Um paradigma denominado alteridade. Breve opinião a respeito dos embates religiosos no cenário político atual

Foto: geralt | Pixabay

24 Agosto 2022

 

"Falar com Deus é ato que não está totalmente subordinado a nosso pensamento racional moderno. Imagino, por isso, que não conseguiremos esvaecer ou modificar a fé de ninguém, muito menos conquistar votos dessas pessoas, concedendo ensinamentos com a finalidade de afirmar como as diversas religiões ou pessoas religiosas deveriam se portar no cenário político nacional. Precisamos, pelo contrário, afirmar a dignidade da fé de outrem, apesar de suas opiniões políticas".

 

O artigo é de Adriano Versiani, advogado e mestrando em história e conexões atlânticas pela Universidade Federal do Maranhão – UFMA.

 

Eis o artigo.  

 

Márcio Tavares D’amaral escreveu a excelente obra Os assassinos do sol, para narrar a história dos paradigmas filosóficos. Utilizei de sua terminologia no título para denotar a influência do referido pensador em minhas pesquisas e na própria hipótese deste breve artigo. O livro propõe que o cristianismo hibridizou ensinamentos do judaísmo e da cultura grega, fazendo-as cruzar na linha do tempo. Duas retas que, sem o cristianismo, jamais se encontrariam no tempo e no espaço [1]. Há, no primeiro volume de sua obra, uma reflexão sobre a noção de Santíssima Trindade que, em seu entendimento “implica a mais radical positivação da alteridade que o ocidente já foi capaz de imaginar” [2]. Alteridade no sentido de que Deus, na visão trinitária, é ele mesmo e outro simultaneamente, mas também uno em sua substância.

 

Essa ideia coaduna também com o entendimento de Leonardo Boff sobre o tema, pois Boff pontua que a santíssima trindadeaparece como o modelo para todo o convívio social igualitário, respeitoso das diferenças e justo” [3]. O presente artigo pretende, portanto, uma opinião sobre os embates religiosos ocorridos atualmente no cenário político, sob a perspectiva da alteridade, ou seja, da noção do outro em sua integralidade.

 

A eleição está posta e o discurso religioso tem tomado espaço nas redes sociais, modelando e anunciando um período eleitoral que, novamente, parece que se desaguará para o campo devocional. Há dois cenários políticos bem delineados em termos religiosos [4]: um vinculado aos progressistas, que buscam amparo em uma visão também mais progressista das religiões e outro, mais ligado ao bolsonarismo, que segue uma visão mais conservadora e por vezes reacionária da religião. Evidentemente que há muito de uma coisa na outra, de modo que existe conservadorismo no progressismo e vice-versa. Deixando claro minha opinião pessoal, tivesse agora de escolher um lado, seria adepto da “primeira corrente”, ou seja, de uma visão progressista da religião.

 

Contudo, a atualidade tem feito perceber, pelas redes sociais sobretudo, inúmeros ensinamentos a respeito do que Jesus Cristo foi e representou, geralmente mediante a propagação de uma visão crítica à imagem que o outro tem de Deus ou mesmo de sua relação pessoal com o Transcendente. De início, afirmo minha concordância com muitos desses pensamentos em sua essência, sobre a figura história de Jesus. Há, tão somente, um questionamento. Ele reside no tom professoral com que se pretende ensinar ao outro que sua “fé é equivocada” e que esse outro deveria modificar sua relação intima com Deus, o que prejudica, a meu ver, uma outra relação que também reputo afetiva: a política, que além do mais, para que crê, é também uma dimensão da própria fé e a fé também tem sua dimensão política. O que quero dizer com essa última premissa é que fé e política não são dois vasos incomunicáveis, há sim espaço para analisar ambos os assuntos transversalmente.

 

Faustino Teixeira relaciona a mística como a afinidade entre o homem e Deus, afirmando que o místico vem habitado por uma voracidade amorosa, que chama pela figura e pela presença, em uma sede de totalidade [5]. Portanto, quer me parecer impossível afirmar ao outro como deve ser sua imagem a respeito de Deus ou mesmo apresentá-lo a uma Cristologia que gostaríamos que ele partilhasse, na medida em que essa voracidade amorosa é por demais íntima, delicada e pessoal.

 

Esse não me parece ser o caminho. A toda evidência, Jesus Cristo é personagem histórico, disso não restam dúvidas, mas a relação mística, porém, goza de um grau acentuado de subjetividade, Transcendência, delicadeza e afetividade, embora também seja inserida na história. A própria noção de outro, a alteridade que por profissão de fé precisamos partilhar, não nos permite adentrar nesse espaço místico do outro, habitado pelo interior do ser e pela própria Transcendência, apenas para criticá-lo.

 

Tomo aqui um alentado empréstimo de Luiz Costa Lima, que muito bem aborda as relações entre história, literatura e o ficcional, onde, embasado em Simmel, fala sobre a importância da análise da subjetividade nas relações históricas, afinal uma decisão política também é um acontecimento psicologicamente produzido [6]. Ora, somos seres psicológicos. Há mais de cem anos Freud já nos demonstraria que há, no homem, uma dimensão inconsciente. Portanto, o espaço da Transcendência, é digno de respeito, assim como diversas as demais searas comandadas pela subjetividade.

 

Ela não é inalcançável pelo que chamamos de racionalidade, mas falar com Deus é ato que não está totalmente subordinado a nosso pensamento racional moderno. Imagino, por isso, que não conseguiremos esvaecer ou modificar a fé de ninguém, muito menos conquistar votos dessas pessoas, concedendo ensinamentos com a finalidade de afirmar como as diversas religiões ou pessoas religiosas deveriam se portar no cenário político nacional. Precisamos, pelo contrário, afirmar a dignidade da fé de outrem, apesar de suas opiniões políticas.

 

Há um pensamento de Maria Clara Luchetti Bingemer que pode contribuir para elucidar esse fato:

 

“O caminho da relação com o outro Transcendente e Divino que gera uma forma única de conhecimento é, portanto, constitutivo mesmo da experiência mística. E no caso da mística cristã, esse outro, essa alteridade, tem o componente antropológico no centro de sua identidade, uma vez que o Deus experimentado se fez carne e mostrou um rosto humano. Tudo que releva da experiência mística, portanto, não pode desviar ou abstrair ou mesmo distrair daquilo que constitui a humanidade do ser humano. É paradoxalmente e na similitude mais profunda com o humano que Deus – segundo a Revelação e a mística cristãs – vai mostrar sua diferença e sua alteridade absolutamente transcendentes” [7].

 

A mística não se traduz em uma relação de olhos fechados com o mundo e nem está alheia a análises, críticas e mensurações, mas nessa área não se pode partir de um argumento tão somente racionalista. Estamos diante do próprio Deus experimentado, ou seja, de uma experiência imanente e Transcendente.

 

Gerson Scholem fez uma crítica na primeira metade do século XX, afirmando como o judaísmo foi invadido por uma dimensão racionalista que esgarça a própria fé, promovendo uma aculturação do judaísmo, sobretudo em termos das concepções messianismo e redenção [8]. Racionalizar a fé, mostrar um caminho que deveria ser racional, não me parece ser um bom espaço para a dimensão mística, pois, como dito acima, ela não está inserida nessa roupagem. Enfim, Jesus é personagem histórico, mas precisamos também lembrar de Tereza de Ávila que teve o coração transpassado por uma flecha flamejante de amor, ocasião em que experimentou profundo êxtase. A propósito, há uma obra de Gian Lorenzo Bernini que retrata o momento místico:

 

 

 

Essa relação deve ser guardada sob o manto da dignidade, não existe outra forma de lidar com esse fator. Estudá-lo, analisá-lo, debatê-lo (no bom sentido do termo), dialogar com ele, tudo faz parte do processo cultural da fé, mas criticar sem o devido respeito ao outro, não me parece um caminho apropriado para a dimensão mística.

 

O filósofo lituano Emmanuel Lévinas pensa a ética do outro. Lévinas coloca o outro no centro de sua concepção ética da alteridade. O filósofo reflete a questão do homem frente ao infinito, em uma espécie de tipologia para propor sua ética, pois é nela que pensa a relação do indivíduo com o outro. Alexandre Leone traz uma passagem em que ele afirma categoricamente que “Deus é transcendente até a ausência, mas torna-se presente pela ação ética” [9] e, em citação ao próprio filósofo traz o entendimento de que “conhecer a Deus é saber o que se deve fazer” [10]. Para Emmanuel, a “metafísica precede a ontologia” [11], ou seja, a ética, tendente ao infinito que é, não compreende o plano da imanência, mas da transcendência. Não conseguiremos, portanto, atingir o âmago do outro com uma imagem totalizante sobre como a fé de terceiros deveria proceder.

 

Em 23 de novembro de 2021, Faustino Teixeira nos convocou a ter uma outra relação com os pentecostais. O texto é de uma sensibilidade ímpar e fala sobre não tratar o assunto, ou seja, a relação dos pentecostais com a fé, como uma definição cerrada [12] ou, eu diria, totalizante, como se fôssemos todos portadores de uma verdade confessional a respeito da qual “eles” não conhecem.

 

As questões da fé demandam revirar o hummus da terra, ou seja, ser humildes, generosos e com capacidade de ciência e consciência a respeito do outro. Como diz Paulo na Carta aos Coríntios, a sabedoria divina não disputa espaço de poder com a sabedoria humana (1 Corintios, cap. 1, 2 e 3), dado que ela simplesmente habita outro espaço cósmico ou, na brilhante nota poética do salmo 36 “(...) e com tua luz nós vemos a luz”. Como diz S. Paulo, trata-se de uma sabedoria que não é deste mundo e que “Nenhum dos príncipes deste mundo a conheceu, pois se a tivessem conhecido, não teriam crucificado o Senhor da Gloria” [13]. Vejamos a força desse pensamento místico: é uma sabedoria transcendente que, à época, as pessoas não conheciam, pois se conhecessem não teriam crucificado Cristo.

 

Sigamos o espaço da política, que, repito, creio que deve discutir questões de fé, mas sem discriminar a relação mística de outrem. Imagino que para um país de paz, fraternidade e solidariedade, derrotar Bolsonaro é um caminho necessário, mas alteridade é, também, profissão de fé.

 

Nesses momentos, Milton Nascimento ensina maravilhosamente:

 

 

Notas: 

 

[1] D’AMARAL, Márcio Tavares. Os assassinos do sol: uma história dos paradigmas filósficos. Rio de janeiro: editora UFRJ, 2015.

[2] D’AMARAL, 2015, p.99.

[3] BOFF, Leonardo. A trindade e a sociedade. 6.ed. Rio de Janeiro: Vozes, 2014, p.28.

[4] Falo aqui sobre a forma como candidatos ou militantes abordam a religião e não o inverso.

[5] TEIXEIRA, Faustino (org.). Caminhos da mística (livro eletrônico). São Paulo: Paulinas, 2018, pos.52.

[6] LIMA, Luiz Costa. O chão da mente: a pergunta pela ficção. São Paulo: Unesp, 2021, p. 127.

[7] LOSSO, Eduardo Guerreiro; BINGEMER, Maria Clara; PINHEIRO, Marcus Reis (orgs.). A mística e os místicos. Rio de Janeiro: Vozes, 2022, p39.

[8] SCHOLEM, G. As grandes correntes da mística judaica. São Paulo: Perspectiva, 1995. SCHOLEM, G. As grandes correntes da mística judaica. São Paulo: Perspectiva, 1995.

[9] LEONE, Alexandre. In LOSSO, Eduardo Guerreiro; BINGEMER, Maria Clara; PINHEIRO, Marcus Reis (orgs.). A mística e os místicos. Rio de Janeiro: Vozes, 2022, p.83.

[10] Apud LEONE, 2022, p.84.

[11] LEVINAS, Emmanuel. Totalidade e infinito. Portugal: Edições 70, 1980, p.30.

[12] Veja aqui.

[13] BÍBLIA DE JESURALÉM. 1.ed. São Paulo: Paulus, 2020, p. 1995. 1 Cor, Cap. 2, vers. 6-9.

 

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