jesus no Horto das Oliveiras, antes de sua prisão, da condenação e da crucificação. As meditações de Cosa c'è di là (O que tem do outro lado, em tradução livre, il Mulino, 147 páginas, 15 euros) formam um livro pessoal dirigido a todos. O monge de Bose ama a vida e o mundo (mundanismo é outra coisa), descreve seu crepúsculo e imagina como gostaria de passar suas últimas horas.

 (Foto: Divulgação)

O tom, obviamente, conhecendo Bianchi e suas obras, não é o do cristão doutrinário, que com o dedo erguido aponta os pecados dos outros. No máximo, o medo da morte é um sentimento íntimo e profundo que se mede com o enigma de que virá depois. Em um ponto, porém, o irmão Bianchi não transige, digamos assim. A dor inútil e sem sentido da doença. “Deve ser dito claramente: a dor é insensata, não tem sentido, não serve a nenhuma purificação e, muito menos, a dor deve ser aceita como vontade do Senhor. Quantas blasfêmias foram ditas na igreja sobre a dor, até justificá-la dando a Deus um rosto e uma imagem perversos. Portanto, é indispensável o recurso a todos os "meios oferecidos pelas ciências médicas" para lutar contra a desumanização da dor.

O Deus que tece as meditações do monge de Bose não é ciumento nem vingativo, não abraça a cruz como uma bandeira contra os outros, não divide e pode até ser encontrado no inferno para nos acolher, naquele que é simplesmente um paradoxo de amor. Amor: é a palavra chave e que salva. Ao inferno nós mesmos nos condenamos, com o mal cometido, enquanto o julgamento de Deus não é a soma dos pecados, mas tem apenas um parâmetro: nossa capacidade de amar fraternalmente. “Seremos todos e cada um de nós julgados pelo amor, pelas relações que vivemos com os outros”.

Ao mesmo tempo pode causar um sentimento de angústia, a visão de um Paraíso estático, na "eterna contemplação de Deus", ou seja, uma "vida esvaziada" na qual nada acontece e "tornada árida pela ausência de emoções e desprovida de sentimentos". Um Paraíso dinâmico, antes: "Vida, comunhão, dança para todos os humanos, para todas as criaturas, todo o cosmos...". E o caminho salvífico do amor retorna nas últimas linhas do capítulo final, intitulado “Despedida”: “A quem achar difícil aplacar a angústia do pensamento da morte, sugiro que o caminho a seguir seja apenas aquele do amor, vivendo plenamente a vida, pelo tempo que nos for concedido”.

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