Tenondé Porã, território Guarani Mbya: resistência e mundo novo. Artigo de Raúl Zibechi

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23 Novembro 2022

Sair da cidade é um alívio. Depois de duas horas enrolado num turbilhão de carros e ônibus, semáforos e lojas, cimento e asfalto, começam a aparecer tons de verde, campos e florestas que nos convidam a continuar a percorrer estradas de terra. São Paulo ficou para trás, com sua agitação frenética, para dar lugar ao silêncio, que só é quebrado pelo canto dos pássaros e pelo murmúrio dos riachos.

A reportagem é de Raúl Zibechi, jornalista e analista político uruguaio, em artigo publicado por Desinformémonos, 21-11-2022. A tradução é de Wagner Fernandes de Azevedo. O artigo foi enviado pelo autor e que com satisfação republicamos.


Aldeia Kalipety. (Foto: Raúl Zibechi)

Apenas duas horas, que parecem séculos, separam a maior cidade sul-americana do território indígena Tenondé Porã, habitado por quase 2 mil Guarani Mbya que se espalham pela Mata Atlântica, um dos biomas mais ameaçados do planeta, mas que ainda abriga uma das maiores biodiversidades.

Mata cobria extensas áreas, desde a costa brasileira até Misiones, na Argentina e o leste do Paraguai, incluindo até o planalto brasileiro. Dos 130 milhões de hectares que possuía, hoje apenas 7% do território original está preservado, em grande parte devido ao esforço dos povos nativos que continuam defendendo a floresta, sua vida.

Da devastação que durou cinco séculos, apenas 25 mil Guarani Mbya que habitam seis estados brasileiros e 232 comunidades foram salvos. Os não indígenas, a quem chamam de “cabelo na boca”, os perseguiram ferozmente e chegaram perto de exterminá-los. Eles sobreviveram fugindo e se escondendo em florestas inacessíveis, mas sempre que podiam voltavam para as aldeias (tekoa, em guarani).

A mata nos leva até o povoado principal, Tenondé Porã, que leva o mesmo nome do território e foi o território original dos vários povoados atuais. É o único espaço onde se observam grandes construções de cimento, entre as quais se destacam a escola e o posto de saúde.

Continuamos por uma estrada irregular, pontilhada de buracos e buracos, que contorna prados e florestas até chegarmos ao nosso destino numa curva da estrada: a aldeia de Kalipety. Primeira surpresa: não tem centro, como nas vilas brancas, mas sim as construções que se adaptam ao terreno sinuoso e ondulado. O que poderia ser o “centro”, algo que na visão de mundo Guarani Mbya não deveria existir, é uma casa particular onde meninas e meninos brincam na terra úmida.


Aldeia Tape Miri. (Foto: Tenondé Porã)

Apesar do frio de um inverno muito rigoroso e longo, quase todas as pessoas andam descalças, pisando no chão com os pés, algo que tem um significado muito mais profundo do que eu consigo entender. Tjago, um jovem protagonista, assume a liderança sem dizer uma palavra. Caminhamos por um caminho entre casas de madeira e árvores enormes.

Casa de Reza

Chegamos em silêncio a uma casa enorme, diferente das outras, numa clareira na mata. Ao cruzar a porta, silêncio e escuridão, até que os olhos se acostumem. Entramos em dez pessoas, metade guarani, outra metade visitantes, sentamo-nos em cadeiras dispostas em círculo. Tiago começa a falar, lento, deliberado, amarrando as palavras como um colar.


Casa de Reza. (Foto: Raúl Zibechi)

“Não somos superiores aos outros seres”. As palavras gotejam. Nomeia “resistência” e “luta”; as características da educação ministrada pelos professores nas aldeias e garante que a espiritualidade é necessária para “restaurar o equilíbrio”. Ninguém o interrompe. Não há perguntas. Apenas o escutam em silêncio.

“Estamos aqui graças ao protagonismo das mulheres”, embora use a palavra mulherada, mais forte e poderosa em português, pois alude a uma massa feminina compacta. Ele esclarece que “não é feminismo ocidental”, e deixa as palavras no ar. Ele passa para outro tópico, no qual se alonga.

“O mundo indígena está meio perdido. A tecnologia não indígena é muito forte. Muitos jovens Guarani olham para tecnologia, querem aparecer no Facebook”, diz o jovem que pertence a uma nova safra de lideranças comunitárias. “O mundo está escuro”, ele confessa, e há um longo silêncio.

Ele é seguido por Priscilla, uma jovem que faz parte da coordenação de lideranças das 14 aldeias de Tenondé Porã. “Estou animada para falar porque nossa luta não foi fácil. As terras que temos agora foram obtidas com muita dor. Não sabíamos cultivar, mas estamos recuperando isso”. Ela fala muito rápido, mas faz uma pausa antes de deixar escapar: “Em 2013, fechamos a estrada, foi a primeira vez e tivemos medo.”

Ela conta que para se preparar para o fechamento da rodovia dos Bandeirantes, eles rezaram e cantaram dias e noites, mas também pediram ajuda ao Movimento Passe Livre (MPL), uma organização juvenil autônoma e horizontal que luta contra os altos preços do transporte e foi chave para desencadear as grandes manifestações em junho de 2013. Seus militantes os ensinaram a bloquear, inclusive queimando pneus.


Aldeia Tekoa Guyrapaju. (Foto: Tenondé Porã)

Após a reunião, almoçamos juntos. Escutam-se apenas sussurros. Então, muito tempo sem fazer nada... Perdão!! Fazendo coisas não produtivistas, como descansar, fumar, caminhar ou descansar nas redes olhando a floresta de baixo, uma perspectiva maravilhosa. Até o entardecer, quando a comunidade se encaminha à Casa de Reza.

Ka’aru ju” (boa tarde), diz cada pessoa que entra na casa. As mulheres e seus filhos sentam-se sobre colchões que rodeiam o fogão que começa a acender o fogo, dissipando o frio. Os homens mais jovens juntam-se no canto oposto, separado por uma fumaça espessa, fazendo som com seus instrumentos. “Estou feliz por nos visitarem”, diz uma voz serena, quase inaudível.

Os diálogos mencionam a importância da própria educação e saúde, dizem que “antes só os caciques falavam” e que agora “há mais diálogo”. Um silêncio ainda mais profundo surge, quebrado por uma voz: “Nosso território é sagrado”.

A certa altura, sem aviso, uma música começa a tocar. Todos a seguem, até as meninas e os meninos. O espaço é amplo, mas está todo ocupado. De um lado, os que tocam instrumentos. No centro, uma fila dupla de homens e mulheres dançam ritmicamente, repetindo sempre os mesmos movimentos. Perto das portas, na outra ponta, o fogão é cercado por mulheres que montam os enormes cachimbos de rituais (que em guarani mbya é petỹ gua) e os passam para os homens, embora elas também fumem.

Só os vi fumar na Casa de Reza, embora seja possível que o façam noutros espaços-tempos. Na frente de todos, um menino com o torso nu. Um guarani experiente se aproxima dele, esbanja pequenos toques como massagens suaves e leva o calor do cachimbo a algumas partes do corpo. Impossível não lembrar da moxa aplicada pelos acupunturistas. A certa altura, começa a circular uma bebida que consomem em pequenas quantidades, lentamente, como um ritual. Recuso a ayahuasca, pelo medo bobo de perder o controle...


Aldeia Kalipety. (Foto: Tenondé Porã)

O mundo novo

Em 2012 existiam apenas duas aldeias: Tenondé Porã e Krukutu, que não ultrapassavam 50 hectares, onde viviam aglomerados segundo os padrões culturais Guarani Mbya. Agora são 16 mil hectares com 14 aldeias, reconhecidas legalmente desde 2016. Como fizeram, como foi o processo, é a pergunta óbvia. “Retomada”, é a resposta. O que traduzimos como “recuperação” de suas terras ancestrais.

A primeira nova aldeia é a que estamos, Kalipety, formada em 2013, e a última Kuaray Oua, em 2021. O processo começa com as histórias de Priscilla e Tiago, mas vai muito além. Mulheres e jovens empurraram as retomadas. Mas não é por acaso que elas começaram em 2013, quando o Brasil foi abalado pelas maiores mobilizações de sua história. É quando eles se conectam ao MPL para o corte da rodovia.

O resto veio aos poucos. “Não temos mais caciques”, diz Tiago. Das 14 aldeias, 11 decidiram prescindir dessa figura colonial e patriarcal. Eles construíram um Conselho de Líderes (lideranças) com 22 membros, 12 dos quais são mulheres. “Nós estudamos os processos na América Latina, especialmente o zapatismo, e somos a favor da autonomia.” “Não precisamos de caciques”, acrescenta Priscilla, “mas sim de liderança coletiva”.

Na área educacional, optaram pela descentralização. Antes, as meninas e os meninos frequentavam a escola instalada pelo Estado em Tenondé Porã. Agora eles decidiram que são os professores que devem se mudar. Uma jovem professora explica: “Antes eles tinham que sentar entre quatro paredes, não podiam brincar nem pular, eles nos obrigavam a estudar inglês e português, mas nos últimos três anos temos tido outra educação, de acordo com as famílias”.


Aldeia Kalipety. (Foto: Raul Zibechi)

Os educadores percorrem as comunidades, fazem rodas sob as árvores e ensinam “a partir da experiência de vida, respeitando os valores dos nossos mais velhos, da nossa cultura”. Lucas, o compa antropólogo que passou a morar em Kalipety, com a companheira e a filha, continua: “Aprende-se na prática, concentrando, conversando, ouvindo os animais e a terra”.

“Alfabetizar em nossa língua é descolonizar”, acrescenta uma voz. A seguir, Lucas explica que a vida comunitária gira em torno da “generosidade (mborayvu, pronuncia-se boravú)”, que difere da reciprocidade porque “consiste em dar sem esperar retorno e representa abundância”.

Em seguida, explicam os avanços da produção, desde o artesanato até a multiplicação e recuperação das lavouras. Com dados de 2019, garantem que colheram 13 toneladas de mandioca e quase três toneladas de milho, além de quantidades variáveis de batata-doce, feijão, abóbora, amendoim e abacaxi, lembrando que só de batata-doce cultivam 50 variedades, mais nove de “milho verdadeiro”.

Estão recuperando áreas degradadas por séculos de devastação e diversificando cultivos sempre para consumo próprio. Em dez aldeias já contam com sistemas próprios de captação de água, que em geral retiram das nascentes e aplicam filtragem ecológica.


Aldeia Tape Miri. (Foto: Tenondé Porã)

“Nada disso teria sido alcançado sem a recuperação da terra”, insiste Tiago. “Porque os direitos são uma exceção. Trata-se de depender cada vez menos de recursos externos. A energia do bloqueio está viva até hoje. Junho de 2013 está vivo”, conclui.

À noite, antes de se recolherem para dormir nas cabanas, os jovens pegam seus celulares e os checam em um ritmo frenético. “Não sabia que tinha internet na vila”, digo um tanto aborrecido porque deixei o meu celular na cabana dos visitantes, bem longe. Tiago ri. “Temos, mas é controlada pela comunidade. Só são permitidas duas horas diárias no turno da noite, é uma forma de nos protegermos do exterior”, diz com total naturalidade.

Olhamo-nos sorrindo. Sem dúvida, trata-se da espiritualidade guarani, desse tremendo esforço coletivo para manter os equilíbrios, para seguir sendo povos vivos em um meio vivo e são. Não tem nada a ver com a religião, e tudo com a vida que, talvez, consiga nos contagiar.

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